Você vive em um sistema solar cheio de planetas.
Você vive em um planeta cheio de continentes.
Você vive em um continente cheio de países.
Você vive em um país cheio de estados.
Você vive em um estado cheio de cidades.
Você vive em uma cidade cheia de gente.
Para cada pessoa uma realidade, um critério de verdade. E para cada critério de verdade, um argumento muito poderoso para legitimá-lo. Para se ter a idéia do quão poderoso é tal argumento, basta ter em mente que você mesmo passa a acreditar nele.
Desde que o homem começou a se organizar em grandes grupos, foram criadas normas para que os diferentes critérios de verdade não entrassem em choque, e assim se conseguisse um grupo coeso e estável. Os grandes grupos passaram a ser chamados de sociedades. E as sociedades se diferenciaram, cada uma guardando as especificidades de seu local de origem, e é claro, cada uma representando um modelo mais ou menos parecido com a realidade (critério de verdade) geral dos indivíduos que as constituem.
A evolução disso tudo eu não preciso apresentar aqui. Basta que você se levante da sua cadeira e olhe pela janela. Veja o resultado da sociedade que seus antepassados deram suas vidas para formar. Veja no que resultaram milhões de guerras levadas a cabo entre diferentes sociedades, cada uma matando os integrantes da outra unicamente por ser esse o único ponto de convergência entre seus critérios de verdade. Matar o outro quando ele não pensa como nós.
O que me incomoda é que o homem tem ficado realmente inteligente de um tempo pra cá. E a linha entre a inteligência e a loucura é quase imperceptível. Assim, o homem começa a agir como louco, fingindo ser inteligente. Você lembra da inquisição? Você lembra do holocausto? Por trás de todos esses e outros quadros estavam homens distintos, inteligentes, renomados... E o que eles fizeram? MATARAM. E homens digníssimos ainda continuam matando, e matarão sempre . Cada um em nome da sua própria realidade.
Agora, vivemos em nossas sociedades cada vez maiores, nas quais fica cada vez mais difícil viver de acordo com a nossa realidade. Porque a nova tendência é unificar-se as realidades, não de acordo com as realidades das sociedades e de seus membros, mas com as de quem comanda esses enormes grupos.
Pergunte a um morador de rua se ele acha bonito ser um morador de rua. Pergunte a ele se ele é o que quer ser. Pergunte se ele acha natural haver moradores de rua. Tente mostrar que assim como você sabe, ele deve saber que existe um livre arbítrio que diz que podemos o que quisermos. Agora , provavelmente você está diante de um mendigo que ri de você descontroladamente. Pronto. Sem dizer nada, alguém que você nunca julgou digno de atenção fez ruir tudo aquilo em que você acreditava. Uma risada sarcástica acaba de calar um comentário "inteligente".
Costumamos dizer que os moradores de rua estão à margem da sociedade. Assim, o que vale pra você não vale para ele. E pra ele... bom. Pra ele não vale nada. Mas quando nada vale, tudo passa a valer... então esse sujeito que está à margem de nossa sociedade está também à margem das nossas leis. E por estar excluído das nossas leis,agora sim, ELE PODE TUDO. Pode dedicar integralmente seu tempo a ser o que quiser. Mas pra você, será sempre um mendigo.
Um mendigo que vive em uma cidade cheia de gente
Um mendigo que vive em um estado cheio de cidades
Um mendigo que vive em um país cheio de estados
Um mendigo que vive em um continente cheio de países
Um mendigo que vive em um planeta cheio de continentes
Um mendigo que vive em um sistema solar cheio de planetas
E mais do que tudo, um mendigo que vive nesse planeta, mas em busca do planeta dos mendigos. Um planeta aonde todos possam ser realmente tudo aquilo que querem....
bem interessante o texto...problema bem identificado, desigualdade social. Só para estimular faço uma pergunta; Qual a solução? Abraços e continue
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