quarta-feira, 31 de maio de 2017

Diário de Bordo 31//5/2/17 , Bacia de Campos, Altura de Macaé

As odes ao mar são uma constante no pensamento humano desde sabe-se lá quando. Certamente não em todas as famílias mas; sem sorte de erro, em todas as gerações houve (e podemos também colocar o verbo no futuro sem que seja isso um vaticínio oriundo de dom. Se bem que em colocando-se-lhe no presente podemos abarcar todos os tempos em um - que é em verdade como é o tempo em seu próprio entendimento) pessoas que sofreram (ão, em) de um profundo e passivo sentimento (e não sensação, que essa mora apenas numa partícula de agora) de admiração por esse mar de tudo que se possa existir que é o mar.

 As grandes mentes imortalizaram suas reflexões quando as jogaram por sobre a água salgada. Tenho pra mim que sabiam todos que dá-se um presente a Deus quando  se deita uma homenagem vinda do coração no espelho que ele próprio fez pro céu. Decerto sabia também Deus que haveria entre nós aqueles que, concluindo-se impotentes de entregar no céu suas singelezas. lançariam todas ao mar. E quando Se contemplasse em seu espelho, diante de Si estariam os pensamentos-obras do homem. Assim é a genialidade das obras na natureza. Tudo diz sem nada falar. Tudo o que existe desde uma fase pré-verbal é maravilhoso. Até mesmo nós, certo?

Dizia quando jogava milho aos pombos, King Benny - um velho mafioso de Hell´s Kitchen, quando alguém perguntou por que um velho assassino iria gostar de pombos,  "eu gosto de tudo o que não fala". Ele estava coberto de razão.

Platão, lá no século V antes de Jota Cê já dizia que "existem três tipos de homens: os vivos, os mortos, e os que vão para o mar.". O próprio Jota Cê "que morreu por milhões, mas andou com apenas 12" foi buscar eles todos dentro d´água. Veja você.

Victor Hugo, quando exilado na ilha de Guernsey, escreveu sobre os "trabalhadores no mar". A propósito, seres humanos, leiam Victor Hugo para que vocês não morram em vão. Se ele fosse convidado pra escrever bula de remédio, aspirina curaria depressão.

Hoje o mar amanheceu como o clássico mar de almirante. Uma coisa linda. A impressão que dava é que era feito de gelatina, e se a gente tocasse nele, tremeria todo até o continente, sem que nossa mão afundasse. Às vezes faz a gente pensar que nem criança, o mar. Saudosismo que faz verter lágrimas, nossa amostra grátis de oceano. Lágrima no paladar é a o mar dizendo Namastê.

Nosso caráter é a média de nossa conduta. Nossa conduta é a fração que tornamos ações da nossa personalidade. Nossa personalidade é nossa postura diante da vida. Nossa postura é o quanto pendula o eixo que tem de um lado os pensamentos aproveitáveis e do outro os mesquinhos na balança  da nossa solidão.

Os pensamentos me vêm na maioria das vezes na mesma voz, que é a minha mesmo. Mas algumas reflexões vêm por outras vozes. É como se cada tipo de pensamento tivesse um jeito, um estilo próprio, e vem do seu jeito característico. É como Fernando Pessoa, saca? Era um, mas era vários. Acho que assim é o pensamento de todo mundo. Quando o cara fala, "ah, mas o meu jeito de pensar":  é difícil essa coisa de jeito de pensar. Você pensa, simplesmente. Só que você pensa muitas coisas. Você pensa inclusive, enquanto muitas coisas: enquanto filho, enquanto pai, enquanto estudante, enquanto macumbeiro, enquanto ser político, enquanto o diabo. "O meu jeito de pensar", calma aí, cara pálida. O caso é que eu olhei o mar e comecei a pensar. É isso o que eu queria falar, caso não tenha feito sentido nenhum. Já que tem alguém lendo e dialogando comigo, este é o meu jeito de pensar...

- Mas tá uma lagoa! Por um momento eu não consegui nem identificar o horizonte.
- Tá. E desde o dia dez tava tão ruim...
- Já sabe, né? Vem mal tempo aí.
- É sempre assim.
- Quando fica espelhado assim, né? Sempre vira depois.
- Não. A tua mania de adiantar logo que a coisa vai piorar, sem nem aproveitar quando está boa.

Pensamentos à parte, o fato é que o dia hoje foi tão bom que o próprio mar descansou e fez pose para a foto.