HOMEM AO MAR
Hoje é o dia de embarcar. Estamos no hotel, como de praxe. No dia anterior ao embarque, temos uma reunião no escritório. É a reunião de pré-embarque. É feita na sede da empresa, no Rio. Quando termina, pegamos sempre um carro para Macaé, dormimos no Othon, e no dia seguinte; normalmente pela parte da manhã, embarcamos.
Dessa vez foi diferente.
Na tarde anterior ao pré-embarque, recebi (recebemos todos, em vários grupos diferentes no whatsapp) fotos e áudios sobre um rapaz que estava desaparecido de uma embarcação. Todo mundo viu, mas ninguém teceu discussões ou comentários sobre. Eu não comentei em casa. A família sempre tem muito medo de mar. Puxam para eles o medo que a gente não pode ter. Conosco ficam o respeito, a atenção. E as histórias.
Na manhã de ontem, a reunião. Vem o RH: fala, vê quem tá sem algum tipo de documento, vai embora. Pessoal de compras: mostra inovações no sistema de pedidos, alinha procedimentos, vai embora. Nessa empresa, até mesmo a diretoria vem, fala sobre o momento da companhia, as cobranças do cliente que devemos atender, e tal; vai embora. Enfim, todos os setores envolvidos na operação vêm e dão seu recado; trazem e levam informações necessárias para que a roda continue a girar.
Eis que vem o QSMS - o pessoal da segurança do trabalho. Eles vêm sempre com o discurso de usar os equipamentos de segurança, ter cuidado pra trabalhar, aquilo. E trazem os avisos de segurança circulados pelo cliente. Os últimos acidentes (pois é, todo mês tem uma penca de acidente), as causas, o que deveria ter sido feito para que não acontecessem.
Nosso cliente estava com uma campanha de final de ano. Em dezembro não deveria haver nenhum acidente. Não deu muito certo. Em dezembro jã são três mortes. Um motorista de caminhão que não explicaram muito - já que não trabalhamos com caminhão; um cara em uma plataforma que estava no lugar errado no meio de uma operação. Um cara estava operando uma máquina de perfuração, daquelas máquinas enormes, pesadas. Na ponta dessa máquina tem tipo uma pá, uma garra apontando pra cima. Quando ele botou essa máquina para girar, ela imprensou o outro cara contra uma parede. Cortou ele no meio. Botaram lá uma foto de como teria sido o momento. E falaram nesse rapaz, o que caiu no mar.
O cara estava lixando a asa do passadiço (corredor aberto que fica em volta do passadiço. É a área externa dessa parte do navio, fica sempre no último andar) para, em seguida, poder pintar. Estava em cima de uma escada. Dessas de alumínio que a gente tem em casa. Nas mensagens que havíamos recebido no dia anterior, as pessoas diziam que ventava bastante desde cedo, e que o mar estava mexido também.
Por volta das cinco da tarde, o cliente foi notificado que um tripulante havia desaparecido. Notificaram às cinco. Claro que antes de notificar, procuraram o cara pelo barco. Não encontraram. Pela foto, a lixadeira ficou pendurada pelo fio, na balaustrada . A conclusão que a gente tira das fotos e dos áudios, é que o cara estava sem o equipamento de proteção correto para o serviço, que bateu um vento, o mar balançou, a escada mexeu, o rapaz desequilibrou e caiu la de cima.
Quer dizer, enquanto ouvíamos isso na nossa reunião; já haviam se passado mais de doze horas. E nada de acharem ele.
Almoçamos no Rio, entramos no carro e viemos para Macaé. Já no caminho, um amigo recebeu uma mensagem dizendo que nosso embarque atrasaria um dia, já que foi necessário apoiar de alguma maneira nas buscas pelo tripulante desaparecido. Nesse caso, deixamos as coisas no hotel e fomos ao comércio da cidade. Alguém sempre precisa comprar alguma coisa. Eu precisaria de uma bermuda e uma camisa para usar no dia extra. Compramos o que precisávamos, e uma vez que tínhamos um diz extra de folga, sentamos para tomarmos uma cerveja. Na terceira garrafa veio uma mensagm no nosso grupo: "a família do rapaz que morreu acabou de chegar no nosso hotel. Cuidado com os comentários."
Aí a coisa mudou de figura. O acidente, a tragédia, o pesar. Estavam agora todos muito perto de nós. Já era hora da janta, e tínhamos que voltar logo para o hotel, ou ficaríamos com fome. No caminho, encontramos outro tripulante.
- Como vocês sabem que é a família do cara?
