segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Diário de Bordo, 22/12/2018 – Na verdade, a 43 km ao Norte de Paracuru – Ceará




A folga que se seguiu ao embarque foi estranha. Apesar de não me preocupar quanto a ter ou não um emprego – já que estava em período de experiência, mas havia sido muito bem avaliado – eu não tinha a mínima ideia de para qual navio eu iria. E eu detesto ficar sem resposta. O certo era que, para o Lorena não seria; mas isso é apenas metade da informação. As pessoas me perguntavam se eu passaria o Natal e ano novo em casa, eu não sabia dizer. Para cada dia trabalhado, temos um dia em casa. Sendo assim, eu deveria embarcar ao final de 35 dias. É e não é, mais ou menos. O único navio com escala 35 é o tal para o qual eu não voltaria. Nesse caso, ao final dos 35 dias deveria haver um navio com um taifeiro a menos, ou com um contratado por tempo determinado e perto do vencimento do contrato, ou com um efetivo com tempo de embarque vencido (maior que a escala determinada do navio – e havia gente em vários navios com 120 dias a bordo), e esse navio deveria estar em um porto, ou próximo de um. Aí então eu poderia embarcar. Não era simples saber nem se e nem quando eu embarcaria. Muito menos onde.

O embarque no Lorena é nos dias de sexta-feira. Nesse caso, quem não é de Fortaleza sai de casa na quinta, vai para um hotel na cidade e espera o transporte vir buscar antes das quatro da manhã da sexta-feira para que sigamos até Paracuru. Eu precisava saber que rumo deveria tomar. Por isso, na segunda-feira que antecede a última sexta dos trinta e cinco dias, liguei para a embarcadora para saber se já havia alguma informação atualizada. “Logística, Cláudia, bom dia?” ; “Oi, Cláudia. Aqui é o Arthur taifeiro. Sou novo na empresa, embarquei no Lorena da última vez. Estive aí para buscar o macacão, conheci vocês, e tal.” ; “Ah, oi, Arthur! Eu lembro de você!” ; “(sorriso na voz) Tudo bem?  E ai? “ ; “Tudo bem, sim! Pode falar, Arthur.” ; “Então, Cláudia. Pouco tempo depois que embarquei por lá, me disseram que eu não voltaria. Antes mesmo que eu tivesse ido pra lá, o comandante havia pedido um Aluísio pra ia pro lugar do Seu Mário, mas ele só poderia ir por agora. Parece que estava embarcado na época. Aí me mandaram pra safar lá. Mas o caso é que a vaga mesmo é do Aluísio.” ; “Ah é?” ; “Pois é. Aí eu tô desde esse dia sem saber pra onde eu vou. Como hoje começa minha última semana de folga, tô te ligando pra saber se vocês já sabem pra onde eu vou.  E se não souberem, que já tenham essa semana aí desde o início para me avisarem, que eu preciso me programar, né?” ; “Não, tudo bem. Me dá teu nome completo e tua matrícula.” ; “Matrícula é tal.” ; “Olha, Arthur. Não tem nada aqui no teu nome não. Até que alguém diga o contrário, você está voltando para o Lorena. Mas vamos fazer assim: eu vou falar com a Monique pra ter certeza, e assim que estiver tudo certo a gente se fala de novo, tá?” ; “Então tá bom! (mais um sorriso na voz) Brigadããão, tchaaaau!”

Quer dizer então que eu vou voltar, é?  - pensei alto. Voltando ou não voltando, eu precisava resolver a vida antes de embarcar. Arrumar mala, comprar o que precisa levar para passar o mês – sabonete, pasta de dente, escova, remédio de gripe, dor de cabeça, essas coisas- e um violão . Eu precisava comprar um violão pra levar. Eu tenho um violão. Mas eu não poderia ficar toda vez levando e trazendo, por vários motivos. Só posso despachar uma bagagem de até 23kg sem pagar. O quilo extra custa 25 reais. É dinheiro pra diabo, rapaz. Pra ir e pra voltar? Toda vez? Eu não sou doido. Outra que quem despachar meu violão não vai ter um décimo do carinho que eu tenho com ele. Tanta porrada que o bichinho vai levar... que seja uma vez só. E em casa eu não vou ficar sem. Preciso comprar um violão. Pesquisei, escolhi três marcas, fui na rua da Carioca. “Desce lá o Tagima, o Strinberg e o Takamine. “ Tagima, custo benefício imbatível. Tá resolvido.

Quando foi na quarta-feira, chegou a passagem no e mail. sexta-feira, oito e alguma coisa da manhã. Agora eu estava mesmo voltando. Printei a passagem, mandei para a imediata pelo zap. “Tô voltando!” ; “Ai, que bom! A gente aqui não estava sabendo ainda. Não tinha chegado pra mim.” ; “Então, o embarque é dia de sábado? A passagem tá pra sexta de manhã...” ; “Ih, tá errado. Liga pra elas e avisa. “ ; “Tá ok. Mas deixa eu te perguntar. Então agora eu estou fixo no navio, ou não tem nada resolvido? É que comprei um violão pra deixar a bordo, e quero saber se posso levar.” ; “Não, ainda não quer dizer que você está fixo. Mas você pode sim, trazer o violão, ué.” ; “Posso não, só levo pra onde eu ficar fixo, só levo uma vez.” Passagem trocada. Quinta-feira, meio dia e pouquinho. “Pai, me leva?” ; “Levo, filho. Passo aí de manhã cedo.” ; “Pô, valeu.”

Chegando no aeroporto, fui logo fazer o check-in . Era cedo e eu não queria ficar carregando a mala pra todo lado. Melhor despachar logo. Deu erro lá, não conseguia fazer nem a pau. Fui no supervisor, que conversava com outro funcionário. Enquanto eu esperava eles terminarem, chegou uma senhora, depois uma menina. Ele atendeu as duas – que também iam para Fortaleza – e só depois me dirigiu a palavra. “Fortaleza também?” ; “Fortaleza também.” Mexeu lá no computador, pronto. “Pode deixar sua bagagem aqui comigo, senhor. Eu mesmo despacho. “ E me deu lá os adesivos de bagagem. Como eu  havia ficado só com a mochila, podia andar com mais liberdade. Fui pro lado de fora fumar. “Aí, show, bora dar um brilho aí no tênis?” Do lado de fora do aeroporto há vários engraxates. “Pô, negão, olha aí. Primeira vez que eu uso depois de tirar da máquina de lavar. Tá zero bala.” ; “Deixa o amigo garantir o almoço, na moral?” ;  “Já é, segura aí (e dei duas de dois a ele). Aí, cadê o Quinho?  Trabalha mais aí não?” ; “Trabalha, pô. Conhece o Quinho, tu? “ ; “Conheço geral aí, rapaz. Só não conheço é você . Tu é da Nova Holanda também? “; “Sou também. Como que tu conhece os caras?” ; “Ah, quando o terminal um ainda funcionava eu vinha todo dia na polícia federal fazer os documentos dos gringos. Aí almoçava lá no fome zero , pô. Quinho ia lá direto. Ele, os moleques aí tudo.” ; “Tá ligado, né.” ; “É, pô. Uma vez até fiz um samba sobre os engraxates lá do centro. Falando do golpe do 3,20. O Quinho se amarrou. É samba de breque.” ; “É mermo? Então manda aí!”

O samba do engraxate

Caixinha, graxa e escova, transeunte não se mova, me deixe trabalhar (o seu pisante vai brilhar)

Tenho aqui tanto produto, que imitação de couro bruto reluz em cromo alemão (por três e vinte é um negoção!)

