segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Diário de Bordo, 07/01/2019 – A 43 km ao Norte de Paracuru – Ceará




SOLILÓQUIO

Existem perguntas de extrema complexidade filosófica , e a humanidade vem fazendo essas mesmas perguntas através dos tempos. De onde viemos? Por que estamos aqui? Se vamos para algum lugar, para onde vamos? Por que para lá, e não para alhures? Talvez, uma possível chave para abrir as portas dessas respostas seja uma outra pergunta: o que somos nós? Ora, só se sabe o que é algo em oposição a outra coisa; um não-algo. O que somos nós, para os outros? Somos o que pensamos que somos, ou somos o que todos os que são outros pensam que somos? E com todas essas dúvidas, viemos sendo. E sem nenhuma dessas respostas continuamos sendo, ainda que sem saber o que somos. A ignorância do que se é, é uma condição para sê-lo? Sabemos que até então tem sido. O que poderemos ser quando descobrirmos o que somos?
Buscamos entender o mundo com base na nossa consciência. Por termos consciência, criamos a cultura e nos diferenciamos de todos os outros seres de nosso planeta. Começamos devagar a entender o que não somos, pois agora sabíamos que tudo o que não tem consciência não é o que somos nós. Apesar de nos sabermos finitos, mortais; a cultura – essa nossa consciência coletiva – sobrevive através do tempo, provando que somos mesmo diferentes de tudo mais. Com a imortalidade da cultura, surge uma humanidade. Uma fagulha de cada homem invisível já enterrado que dá sentido à vida dos que estão inscritos no agora. A humanidade existe unicamente porque os mortos dão sentido à vida dos vivos. Os outros animais apenas vivem. Nós vivemos sempre em relação a tudo aquilo o que já foi vivido. Eis a humanidade.
Nesse caso, a humanidade é maior que o presente. Existe nesse momento; porém sempre em relação ao conhecido, ao passado. De alguns séculos para cá, passamos a viver em relação ao futuro. Estamos todos invariavelmente inscritos no tempo. Celebramos o passado nos presentes e fazemos planos para o futuro, por termos a consciência de que; apesar de nossa finitude, o tempo é eterno.
O tempo se sabe eterno? Ou a eternidade do tempo é muito mais uma característica que a certeza de nosso fim atribui a algo maior que nossa finita e curta consciência? Somos apenas um intervalo, mas queremos caracterizar o todo. O tempo precisa do homem para ser eterno? Se tão maior que toda a humanidade em todos os seus presentes, será que não é o tempo uma superconsciência? Se sim, terá o tempo consciência de nós? Eu duvido muito. Qual de nós tem consciência do funcionamento do próprio corpo? Qual de nós controla conscientemente a própria hematose, as funções de organelas celulares, o fluxo de sangue no próprio corpo? São todos elementos inscritos em nós mesmos, e só há tão pouco tempo passamos a saber que existem. Se o tempo é uma superconsciência também em busca de si, há uma grande chance de ser indiferente a nós. E de fato, é o que tem acontecido.
Quem quiser ouvir o barulho do mar, que o procure dentro da concha. Quem quiser saber sobre o tempo, que o procure no ser humano. Às vezes é procurando no outro que encontramos em nós. A teoria da relatividade - maior descoberta da ciência moderna –mostra que é o ponto de vista quem faz a diferença no caminho para a resposta.
O que vê um rio quando desce pelas pedras? O que sente o vento quando por ele passa um pássaro? Como se perdeu na concha, o barulho do mar?
As águas do rio seguem seu eterno caminho, sem o qual não seriam elas um rio. O caminho é eterno na vida do rio.
O voo é parte integrante dos pássaros, mas só existe em relação ao vento. O vento é eterno no voo dos pássaros.
No espiral em que se perdeu, o barulho do mar tenta eternamente voltar para casa. Caminha incessante dentro da concha. É dentro da concha que o barulho do mar é eterno.
Nós, em nossa finitude, nos utilizamos do tempo; ou o tempo se utiliza de todos nós pra assim ser eterno?