-Ah, tava todo mundo jantando. De repente, entraram uns caras de macacão e entregaram uma bagagem a uma senhora. Ela começou a chorar.
-Caralho, que merda.
Voltamos ao hotel. Alguns sairam de novo, tinha um tal karaokê rolando num bar. Eu fiquei. Já estava cansado, com sono. mas só fui dormir lá pela meia noite. A cabeça tava nessa situação.
Acordei cedo, sete horas. Fiz força pra dormir de novo mas não consegui. Fui na varanda e fumei um cigarro antes de descer pra tomar café. O pessoal do hotel já sabe que eu fumo. Sempre acham filtros de cigarro usados no parapeito da varanda. Agora quando eu chego tem um cinzeiro e fósforos promocionais com o emblema do Othon ao lado da minha cama. Meu companheiro de quarto ainda roncava, então escovei os dentes e desci rápido para que ele não acordasse antes de sua hora.
Peguei o elevador sozinho, e quando cheguei ao saguão e a porta se abriu, algo me empurrou de volta para trás. Uma senhora entrava no elevador. Uma mulher mais jovem, que não parecia ser familiar dela, a segurava pelo antebraço. Falou baixinho "deixa só o rapaz sair". A senhora tinha olhos de horizonte. Sem dúvida são esses os olhos que procuram alguém em alto mar. E não havia mais como não saber que uma mãe que perdeu um filho acabava de cruzar o meu caminho.
Já sentei para tomar café sem resposta para aquele dia. A nossa segurança (segurança no sentido de atitude, determinação) é a resposta que damos para o dia, para a vida. Eu já não tinha o que responder. Já vi mãe perdendo filho. Já vi mãe perdendo mais de um filho. A verdade que essa dor sem resposta traz, sempre será desorientadora. Sempre faz calar.E é algo que não há como se acostumar. Não se naturaliza isso, porra.
quinze minutos depois, descem todos eles novamente. Iam tomar café. O refeitório estava vazio. Eu, um amigo do barco na mesma mesa para dois. Chegaram a senhora, a mulher mais nova, e um senhor. A mulher beirava os quarenta anos. O casal passava dos cinquenta. O marinheiro desaparecido poderia ter exatamente a minha idade.
O rosto da senhora estava vermelho. Ela tinha subido pra chorar. E agora estava minimamente recomposta, e tinha que comer. Silêncio na minha mesa. Levantei para pegar frutas. A mulher que a acompanhava dava sugestões a ela. Eu não consegui ficar quieto, alheio.
-Esse queijinho aqui é bom pra botar no pão, senhora.
Ela respondeu um "é?" com as pálpebras pesadas, semicerradas, mais uma vez formando um horizonte no olhar. Deixei minha fruta na mesa que estava mais perto, e segurei na mão dela.
-Eu quero que a senhora saiba que tem muita gente com esperança pela senhora. Não pense que a senhora esteja sozinha, não. Na nossa profissão, a gente tem uma coisa que mesmo não conhecendo uma pessoa que trabalha em outro barco, todo mundo sabe o que todo mundo passa. E todo mundo pode passar os mesmo perigos. A gente sempre pede pra que não aconteça com a gente. Mas às vezes, acontece. Mas a gente tá com a senhora. Eu tenho mãe também, eu não esqueço dela nunca. E eu sei que ela não esquece de mim também. Ela voltou a chorar. Notei que a outra mulher ficou um pouco impaciente, como se estivesse pensando "porra, agora que ela conseguiu ficar calma, vem você".
-Eu posso dar um abraço na senhora ?
E abracei aquela mãe. E dei uma abraço de filho naquela mãe. Dei nela um abraço de milagre. Maior que a alegria do nascimento de um filho é a alegria da notícia de se encontrar vivo, um filho dado como morto. Quando a gente acostuma com a morte, o milagre da vida é infinitamente maior. Foi ese o abraço que dei nela. Desejei puxar dela o tanto de tristeza que eu conseguisse, para que ela pudesse fazer sua refeição. Enquanto estava no meu abraço, ela disse chorando: "o meu filho era tão amado...". A morte de um filho traz para o rosto, as rugas e, para o corpo, a estafa que se formam na alma.
-Eu não tenho dúvida disso.
Dei um beijo na testa dela e voltei pra minha mesa pesando toneladas a mais.
Subi pro meu quarto para escrever sobre o dia de hoje. Meu computador não quer ligar, essa semana eu vi que tinha um monte de formiga morando dentro dele, mas ele ainda ligava. Então desci para escrever no computador do hotel. A mãe do rapaz estã sentada num sofá, bem atrás de mim. Ela não está chorando.