Não saia de fininho, tenho ali três amiguinho pra garantir o serviço, vamos deixar de reboliço

Pra quê reclamar, se o assoalho vai brilhar onde o senhor passar? (Vai parecer um popstar!)Dobro sua calça, passo a graxa, bato a caixa pedindo o outro pé (já sabes bem como é que é)

Meu pano nervoso vai deixar tudo lustroso, e estamos quase conversados (só falta agora os meus trocados)

Pra cada pé são três de vinte, no total dá cento e vinte, pois trabalho bom é raro ( e o combinado não sai caro)

Deus do céu, não reparei, o senhor é homem da lei, acho que dessa vez rodei!

Meu caro cana, não se zangue, não suje suas mãos de sangue por um mal entendido (já inclusive, resolvido)

Acontece, meu nobre, que a astúcia é a coragem do pobre, como já disse Ariano (ainda aos vinte e poucos anos)

Leve de graça essa graxa, pra ninguém dizer que acha que tenho má intenção. Trabalhador não é ladrão!

Eu tenho é credibilidade em todo o centro da cidade, e o cliente tem razão.

“Hahahaha, representou! Aí, bota esse bagulho pra frente, que vai dar certo, mano. Deixa eu correr, valeu!” ; “Pô, manda um abraço lá pro Quinho, pros moleques tudo lá, hein!”

LEANDRO

E fui fazendo hora, andei tudo dentro do aeroporto. Resolvi ir para a área de embarque. No detector de metais, prenderam meu isqueiro. A menina do detector de metais deu “bom dia senhor, esvazie os bolsos aqui nessa caixinha, por gentileza.”; “Acho que foi tudo.” ; “E esse isqueiro aqui?” ; “Bonitão, né?” ; “Mas é um isqueiro normal?” – e tentava, mas não conseguia saber como botar o isqueiro pra funcionar. “Não, pô. Esse aí sabe álgebra!” – Rimos muito, acendi o isqueiro e ela disse “ih, é maçarico. É que maçarico não pode.”; “Ah, besteira, pô. Esquece isso.” ; “Poxa, senhor. Eu vou precisar chamar o Leandro. LEAN...” ; “NÃO, NÃO, não chama o Leandro não, que ele vai criar o maior caso, vai querer roubar meu isqueiro, e ele nem fuma.” ; “Rs, pior que ele nem é mesmo fumante. Eu que sou.” ; “Ah, tá explicado.” ; “Mas eu não posso ficar com o isqueiro do senhor. Ele vai para aquela lixeira ali, de produtos inflamáveis.” ; “Ah, claro. Aquela ali que é só tirar a outra lixeira que tem em cima e escolher o que você quer, né? Uhum. Por isso que você tá rindo. Porque nenhum outro ser humano vai tocar de novo no meu isqueiro nos próximos  dez minutos.” – Leandro chegou e logo ficou a par da situação. “Porra, parceiro. Cinquenta cruzeiros esse isqueiro aí, pô! Tu nem fuma e vai embarreirar meu isqueiro, cara?”; “Senhor, esse isqueiro é maçarico. Se fosse um isqueiro comum, até poderia. É medida de segurança.” ; “Olha pra minha cara, Leandro. Eu nunca taquei fogo em avião nenhum não. Não é hoje que eu vou começar, né? Pô, vê como que faz aí... Já tá juntando gente aqui na fila, ó. É mais jogo tu me liberar.” Uma mulher esperava sua vez de passar a bagagem no raio x . Estava com a filha adolescente. Quando olhei pra trás , vi que ela estava achando o maior barato a minha conversa com o Leandro. Com toda a certeza do mundo ela não era do Rio. Se fosse, estaria de saco cheio. “Senhor, o senhor pode voltar lá e despachar, se quiser.” ; “Leandro. Tu tá me gastando que eu vou ,porra, despachar um isqueiro, irmão? Vai custar uns trezentos contos despachar isso aqui. Pô, cara. Nunca deu problema!” ; “É, mas hoje deu, senhor. Sinto muito.” ; “Ah, porra. Se eu soubesse, já tinha tacado fogo no avião antes. Fui deixar pra tacar logo hoje que você tá aqui. Tu quer o isqueiro, mermão? Toma o isqueiro! Feliz natal!” Ele doido pra rir, eu saí sorrindo, sacudindo a cabeça e resmungando “puta sacanagem, cara”. Rio de Janeiro. Aqui a gente faz amizade até discutindo.

 AMIGO OCULTO – O SORTEIO

No embarque passado, o chefe de máquinas comemorou seu aniversário de 65 anos. Ainda teremos outras oportunidades para falar sobre esse personagem. Ele não sabe, mas me ajuda muito a construir melhor o universo dos outros tripulantes. Quanto menos ele souber, mas vai me ajudar. Ele se emocionou, falou com os olhos tremendo e rasos d’água que estava chegando ao fim da expectativa de vida e pedia a Deus mais cinco anos. No final da comemoração, um saquinho com os nomes dos tripulantes passou na mão de cada um. Era o sorteio do amigo oculto. Na mão de quase todo mundo, na verdade. A imediata ficou sem jeito quando teve que passar direto por mim, já que até então, eu não voltaria. A verdade é que eu fiquei aliviado. Eu não gosto de amigo oculto. Aqui, o valor mínimo do presente é de cinquenta reais. “Cinquenta reais o mínimo? Ainda bem que ela passou direto.” Todos são gentilmente obrigados a participar. Mas não é só por ser pão duro com gastos desnecessários em benefício de gente que eu não conheço ou estimo que eu não gosto de amigo oculto. Pensando bem, não é que eu não goste de amigo oculto. Eu até tolero. Eu não gosto é de amigo oculto no trabalho.

Eu nunca trabalhei mandando em ninguém. Fui sempre a base da pirâmide, em todos os trabalhos. Qual o sentido de no final do ano eu dar presente a quem mandou em mim, descontou em mim suas próprias cobranças, falou “dá seu jeito, eu quero pronto”, enfim. Quem é ou já foi pau-mandado que complete aqui a lista. Para mim não há sentido nenhum. Na verdade, nunca vi um amigo oculto de trabalho com sorrisos reais. Feliz de quem viu. Não gosto. Me perdoem. Só acho que é uma brincadeira para ser feita entre amigos; inclusive é o que sugere o nome do jogo.

Lembrei do último motivo pela minha aversão ao amigo oculto de empresa quando vi uma lista de sugestão de presentes circulando no dia seguinte. Ao lado de seu nome impresso, cada tripulante sugeria o que gostaria de ganhar. Vários pediam “perfume tal”. Nilson disse “armaria, macho! O caba que eu tirei quer um perfume que custa uns duzentos pau!” Quer dizer: o cara pede alto. Se sou eu que sorteio o nome dele, ele vai ficar puto – que eu não vou dar um perfume desse. Por isso eu repito. É uma brincadeira para ser feita entre amigos. Voltaremos ao momento mágico da brincadeira do amigo oculto na noite de natal.

