O reflexo do comum integra-se ao do alheio. Use o espelho e obtenha o vice-versa
segunda-feira, 26 de abril de 2010
A boca reflexiva e o cérebro boquiaberto
Já parou pra reparar que quando a gente perde o controle da situação e não há outra saída que não seja chorar, a boca sabe que o cérebro está ocupado ocupando o resto do corpo e faz sua revolução, deixando de trabalhar? A gente simplesmente não consegue completar uma frase. A essa altura, você já está muito nervoso e preocupado em conseguir falar alguma coisa. E aí acaba falando o que não quer, pois quando a cabeça quer provar pro resto do corpo que ainda manda, a última coisa que se presta atenção é no que se fala.
A cabeça negocia a situação e tenta fazer o corpo fingir que nada aconteceu, mas a boca trabalha tremendo, trincando. Só volta ao normal se tiver certeza de que o corpo inteiro entrou em acordo. Só quando o sangue esfria, quando o coração acalma, quando a lágrima seca é que a boca volta a ocupar seu papel de boca na hierarquia do corpo. Paradoxalmente ela mostra sua importância exatamente quando fica calada e faz da greve sua revolução silenciosa. Quando a gente tem milhões de coisas para falar e dividir, mas não consegue.
Afinal, quem é que manda no corpo? A cabeça ou a boca? Poderíamos ter um milhão de cérebros, mas sem ao menos uma boca, tudo aquilo que chamamos "pensamento" seria "vontade de falar". E quanto mais brilhantes os pensamentos, quanto mais revolucionárias as descobertas, quanto mais inacreditáveis as histórias, tanto mais dolorosa seria a vontade de falar. Sem boca para falar, o cérebro se torna prisioneiro de si mesmo.
Começo a achar que na verdade a boca deixa a cabeça pensar que manda... até porque ela não escolhe o que se fala, de modo que o cérebro é sempre seu bode expiatório. Ela induz ao crime de falar o que não se pensou e nunca leva a culpa. A única imcumbência do cérebro é pensar, e até hoje não inventou uma maneira de contornar tal situação... já a boca tem muito mais atribuições (e quantas, não é? ahahhahaha) e mesmo assim consegue o que quer através de si própria, apenas.
Definitivamente, eu adoro as bocas.......
terça-feira, 20 de abril de 2010
Naturalmente enclausurados
... e mais um dia começa.
Não sei bem quais pepinos encontrarei hoje
mas é natural que já estejam plantados.
Evite me chorar tuas pitangas,
que de abacaxi já estou farto.
A alegria da salsa foi trocada.
Trocada pela ofensiva banana nossa
que de muitas maneiras nos é dada a cada dia.
Vindos de semente modificada,
mesmo antes de maduros
somos levados da terra
Quem abre a boca para pensar
pode esperar um tomate na testa,
um ovo podre.
Nunca morda a maçã,
ouço o papagaio repetir
com uma melancia pendurada no pescoço.
Tome de coice , tome de sapo a engolir.
Certo está quem é cordeiro, que não faz cachorrada ao dono
E a vida de inseto ao redor da lâmpada
a cada dia cria mais invertebrados
todos juntos, buscando sua migalha
Em toda essa burrice o leão vigia vários de nós
faminto pelos frutos que nosso tempo cultivou
a passos de formiga
Cai o sol , estamos nós morcegando
tentando fugir da realidade de rato
Outro dia já está engatilhado, carambola!
Mas preguiça somos nós
Deitar como vime seco e macaquear como coelho
é só o que queremos quando estamos a sós.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Inteligência de cova x Marginalidade premiada
Você vive em um planeta cheio de continentes.
Você vive em um continente cheio de países.
Você vive em um país cheio de estados.
Você vive em um estado cheio de cidades.
Você vive em uma cidade cheia de gente.
Para cada pessoa uma realidade, um critério de verdade. E para cada critério de verdade, um argumento muito poderoso para legitimá-lo. Para se ter a idéia do quão poderoso é tal argumento, basta ter em mente que você mesmo passa a acreditar nele.
Desde que o homem começou a se organizar em grandes grupos, foram criadas normas para que os diferentes critérios de verdade não entrassem em choque, e assim se conseguisse um grupo coeso e estável. Os grandes grupos passaram a ser chamados de sociedades. E as sociedades se diferenciaram, cada uma guardando as especificidades de seu local de origem, e é claro, cada uma representando um modelo mais ou menos parecido com a realidade (critério de verdade) geral dos indivíduos que as constituem.
A evolução disso tudo eu não preciso apresentar aqui. Basta que você se levante da sua cadeira e olhe pela janela. Veja o resultado da sociedade que seus antepassados deram suas vidas para formar. Veja no que resultaram milhões de guerras levadas a cabo entre diferentes sociedades, cada uma matando os integrantes da outra unicamente por ser esse o único ponto de convergência entre seus critérios de verdade. Matar o outro quando ele não pensa como nós.
O que me incomoda é que o homem tem ficado realmente inteligente de um tempo pra cá. E a linha entre a inteligência e a loucura é quase imperceptível. Assim, o homem começa a agir como louco, fingindo ser inteligente. Você lembra da inquisição? Você lembra do holocausto? Por trás de todos esses e outros quadros estavam homens distintos, inteligentes, renomados... E o que eles fizeram? MATARAM. E homens digníssimos ainda continuam matando, e matarão sempre . Cada um em nome da sua própria realidade.
Agora, vivemos em nossas sociedades cada vez maiores, nas quais fica cada vez mais difícil viver de acordo com a nossa realidade. Porque a nova tendência é unificar-se as realidades, não de acordo com as realidades das sociedades e de seus membros, mas com as de quem comanda esses enormes grupos.
Pergunte a um morador de rua se ele acha bonito ser um morador de rua. Pergunte a ele se ele é o que quer ser. Pergunte se ele acha natural haver moradores de rua. Tente mostrar que assim como você sabe, ele deve saber que existe um livre arbítrio que diz que podemos o que quisermos. Agora , provavelmente você está diante de um mendigo que ri de você descontroladamente. Pronto. Sem dizer nada, alguém que você nunca julgou digno de atenção fez ruir tudo aquilo em que você acreditava. Uma risada sarcástica acaba de calar um comentário "inteligente".
Costumamos dizer que os moradores de rua estão à margem da sociedade. Assim, o que vale pra você não vale para ele. E pra ele... bom. Pra ele não vale nada. Mas quando nada vale, tudo passa a valer... então esse sujeito que está à margem de nossa sociedade está também à margem das nossas leis. E por estar excluído das nossas leis,agora sim, ELE PODE TUDO. Pode dedicar integralmente seu tempo a ser o que quiser. Mas pra você, será sempre um mendigo.
Um mendigo que vive em uma cidade cheia de gente
Um mendigo que vive em um estado cheio de cidades
Um mendigo que vive em um país cheio de estados
Um mendigo que vive em um continente cheio de países
Um mendigo que vive em um planeta cheio de continentes
Um mendigo que vive em um sistema solar cheio de planetas
E mais do que tudo, um mendigo que vive nesse planeta, mas em busca do planeta dos mendigos. Um planeta aonde todos possam ser realmente tudo aquilo que querem....