Sobre Saudade
O homem é um animal social. Sabemos o que somos a partir de uma relação de oposição àquilo que vemos nos outros e não encontramos em nós. É assim que nos conhecemos, em princípio. As pessoas se repelem ou se afinam quando seu discernimento traduz às suas consciências o que há de semelhante e de diferente entre as personalidades. Curioso; o que há de semelhante pode, por vezes, ser motivo de repulsa. É que o orgulho maneja uma lente de aumento quando o defeito que há em nós é visto também no outro. Se olhamos para dentro, o orgulho vira a lente do avesso e o defeito quase que desaparece. É a consciência quem vai decidir se é impossível, maçante, tolerável, obrigatório, necessário, recompensador ou prazeroso estar perto dessa ou daquela pessoa.
Saudade é quando a distância é muito maior que o prazer de estar perto.
É ruim mesmo, a saudade. Até quando é saudade boa, tem aquela alfinetada que o tempo dá na gente. Anda só pra frente.
Saudade é o passado dizendo que não pode vir até nós. Mas que adora ouvir a gente chamando.
Eu conheci outro tipo de saudade no mar. Tem a saudade de casa, da família, dos bichos, todas as saudades óbvias que quem fica confinado por um mês pode ter. Mas não é isso. A gente aqui tem uma saudade que todo embarcado vai saber o que é. Quando a gente muda de tripulação, de barco, de empresa; o nosso convívio muda completamente.
No mesmo barco, as duas tripulações podem ter climas e comportamentos completamente diferentes. Uma muito unida e animada; outra onde se fala o mínimo, por exemplo. Quanto maior o barco, maior o número de pessoas, maior a quantidade de facções dentro de uma mesma tripulação. Eu sou observador, gosto de ver como as pessoas se comportam. Mas é foda, rapaz. Eu sou um dos caras também, entendeu?
Tem nego que passa cinco, dez anos no mesmo barco, e vê várias pessoas indo e vindo. Mas continua lá. Eu , em pouco mais de três anos, já estive em dez barcos. Eu já vi foi gente pra diabo nessa vida de vapozeiro. Algumas vezes eles estavam há muito tempo juntos, e era eu quem estava passando por lá. Outras vezes eles vinham e iam e lá estava eu observando.
A navegação é um negócio que já nasceu internacional. Diga na Grécia antiga que no seu tempo inventaram a globalização e vão rir da sua cara. Então essa coisa de marinha possibilita encontros próximos do impossível em outra situação. Filipino, canadense, Tio Sam, indiano, paquistanês, búlgaro, português, alemão, francês, colombiano, mexicano, sul-africano, escocês, inglês, belga, russo, holandês, norueguês - e aí ainda não estão todos com os quais eu já trabalhei.
E aí é que está a saudade que a gente aprende a ter. Algumas dessas pessoas que estiveram comigo já foram tarde. Muitas delas não fazem diferença nenhuma, mas valeu a experiência. Mas tem gente que é ruim de saber que o contrato vai acabar, que recebeu proposta de salário melhor, que precisa sair de licença (e aí dificilmente volta para a mesma tripulação, às vezes nem pro mesmo barco). Esses encontros que nunca aconteceriam em terra, dificilmente o mar deixa acontecer duas vezes. Então tem gente que quando vai, você tem que aprender a dizer a você mesmo "porra, nunca mais?". E isso acontece com frequência quando você é sociável. Encontrar esses amigos por acaso é sempre bom demais.
A parte boa da saudade é a certeza de gostar com sinceridade das coisas, das épocas, das pessoas. Se pela saudade a gente fica bravo com o tempo, também por ela fica satisfeito com a gente mesmo quando sabe que a nossa capacidade de gostar ainda é mais forte que os pesares que o tempo traz.
Dedico esse diário de bordo a dois amigos do mar. O seu Ricardo de La Torre - um senhor colombiano que com toda a paciência e experiência me ensinou os atalhos do trabalho cansativo e ingrato do taifeiro , e ao Joca, que me dói demais estar longe, irmão. A dor do teu ombro operado ainda dói nas ausências das nossas conversas.
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