Ainda na área de embarque, recebi uma mensagem da imediata da minha turma: “Arthur, você precisa trazer um presente para o amigo oculto. Traz uma coisa pra homem. Traz um perfume, uma camisa, não sei.” “Ué? Mas Eu não tirei o nome de ninguém, não vou ficar fixo no navio, como faz? “ – e aqui, meus amigos; eu já tinha visto que isso ia dar merda. “Você vai ficar fixo no navio, sim. Confirmamos aqui. Dá o seu jeito aí, traz um presente.” É muito difícil ficar feliz completamente. Para cada notícia boa, duas ruins. “Ótimo, estou fixo no navio. Porra, vou ter que participar do amigo oculto e levar um presente que não sei nem pra quem vou dar. Que merda, comprei o violão pra trazer, ele ficou em casa e agora me dizem que poderia ter levado. Filha da puta, se eu tivesse tirado o gás do isqueiro, o Leandro não tinha tomado de mim! Como eu não pensei nisso antes?”

FORTALEZA

Deixei as coisas no hotel e logo saí. Precisava resolver logo o presente do meu amigo que era oculto até pra mim. Precisava almoçar também. O hotel fica na Beira-Mar. Andando pela praia, pensei no presente. Bom, já que eu não sei quem é a pessoa, acho que a coisa mais sensata é dar um vale-presente de alguma loja. De uma loja que tenha em qualquer lugar do país. E que a maioria das pessoas goste. Pronto. Vale-presente do Boticário. Quem não quiser, dá pra mulher. Ela vai gostar. Muito melhor do que comprar uma outra coisa e a pessoa fazer aquela cara de namorado indo almoçar pela primeira vez na casa da namorada, e chegando lá a sogra diz “é sarapatel. Você gosta, né? “ – e põe um prato de peão pro moleque que cata até cebola na farofa.

Sim. Um vale-presente. Se eu ganho um perfume, eu ia ficar muito injuriado. Poucos presentes são mais pessoais que um perfume. Toma um vale-presente. Vai lá e troca pelo que você gosta. Simples e sem erro. Não arranca um sorriso enorme do presenteado, mas é garantido que não termina em sorriso de sarapatel. E a minha preocupação é não dar sarapatel de presente de natal. Comprei o vale-presente na loja do shopping Del Mare, perto de onde eu estava. Saindo de lá, fui a uma banca de jornal comprar um isqueiro vagabundo. “Fala, meu patrão! O que o senhor quer?” ; “Quero um isqueiro e uma informação. Onde eu almoço bem aqui em Fortaleza? Uma comida local com preço justo?” ; “Ah, aí é no mercado de peixe. Vale a pena.” Peguei um Uber, cheguei lá. Vários estandes vendendo peixe, camarão, lagosta, todos os frutos do mar. Na beira da praia, no final do calçadão.

Os restaurantes ficam no final dos corredores, bem pertinho da água. Escolhi um e sentei. Passou uma boa meia hora e ninguém veio me atender. Peguei o cardápio,  levei até um garçom e comecei a pedir. “Não, aqui não é assim. O senhor tem que trazer seu peixe, seu camarão, o que o senhor for comer. Esse preço aí é o do preparo.” Bem que eu tinha achado barato demais. Onze reais por uma porção de camarão?

Levantei e fui nos estandes. “Fala, irmão. Quanto tá o camarão?”; “Vinte reais o quilo, chefe.”; “Beleza, me vê meio quilo.” ;  “Só? Por que o senhor não leva um quilo? O pessoal costuma levar e deixar congelando no hotel. Depois, se vier aqui de novo almoçar, e só trazer. Ou levar embora com o senhor.” ;  “Rapaz, seria ótimo. Só que eu vou embora hoje, e vou ficar trinta e cinco dias embarcado. Nem tem como. Lá tem camarão também. E não vou levar meio quilo de camarão no avião; ainda mais congelado por tanto tempo. É só para a gora, mesmo.”; “Então tá bom. Toma setecentos gramas.” E foi assim que eu comprei setecentos gramas de camarão fresco por dez reais. “Pô, sentei ali, fiquei meia hora e ninguém veio me atender. Quando fui atrás do cara, ele disse que tinha que vir aqui primeiro.”; “Ah, aqui é assim. Em qual restaurante você foi?”; “Aquele. Qual é o bom?” ; “Aquele ali, ó. Chega ali, já bota o camarão no balcão e pode sentar na mesa que o garçom vai lá.”

Paguei mais dez reais no preparo do camarão ao alho e óleo. Mais uma porção de macaxeira e uma de baião de dois. Mais ou menos dez reais cada um, também. Em pouquíssimo tempo, veio a macaxeira. Ainda que eu não tivesse pedido mais nada, nunca conseguiria comer aquilo tudo. “Beber, chefe?” ; “Rapaz, quero a cajuína.” ; “Cajuína não tem.” ; “Pô, que isso? Não tem cajuína na terra da cajuína? Beleza, traz essa jarra de água de côco.” E daqui a pouco chegaram a água de côco, o baião de dois, e uma travessa gigante de camarão. Quando olhei aquilo tudo, pensei que nunca mais levantaria dali. E que era bom eu começar depressa. Para a minha sorte, na metade da segunda rodada, apareceu uma menina “moço, será que se sobrar alguma coisa você pode me deixar comer?” ; “Cara, ainda bem que você chegou! Senta aí e come comigo, por favor. Isso aqui tudo precisa acabar, e eu não vou conseguir sozinho.” Eu comi três vezes. Ela comeu duas. E sobrou comida. Antes de sair de lá, passei em um outro restaurante e perguntei se tinha cajuína, que seria muito triste sair da cidade sem provar. Da garrafa de seiscentos ml, bebi dois copos. Se bebesse mais uma gota, sairia um camarão pelo nariz. Olhei a orla  já com a noite posta. O hotel fica lá no final. Deviam ser entre cinco e sete quilômetros de caminhada. Já havia feito o que deveria e o que gostaria. Tinha tempo e quilos para gastar.

SERÁ QUE NÃO É HOJE?

Às duas da manhã recebi uma mensagem. “Arthur. O guindaste da base está ruim. Estão tentando consertar, mas não se sabe se vai dar certo. Pode dormir. A van vai passar no hotel às seis da manhã.” Dei graças a Deus e dormi novamente. No dia seguinte, ainda consegui pegar o café da manhã no hotel. A van só chegou depois das sete. Ainda passaríamos em outros locais para buscar os tripulantes que moram em Fortaleza. No caminho, fui parabenizado pelos outros por ter voltado. Chegando na base, em Paracuru, soubemos que o guindaste ainda não estava pronto. Já era pra lá de meio dia. “Se passar de três horas da tarde, a gente não vai. São duas horas de lancha até a plataforma. Não podemos viajar de cesta depois que escurece.” Tive esperança de passar mais um dia em Fortaleza. Mas não deu. Pouco depois das duas da tarde o guindaste ficou pronto. E embarcamos.

A MULHER DE ALUÍSIO

Quando começamos a trabalhar, entrei na cozinha e Nilson disse: “falei pra tu, rapaz. Encontrei o Aluísio. Estava sentado com a mulher dele no restaurante. Falei com ele que o comandante estava chamando pra embarcar aqui. Na hora a mulher dele olhou para baixo e fez que não com a cabeça. Tô te dizendo, macho. O negócio deles é dólar. Nem precisei falar mal do navio, ele mesmo já disse que não vinha. Aí a mulher dele ficou normal de novo. Falei que tu voltava, rapaz.”

MACUMBA DAQUELA BEM BRABA
            
    Eu funciono muito melhor com música. Nietzsche disse que “sem a música, a vida seria um erro.” Ele estava coberto de razão. Das artes, a que melhor dialoga com o espírito. A que melhor abre portas ao pensamento. A que diz a cada um aquilo que precisa ser dito a si, ainda que sem palavras, ainda que sem idioma. Há quem não goste de quase nada, mas ainda não encontrei aquele que não gostasse de música. Uns gostam mais, outros menos. Entre tantos estilos para se conhecer e apreciar, há (e como há) uma legião que pensa gostar do que o Deus mercado assim lhes incute. E fecham a mente para todo o resto. E assim como são as pessoas, são também as criaturas.

