Favela da Quitanda, ontem. A polícia corria atrás de alguém que corria na frente para se esconder ( quem corre para se esconder não atira pra trás). Uma bala de fuzil, uma só mesmo, varou a mãe pelas costas. Ainda correu atrás da filha , varou a cabeça.
O tiro de fuzil quando passa através da pessoa, faz uma nuvem de sangue vaporizado, como quando a gente sopra através de um canudo e a saliva sai do outro lado, em gotículas. A mãe estava de folga. A filha tinha cinco filhos e vinte e quatro anos.
Os moradores filmaram tudo o que aconteceu assim que a bala sumiu do raio de visão. Elas ainda respiravam no início do vídeo. Os PM permaneciam no local discutindo com os moradores enquanto passavam pelos quase cadáveres como a vaca passa perto da pedra. Indiferente. Por lá ficaram entre meia e uma hora. Como vacas ao lado de pedras.
Sobraram pai e filho, gêmeo da menina morta. E cinco crianças. Crianças que têm agora uma chance enormemente monstruosa de encontrar com uma bala exatamente igual à de ontem, daqui a alguns anos; quando usarem boné de aba reta, bermuda larga, e andarem gingando.
De onde veio a bala? Pergunta ao Amarildo.
___________________________________________
A violência povoa normalmente o inconsciente até do ser mais calmo e dócil. A existência da violência é tão humana quanto a existência da pele ou dos dentes. Mas a violência na sociedade é um mecanismo retroalimentado. Pratica-se aqui, sofre-se em outra hora. Quem sofre que praticar. Quem pratica não quer sofrer e, quando sofre, desconta no mundo inteiro praticando uma maior ainda.
Nossa sociedade procura o equilíbrio, tentando manter a violência sofrida em apenas uma camada da população, que está em áreas circunscritas da cidade. Não dá certo porque quando essas pessoas estão no estágio de "praticar uma maior ainda", praticam contra qualquer segmento da população, bastando que esteja fora de sua circunscrição.
Os "não circunscritos", descontentes ao sofrer a injúria, devolvem a violência aos mais humildes quando apoiam toda a violência que estes sempre sofreram, e pedem para que seja mais forte. E a polícia que atira ganha legitimidade. Andam pelas ruas como leões e pelas favelas como deuses. Não falam , em nenhum dos dois casos, a língua dos homens.Assim a nossa sociedade é doente. Convulsiona. Em caso como esses; em casos como a conjuntura do Rio de Janeiro, não se revoltar é ser cúmplice. Em nenhum lugar do mundo esse governo amanheceria governo. Olhemos para o Egito.
"Ou há segurança para todos, ou ninguém estará seguro" Luiz Eduardo Soares.
Nenhum comentário:
Postar um comentário