                No meu primeiro embarque por aqui, eu colocava meu celular para tocar na copa dentro de um pote de sorvete. O som encorpava mais, não ficava tão disperso. Ali vinha blues, forró pé-de-serra, orquestras com música clássica, salsa, chorinho, e uma enxurrada de samba; entre outros estilos. E se tem música eu estou sempre cantando. Só ando pelo centro da cidade com meu grande headphone. Andando e cantando. Muita gente olha e acha graça, acham que eu esqueci que estou no meio dos outros. Pois se eu canto na frente dos conhecidos, que dirá na frente de quem corro o risco de nunca voltar a ver.

                Por aqui, a música foi um elemento socializador entre os antigos e o novo tripulante. Enquanto trabalho na minha copa, as pessoas entram e instintivamente sorriem na minha direção ao me ouvir cantar. “Só no sambinha, né? Tá certo!”. Como o samba de raiz é um estilo conhecido em todo o país, eu acabo trazendo memórias afetivas das pessoas através das músicas que ouço e canto. Eis um poder gigantesco entre outros que a música tem. Trazer ao presente com intensidade impressionante o mesmo perfume de momentos idos. Há pesquisas sendo feitas em casas de repouso de idosos utilizando a música de maneira extremamente eficaz.

Pegam um senhor com alguma demência, Alzheimer ou qualquer doença que resulte em perda de função cognitiva, estudam o ambiente musical de sua juventude, perguntam a ele e à família o que ele gostava de ouvir, o que cantava. Baixam tudo, colocam em um aparelho de MP3 e dão ao velhinho com um fone de ouvido. Está feito o milagre. Até os menos responsivos passam a falar de sua juventude, dos clubes que frequentavam, das roupas que usavam nas ocasiões. Um turbilhão de memórias que pareciam prescritas pela inércia de seus corpos e mentes, agora fazem seus olhos brilharem como nunca se imaginou ser possível novamente. Um pouco da atenção de um jovem pode fazer uma diferença monumental  para alguém que já faz hora extra na vida.

O fato é que as pessoas costumam gostar do meu repertório. “Poxa, você tem isso em um pendrive? Pode me passar logo mais?”. Só no celular, pra ouvir enquanto caminho, dirijo ou trabalho; tenho mais de dezesseis horas de samba. Foi o samba que me fez comprar meu primeiro hd externo.

Nesse segundo embarque, contando com a aprovação prévia do repertório, resolvi trazer uma caixa de som com conexão bluetooth. O som é melhor que no celular, mais bem equalizado. E eu ainda posso andar com o telefone no bolso enquanto a música permanece lá no lugar onde eu preciso que ela fique. E deu certo. Música clássica ou chorinho pela manhã e estilos variados durante o decorrer do dia. Mas sempre um samba. O que eu posso fazer se não inventaram brinquedo melhor? Quem não gosta, não presta; já dizia Ataulfo.

Um dia ouvi alguém conversando no refeitório sobre a importância que a empresa dá à tolerância religiosa. Na ambientação, lá atrás, no hotel da Lapa, um dos diretores havia falado sobre o assunto. Disse que é coisa séria, que havendo problema, entre em contato com a ouvidoria. Eles caem dentro. O chefe de máquinas entrou na copa para um de seus inúmeros cafés. “Aí, chefe. Pessoal aí estava falando de tolerância religiosa na empresa, e tal. Fiquei com vontade de testar isso aí. Tô pensando aqui em fazer uma lista de música de macumba. Botar pra tocar macumba aqui da hora do café até a hora da janta. O que o senhor acha?” ; “Ih, acho ótimo! Bota mesmo! Mas bota macumba daquela bem braba!” ; “Hahahaha, o senhor é o melhor, chefe. Então prepara que amanhã o tambor vai comer aqui.”

Concomitante a meu último comentário, entrava no refeitório uma oficial. Quando ouviu a conversa, olhou para mim de cenho franzido e disse “tá repreendido em nome de Jesus!” – ao que eu respondi “ah, a senhora é intolerante.” ; “Sim. Sou sim!” ; “Então acho que amanhã não será um bom dia para você.”

Abri o hd e fui procurando o que tinha. Jongo, samba, tudo o que mencionava matriz africana, orixás, termos em yorubá. Uns maculelês, uns cânticos de trabalho (tipo ensaboa mulata), umas ladainhas de capoeira. Não coloquei na lista nenhum único ponto de macumba. Só fui mais pra dentro da raiz da música brasileira, só isso.  Juntei por volta de cinco horas de reprodução .

No café da manhã seguinte, assim que o chefe entrou no refeitório, gritou “Arthur, cadê a macumba?” ; “Chefe, rapaz, você que mesmo, né?” ; “Claro, pô! Não falou que ia botar? Bota!” ; “Então toma!”. E na mesma hora, Clementina de Jesus perguntava repetidamente para os presentes, como se, de dentro da caixa de som esperasse que alguém respondesse:  “ô pica-pau, que demanda tem com baraúna?”

Alguns minutos depois, quem foi que entrou para tomar café? Bingo! Dessa vez era Ivone Lara quem perguntava “vixe, minha nossa senhora! Cadê o candeeiro de vovó?” ; “Arthur, será que você pode baixar o som, por favor?” ; “Claro que posso.” Essa foi a primeira vez que alguém me pedia para abaixar o som de minhas músicas. O problema era que apesar de ter abaixado o volume, eu continuava cantando, como sempre. Como que por intervenção divina, Candeia começou a pedir “sinhá dona da casa, me dê permissão, sinhá dona da casa, me dê permissão.” Alguma conversa que eu não conseguia ouvir começou a acontecer no refeitório, quando um entrou para deixar o prato, olhou para trás e disse “mas a cultura brasileira é isso aqui, ó!” – e apontou para a caixinha. E arrematei “exatamente. Embora muitos não queiram, não existe nada mais nacional do que isso.”

Ali, pronto. O satanás que ela procurava nas minhas músicas baixou foi em seus olhos. “Você queria ser preto, né, Arthur?” ; “Minha flor, a questão aqui é muito menos se alguém queria ou não ser preto, do que alguém que tem horror a ser, mesmo que um pouquinho de nada.”

No embarque anterior, conversávamos alguns sobre religiões. Ela no meio. Perguntei “você já leu o Gita? É uma parte do livro sagrado do hinduísmo, o Mahabarata. É a coisa mais linda!” ; “Não li e nem nunca vou ler.” Me soa por demais contrassenso que à inteligência suprema, agrade a ignorância. Uma vez, quando ia ao centro de controle procurar algum documento, ela pediu para me mostrar uma música. Era uma mulher que até começar a cantar, chorava por quase três minutos. Antes mesmo que ela começasse eu disse “você vai me perdoar, mas música, pra mim, é alegria. Até mesmo as mais tristes. Essa música aí é sofrimento.” ; “Você não gosta de gospel?” ; “Adoro. O blues, o reggae, o samba. São maravilhosos quando cantam gospel. Aliás, nasceram do gospel. Essa música de igreja, tanto da católica quanto da neopentecostal, quanto do próprio kardecismo; eu acho um saco. E já ouvi de todas essas religiões para poder dizer com conhecimento de causa que são todas um porre. Apesar de contar com músicos excelentes, acho que todos estão tocando um monte de música porcaria.”

Se na minha caixinha, eu estivesse ouvindo esse bando de sertanejo dos infernos mandando todo mundo encher a cara e dirigir, trepar de batalhão e acordar o prédio inteiro, estava tudo certo. Se eu colocasse uma cítara indiana, um conjunto cantando em árabe, seria exótico. Se fosse um canto gregoriano era uma beleza. Se fosse a música da mulher chorando, ô glória! Mas vai botar um tambor pra bater. Acontece que a cítara, o árabe, o canto gregoriano; são grandes desconhecidos para nós. E aí todo mundo acha bonito de maneira curiosa. Mas quando o desconhecido é a base da nossa própria cultura, desconhecemos por escolha. E a isso é dado o nome de recalque histórico. O maior recalque da história do Brasil é a escravidão. E quanto menos se fala sobre um recalque, mas ele se reproduz. Por isso a música da mulher chorando toca no passadiço, na sala de tv, no centro de controle. E também por isso a macumba toca onde sempre tocou. Na cozinha.

Não tirei a macumba, não. Tocou o dia quase inteiro. Alguns entravam, arqueavam as costas, botavam a mão para trás, faziam um “hêp”, e sorriam, numa brincadeira para dizer que tudo bem. Não sabiam como, mas tentavam reagir positivamente, eu via isso. Havia também quem não comentasse nem para bem nem para mau. Ótimo, é aí que mora o respeito. No outro dia, entrando no camarote do comandante, vi o livro com o título que era mais ou menos “o significado da vida segundo o espiritismo”, uma coisa assim. “Comandante, o senhor é espírita ou é curioso?” ; “Rapaz, eu sou mais kardecista. Mas na minha família tem de tudo: católico, protestante, kardecista, e minha avó que era da umbanda.” ; “Pô, sério? Que bom saber disso!” – e fiquei muito tranquilo. Quem é que ia se queixar com o comandante dizendo que a avó dele gostava do diabo?


EU, ASSEDIADOR DA JOVEM CAMPONESA DE CORAÇÃO NOBRE QUE VAI TODOS OS DIAS AO BOSQUE PARA RECOLHER LENHA

Alguns dias depois, essa mesma figura  do episódio da macumba levanta da mesa dos oficiais, entra na copa dizendo “ai, aconteceu um acidente!” ; “Acidente? Que acidente?” ; “Um acidente!” – ela foi até o final da copa. Entre a geladeira e a bancada onde fica a sanduicheira. Ficou de costas para mim, levantou a blusa até a altura dos peitos, e mexeu na parte da frente, por debaixo d a blusa. Estava fechando o sutiã, que havia se soltado. Quando eu percebi o que estava acontecendo, baixei a cabeça e saí da copa.

Me chamem do que quiserem, mas eu detesto mulher a bordo. Sinto muito. Posso até cair no conceito de alguns. Paciência. O fato é que alguns problemas que elas criam podem ser irreparáveis. Antes do meu caso, um exemplo que conheci somente por ouvir dizer.

Um comandante casado. Uma praticante novinha, tendo acabado de sair da escola de formação de oficiais. Acreditem ou não, dificilmente alguém dá em cima de mulher a bordo. Assédio dá justa causa. Onde se ganha o pão não se come a carne. A praticante dá mole pro comandante. O comandante come a praticante. Uma, duas, dez vezes. A praticante começa a querer ser namorada ou mais que isso. O comandante não vai largar o casamento por causa de uma praticante. Um dia, no camarote do comandante, ela tenta. Ele diz não. Ele diz não mais. A praticante desarruma o cabelo e a roupa e dá um berro “socorro, socorro, tá tentando me comer.” Olha o tamanho desta quizumba. O navio para de operar, entra em down time (quando o contratante para de pagar, e todos os gastos ficam por conta da empresa dona do navio) . Sobe gerente. Sobe RH. Sobe marinha. Sobe Polícia Federal. Justa causa no comandante. Na empresa, na carreira e no casamento. E o cara era comandante. Imaginem se fosse um canela. Imaginem se fosse o mais canela dos canelas: o taifeiro. Pois é. “Ah, mas a culpa é dele, que foi chifrar a mulher.” Gente, por favor, né?

Enfim. Na noite seguinte ao “acidente” , fui levar café no centro de controle. Estava ela lá, sozinha. “Poxa, queria te pedir uma coisa. Não faz mais aquilo de novo não, por favor. Aquilo do seu acidente. Aqui é navio, todo mundo trancado aqui. Não é legal. Se ainda você fosse uma mulher toda desconjuntada, toda ridícula, eu ia achar era graça, ia passar batido. Mas não é o caso. Então, se acontecer de novo, procura um outro lugar pra se ajeitar. Tudo bem?” . Ela me olhou meio embasbacada. Passou.

Quando foi uns três dias depois, eu levando café no mesmo horário – tenho que levar em vários horários, nesse horário é ela quem está lá; normalmente sozinha. Assim que entrei, ela brincando disse “quero café AGORA.” . Eu que pago brincadeira com brincadeira, levantei a garrafa térmica acima de sua cabeça e disse  “então tá. Abre a boca aí.”. Nesse momento infeliz, ela disse “deixe de ideia, seu filho de uma égua.”.

Eu parei, respirei, e vi que eu deveria falar o que falaria: “olha: a gente trabalha junto, eu me dou bem com todo mundo, brinco com todo mundo, só que tem limite. Você acabou de passar do limite.” ; “Eu passei do limite? Como?” ; “Ora, você acabou de me chamar de filho de uma égua e tá tudo bem?” ; “Mas você também xinga. E xinga muito, né? “ ; “Concordo. Carioca xinga pra tudo. Mas quantas vezes desde que subi aqui pela primeira vez eu direcionei um palavrão a você? Quantas vezes eu TE xinguei? Pois é , nenhuma. Quando eu xingo, não falto com o respeito a ninguém. É aí que você passou do limite.” ; “Ah, você quer falar de limite? Pois você passou do limite comigo também. Lá no dia do sutiã.” ; “Como é que é? Você levanta a roupa na minha frente, eu te digo para você não fazer de novo, e eu estou errado?” ; “Se eu quiser, posso dar parte sua.” ; “É o quê?” ; “É isso mesmo. Se eu quiser, posso dar parte sua.” – fechei a cara e respondi “ é contigo mesmo. Só que primeiro você explica pro teu marido que foi levantar a roupa na minha frente. Se não tinha problema nenhum, deveria ter levantado na mesa mesmo, na frente do comandante, do chefe de máquinas, da imediata.”. Alguma verdade pareceu saltar aos olhos dela, pois as pálpebras levantaram sem que as sobrancelhas se movessem.

Subi muito puto da minha vida. Os noventa dias do contrato de experiência haviam terminado no dia anterior, dezessete de dezembro. Um dia depois, vinha isso. Sentei na sala de fumar. Um enorme problema se apresentava. Acendi um cigarro enquanto pensava. “Se eu deixar isso pra lá, ela pode ir à imediata ou ao comandante reclamar. Aí fodeu. Vai ser como se eu tivesse feito e ficado quieto. Até provar que merda de cabrito não é bola de gude eu já tô com a mão toda cagada. Se eu for falar com a imediata, ela é mulher e amiga dela. Se conhecem há anos, e eu aqui há um mês. Vai dar merda. Se eu for direto no comandante que é homem, estou errado de passar por cima da imediata – que é minha responsável direta. Só tem um jeito, e mesmo assim é perigoso. Falar com imediata e comandante ao mesmo tempo. Ele é homem e tem mais poder que a imediata. O que ele resolver, tá resolvido. Pode dar merda? Pode, e vai. Mas é onde pode dar menos merda. Agora só falta pensar no que eu vou falar para que dê menos merda.” – e acendi o segundo cigarro.

O comandante sentado na poltrona de seu camarote, assistindo televisão. “Comandante, infelizmente eu tenho um assunto muito ruim para conversar com o senhor. Mas gostaria que a imediata estivesse junto. Posso chamar?”. Ele tirou os óculos, e com a fronte pesada disse “pode sim.” ; “Imediata, eu queria conversar com a senhora e com o comandante, lá no camarote dele. É sério.” ; “É agora?”; “Quanto mais rápido, melhor. Prefiro que seja agora.” – e voltei ao camarote do comandante. Puxei uma cadeira, esperei a imediata sentar, e comecei.

Descrevi a situação da mesma forma que fiz acima e comecei a minha defesa. “Acreditem vocês ou não, desde o dia que tocou macumba na cozinha ela age diferente comigo. Mas o caso aqui não é esse. Comandante, o senhor é casado. Se o senhor fica sabendo que sua mulher levantou a roupa na frente de outro cara? Tá tudo bem?”- ele balançou a cabeça que não. “Imediata, da mesma forma, a senhora é mulher. Se o comandante levanta e ficamos os dois sozinhos aqui, e de repente eu enfio a mão dentro das calças e fico me ajeitando, me coçando, me alisando. Tudo bem, ou é uma grande falta de respeito com a senhora? Pois é. Eu preciso que vocês percebam que esse episódio deve ser entendido como uma falta de respeito da mesma dimensão. Se não havia problema, qual o motivo dela não ter feito na frente de vocês, que se conhecem a tanto tempo? Era um problema fazer na frente de vocês, mas não na minha frente? Olha, imediata. Eu sei que quando uma coisa dessas acontece, a culpa é do homem a priori. Eu sei disso e eu concordo com isso. O meu gênero faz muito por onde isso ser verdade. Olha o João de Deus aí. Reconhecido no mundo inteiro. Imagina eu! Só que eu não sou doido de fazer isso. Ou vocês acham que o funcionário mais abaixo no organograma, em período de experiência ia tentar uma dessa logo com oficial, casada com oficial da mesma empresa? Se eu ainda fosse burro, mas isso vocês já sabem que eu não sou. Eu sei que ela é adulta, mas na verdade é uma menina, não tem maldade.” – os dois fizeram que sim várias vezes, como que em coreografia. “Pois é, mas não é porque eu tenho malícia de sobra para nós quatro; que eu vou pagar pela inocência dela. Isso eu não vou. Se para resolver esse caso, vocês acharem por bem me tirar do navio, me mandarem para um 60x60, fechado. Tudo bem. Não vou guardar mágoa de nenhum dos dois. Volta tudo ao normal por aqui. É bom para todo mundo. Agora, eu sei que fiquei fixo aqui, não porque me acharam divertido. Mas porque eu trabalho bem. Se não, eu não teria voltado. Não teria ficado na escala que a empresa inteira quer pegar. Antes de começar a falar, eu já sabia o tamanho do problema que eu estava trazendo para vocês. Mas pensem comigo: se eu fico quieto e ela é quem chega pra falar com vocês primeiro; assim que eu começasse a me defender, sabe o que o senhor ia perguntar para mim, comandante? – Arthur, então por que você não veio me dizer isso na mesma hora? – Então eu vim aqui dizer na mesma hora. Os três fatos aqui são: ela praticou abertamente intolerância religiosa – um monte de gente viu. Levantou a roupa na minha frente, e me chamou de filho de uma égua. Ela diz que pode dar parte de mim por um assédio que não aconteceu. Nem por isso eu vou dar parte dela por nenhum desse três momentos em que ela me faltou com o respeito por diferentes motivos, vejam vocês.”

Arthur Schopenhauer escreveu um livro chamado “como vencer um debate sem precisar ter razão”. Eu tenho esse livro. Ele te ajuda quando você não tem razão. Mas te ajuda muito mais quando você já tem. Você identifica as falácias e caminhos retóricos do interlocutor antes mesmo que elas sejam ditas. Com isso, prepara seu argumento de maneira a avisar ao ouvinte que, se por acaso tal ou qual coisa seja dita, aqui já está a prova do contrário. “Olha, Arthur. A gente vai conversar aqui sozinho, você pode descer. Depois a gente vai conversar com ela. E no final, a gente te chama para conversar de novo. Mas fica tranquilo.” ; “Olha, Arthur. Eu sou mulher, sou sim amiga dela. Mas aqui em cima eu sou imediata. E eu separo muito bem as coisas. Pode se acalmar. Você não fez nada. Eu conheço ela e sei que ela pode ter feito isso sem pensar no que poderia acontecer. Você fez bem em vir falar com a gente. Pode ir.”

Horas depois o telefone do meu camarote tocou. Pediam para que eu subisse. “Arthur, nós conversamos entre nós, conversamos com ela. Eu entendo que os dois erraram.” (Hã?) “Se fosse outra administração, as providências tomadas seriam outras; é importante que você saiba. Mas nós sabemos que vocês são duas pessoas boas, duas pessoas esclarecidas. Então vamos deixar isso pra lá, com o tempo vai ser como se nada disso tivesse acontecido.”

Na cozinha, conversando com Cabeça e Nilson, eles perguntaram “e onde foi que você errou?” ; “Porra, errei em ser taifeiro, né?” ; “Rapaz, é mesmo. O outro comandante que tinha aí dizia no refeitório cheio: - Eu nunca vou ficar contra o oficial. O chapéu que ele usa, cabe na minha cabeça.” ; “Rapaz, eu já consegui que não desse merda nenhuma pra mim, vocês querem que eu pergunte aonde eu errei? Deixa isso pra lá...”. Entenderam o motivo para eu não gostar de mulher a bordo? Segue o baile. A verdade é que o canela

ESTÁ MUITO MAIS PARA BASTIÃO DA LINDA QUE PARA SEU FERNANDO

Uma das melhores coisas em se trabalhar a bordo, a meu ver; são as histórias que a gente ouve. Histórias de vida de pessoas que você nunca conheceria caso aqui não estivesse, histórias sobre o mar, histórias de pescadores que agora trabalham nos navios. Eu já trabalhei com gente do mundo inteiro. Já ouvi histórias do mundo inteiro. Americanos falam sobre geopolítica, guerras, mercado. Noruegueses falam sobre mar, sobre marinha. Filipinos falam sobre dólares. Alemães falam sobre imigração. Ingleses e escoceses falam entre si. Eu não sei se é pela criação e imersão na cultura brasileira que me trazem uma proximidade maior, mas as nossas histórias são de longe as melhores.

Temos nossas diferenças de território para território. Uma história de carioca, se contada no Norte, pode ser ofensiva. Uma história do Sul, se contada no sudeste, pode parecer esnobe. E por aí vai. Mas as histórias dos nordestinos são as campeãs. A simplicidade do cotidiano sobre o qual as histórias falam; a simplicidade na forma de contar; as gírias que eles usam para colorir a história. É fora de série.

Contudo, os nordestinos gostam de contar suas histórias entre si. Você já participou de um grupo de nordestinos contando seus causos? Dificilmente. Eu fico muito feliz em ouvir esses caras conversando no navio. Eu sou apenas ouvinte, mas agradeço pode poder participar. As histórias que as marés me trazem de todos os lugares do mundo são um dos motivos da existência dessa série de escritos.

Quando presto atenção nessa gente falando, presto atenção também na forma como eles pensam, tento entender como eles enxergam o mundo. Quero extrair o porquê daquela história merecer ser contada, ao invés de outras tantas. Sabemos que o brasileiro é um cara extremamente homofóbico. Mas tenho entendido que somos homofóbicos de diferentes maneiras, dependendo de onde estamos. Nos marítimos do Sudeste, a homofobia é mais grosseira, mais raivosa, violenta. No sul ela é menos comentada. Quando é, são usadas piadas de mau gosto. Mas tenho percebido que no Nordeste, a homossexualidade é entendida de maneira diversa. Me parece que por aqui, o homossexual é o passivo. O ativo no ato é muitas vezes visto como “o cara que comeu o viado”. Seguem, então, duas histórias de viado contadas pelos nordestinos. Primeiro a de Seu Fernando, um cara que comeu um viado; depois, a de Bastião da Linda. Ambas as histórias se passaram no Mucuripe, bairro pobre de Fortaleza.

Certo dia, no café da manhã, estávamos eu e Cabeça fazendo nossa refeição. Foi quando chegou Bira, marinheiro de convés, por volta de cinquenta anos, egresso da pesca. Sorriso verdadeiro e alma leve, própria dos puros e simples. Sentou à mesa e disse a Cabeça: “Bom dia, seu Fernando!” ; “Já vai começar a baitolagem! Diabéisso de seu Fernando?” ; “Hahahaha, pois eu vou contar logo. Diz que aí no Mucuripe tem esse seu Fernando. E ele comeu um viadinho de uns 16 anos assim. A mãe do menino descobriu, deu parte de seu Fernando. Antes do depoimento, o viadinho procurou seu Fernando e disse que era pra chegar lá; ele dizer que não teve nada disso não, que ele ia dizer a mesma coisa, e estava tudo resolvido. Seu Fernando disse que tudo bem, então. Aí, rapaz, quando foi na hora lá do depoimento, o delegado perguntou – E Então, seu Fernando? O senhor comeu ou não comeu o menino? E seu Fernando naquela, pescador brabo da porra... levantou e disse que não tinha ido ali pra mentir não, que mentira era coisa de cabra frouxo. Bateu na mesa e gritou – COMIIII!” Cabeça ria, e perguntou retoricamente “é mesmo, rapaz?” ; “’Hun? Aí quando ele passa lá no Mucuripe com a mulher dele, o povo fica gritando – Seu Fernando, comeu?? E ele grita COMIIII! Hahahah. E a mulher bate nele, no ombro – Homem, tu não tem vergonha não, é cabra? Oxxxi! - Aí a gente está agora chamando o Moisés de Seu Fernando, ele tá que só a porra!”.

De repente sai Nilson (morador do Mucuripe) da cozinha com o dedo em riste: “Rapaz, isso é história do Mucuripe que eu sei. Ó macho, o Mucuripe é foda com essas histórias, hein. E as véia? Ó, Arthur, tem umas véia lá que são fofoqueira que só a porra! Ói, uma vez as duas véia dentro do ônibus lá, o Meireles. O ônibus vixxxx, lotado! Uma vira pra outra e diz – Mulher, você não sabe! Eu vi uma coisa que afe Maria, eu não consigo nem falar! – Pois diga, mulher! – Pois então, não tem Bastião?  Bastião mora numa casa de taipa, né? – Que Bastião? – Bastiããão, mulher! Bastião da Linda, num sabe? Pois eu tava ouvindo uns barulhos vindo de lá. Aí fui assim na parede e butei o olho num buraquinho que tinha. Mulher, você não acredita! – Desembuche, diabo! – Mulher, o Bastião tarra dando o cu pra um caba lá! – OOOOOO CUUUUUU? – Ó, rapaz, e o ônibus lotado, macho. As véia conversando como se estivessem na sala da casa delas! – Olha, não posso dizer mesmo que tarra dando, que eu não vi entrando. Mas que era um tal que tirava de baixo, butarra na boca!” E a gente explodia na gargalhada.

Bira terminou de tomar seu café e saiu. Ficamos conversando: Cabeça, Nilson e eu. Um dos dois que não lembro agora batia no meu ombro e dizia “é, Seu Fernando!” ; “Rapaz, depois desses acontecimentos aí, esse papo de assédio, é muito mais fácil me pegarem pra Bastião da Linda que pra Seu Fernando...”

PLEIS-TEI-XO! PLEIS-TEI-XO!PLEIS-TEI-XO!

Então, é natal! E o que você fez? Porque eu trabalhei pra caceta. Nada de novo no front. Aquela comidalhada que poderia alimentar oito famílias, mas cada um belisca só um pedacinho. Sem problemas, serviremos sobras e sobremesas até o ano novo, quando tudo se repete. Balões coloridos, árvore de natal, toalhas de mesa para festa, discurso do comandante, da imediata, parará-pão-duro. A não ser que estamos no meio do mar; nada de diferente do natal do resto do mundo. Algumas piadas, risadas, pessoas que você não liga tanto - mas o espírito natalino manda que você sorria para ela, aquilo tudo. Lá no início do texto, eu havia dito que voltaria à história do amigo oculto. Vamos nessa.

O Bom dia e Cia era foi um programa que começou nos anos 90, era apresentado pela Eliana. Era a época de ouro das apresentadoras ninfetas com pernas de fora apresentando programas infantis. Xuxa na Globo, Angélica na Manchete, e a Eliana no SBT. O tempo foi passando, a Eliana envelhecendo. O programa teve outras apresentadoras. Na última versão, o programa era apresentado por duas crianças. O japonês Yudi, e a Priscila – que hoje é cantora neopentecostal. Nessa versão do programa, havia uma brincadeira que servia para manter o ibope. Era uma roleta vertical com vários nomes de brinquedos. As crianças ligavam para lá, entravam ao vivo. Dentre os brinquedos da roleta, havia o sonho da molecada. O Playstation. Videogame de última geração que pouca gente tinha grana para comprar. As crianças dessa época que hoje são pais; compram Playstation dizendo que é para o filho. Mentira.

Aí a criança entrava ao vivo, e Yudi perguntava: “Oi amiguinho! Qual é o seu nome? De onde você fala? Puxa, que cidade linda! E qual o prêmio que você quer?” ; “Claro que noventa e nove por cento das crianças esgoelavam “pleisteeeeeixo!”. Priscila rodava a roleta e Yudi dizia “então, amiguinho; pensa positivo e grita bem forte com a gente! Pleis-tei xo! Pleis-tei-xo! Pleis-tei-xo!”. A roleta parava em outro brinquedo e Yudi dizia com uma cara de triste, que era a definição da falsidade: “Ahhhhh, você ganhou uma boneca careca e pelada daquelas que ficam penduradas em sacos transparentes em biroscas cheias de coroas bêbados, que também é muito legal! Parabéééns! Até a próxima!”. Nessa hora, a produção tirava a criança participante do ar. Maior perigo de uma criança dessa largar um palavrão ao vivo! Eu disse tudo isso, meus caros; pra lhes ilustrar as minhas participações em amigo oculto. Eu sou a criança da roleta do Yudi.

O comandante começou. “Meu amigo oculto parará parará parará... é fulano!” ; “êêêêê!!!”. E a coisa foi acontecendo. Eu dei graças a Deus que ninguém estava abrindo o presente na frente de todo mundo. Sorriso de sarapatel, só se for sozinho no camarote. É mais elegante, né? Muita gente ganhando embrulho com nome de loja de roupa, vários Boticário, umas caixinhas pequenas com jeito de presente caro. Tudo ótimo. Aí um foi lá no meio e disse: “o meu amigo oculto é um cara muito legal. É novo no navio, assim como eu. Gosta de música, de violão...” falei, lá vem. E eu caí na besteira de pensar “peis-tei-xo! Pleis-tei-xo!”. Pra quê... aí fui lá no meio, recebi o presente, abraço, foto, aquilo tudo. E segui na brincadeira, apresentando meu amigo oculto e entregando seu cartão-presente do Boticário. Quando a brincadeira terminou e o pessoal se preparava para comer, meu presenteador passou por mim e disse com cara de “eu acho. Tomara que eu tenha acertado.” : “Você vai gostar, você é um cara que eu acho que você vai gostar. Eu não comprei roupa, que é uma coisa muito pessoal...” ; “Ih, meu irmão, claro que vou. Relaxa com isso!” Quando eu olhei para a sacola, era de uma perfumaria. Saco leve. Logo pensei “porra. Lá vem um perfume fedorento ou esquisito, olha. E roupa que é pessoal demais, né? Parabéns.”. Todo mundo comendo, eu já havia terminado, fui ao camarote abrir meu presente. Tranquei a porta, sentei na cama, tirei o embrulho do saco. Assim que eu rasguei o selo do pacote, o Yudi saiu de lá de dentro gritando “ahhhhhh! Pediu pleisteixo, né, seu babacaaaa!! Se fodeeeeu! Olha que merda que você ganhou, seu trouxa!! Um conjunto de três miniaturas de katanas, aquelas espadas de samurai, tudo made in Chinaaa! Agora você pode tentar amolar essas bostas aqui que não vão pegar fio nunca, e espetar tudo no furingo de quem te deu, seu otáááriooo!”

Sacanagem não. Quando eu olhei para aquele negócio, eu logo pensei como o cara foi escolher isso: “hmmmm, preciso comprar alguma coisa que sirva para qualquer pessoa. Uma coisa que qualquer um possa usar, que qualquer um vá gostar. Claro! Três minuaturas de katanas! Quem não precisa disso na vida?”

O melhor foi no outro dia. Eu entrava no meu camarote. Meu presenteador passou e disse “e aí, Arthurzão, beleza?” ; “Beleza, meu querido! Fica com Deus! Feliz natal!”. E veio o momento inevitável. Ele ficou parado debaixo da porta da escadaria, sorrindo, fazendo que sim com a cabeça. Estava esperando meu comentário sobre o presente. Sacudia a cabeça e certamente falava por detrás do seu sorriso mordido “então, vala gue gostou do bresente, pô. Vala aí, bor vavor?” . Eu, debaixo da porta do meu camarote, igualmente mordia um sorriso. Igualmente sacudia a cabeça. Por detrás de meus dentes eu dizia “ tá vudido que eu vou dizer gue gosdei daguela merda, zeu viado.”. Ele deu um sorriso de sarapatel. Foi ali que eu ganhei o meu presente.

Eu detestei tanto aquele negócio, que o presente acabou dando certo. Montei tudo bonitinho e deixei na estante do camarote, que eu não levo isso pra casa nem a pau. Toda vez que eu estou cansado ou nervoso, olho para aquilo e dou uma enorme gargalhada. Quando eu olho as minhas katanas, lembro do sorriso de sarapatel que ele deu; não do meu.

AGRADECIMENTOS

Enfim; foi um ótimo ano no âmbito profissional. Apesar das lesões, dos sustos e de toda ansiedade, estou vivo, com saúde, de pé. E tenho a vocês, que me lisonjeiam com sua atenção. Obrigado a todos. Quando escrevo, é como se cada um estivesse aqui comigo.

Faltam menos de dez minutos para a virada do ano aí no Rio. Se eu puder fazer um pedido para o próximo ano, peço simplesmente que continuem comigo. Tem sido maravilhoso. Fiquem com Deus e tenhamos um excelente 2019!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Diário de bordo, 18/12/2018 – Navio fixado por boias a uns 30 km da orla de Paracuru – Ceará




Agora eu já estava a bordo do navio. Depois de uma viagem de lancha, escala em uma plataforma, outra lancha e por fim o convés da nova casa; o cansaço era brutal. Estamos na manhã de 29 de setembro. Eu havia chegado a Fortaleza às duas da manhã. Saí do hotel por volta de três e quarenta e cinco para seguir para Paracuru. Quando pus os pés no convés e aguardava as malas serem içadas, as pernas ainda tremiam. Não sei se pelo cansaço de não haver dormido, se pelo nervoso de ser levantado a mais de 20 metros de altura em menos de meia hora nas cestas de translado entre uma embarcação e outra, se pela eterna dúvida de funcionário novo sobre o que irá encontrar. O certo é que juntando esses ingredientes, o nome da receita é perna bamba.
Sem crise; a cabeça sempre no lugar. O segundo oficial de náutica me acompanhou. Cara boa, garoto novo. Educado, sorridente. Nordestino no falar, mas não nas feições. Indício de ser filho de família de dinheiro. Sendo oficial de marinha mercante; 75% de chance de vir de família de oficial. Sendo nordestino só na boca, a chance sobre pra 90. É grande o número de oficiais que sai do sudeste e vem morar, casar e ter seus filhos por aqui. Custo de vida, tranquilidade, acesso ao lazer e à cidade. E um contraste social brutal que faz o dinheiro valer muito mais por aqui. Recíproca verdadeira. Muito comandante nordestino morando no Rio. Muito nordestino nas feições, mas carioca (ou quase) no jeito de falar tripulam os mares. São os nordestinos que enriqueceram com os antigos enormes salários e foram morar no “Rio de Janeiro” – como eles chamam até o dia de sua morte – e seus filhos criados no Rio, mas ouvindo “vixe” e “oxi” dentro de casa (o que faz seu “carioquês” soar diferente do natural). 
Parecia feliz com a minha chegada. Entendi que por algum motivo eu era esperado. Se estão atrás do taifeiro, é que  alguém quer urgentemente deixar de se lascar e passar a bola pra ele. Com o tempo a gente aprende as incumbências da função. Mas isso eu aprendi nos primeiros 15 minutos a bordo do meu primeiro navio, o sísmico Oceanic Champion, da francesa CGG (Companhia Geral Geofísica – mas em francês) há quase cinco anos.
Fui ao camarote para deixar a mala e tive uma surpresa excelente ao abrir a porta: “cama de casal? Ô glória!”. Só tinha visto cama de casal em camarote de comandante e chefe de máquinas. Em raríssimas ocasiões. Nem em casa eu sei o que é ter uma cama de casal. Eu durmo no canto de uma cama queen, que a mulher deixa eu dormir naquele pedacinho da cama que é toda dela. Bom. O descanso merecido vai ter a sua hora, e tem tudo pra ser satisfatório. Partiu cozinha.
Um cozinheiro coroa, barba por fazer. Cabeça abaixada, olhando pro fundo da pia através dos óculos que escorregavam pelo nariz, torneira ligada. Sorri dando bom dia, me apresentei. “Rapaz, graças a Deus que você chegou. A gente está sem taifeiro tem uma semana, já.” Olha aí o porquê de tanto sorriso e tão pouco tempo dormido pra mim até agora. “Eu sou o Gonçalves. A galera me chama de Cabeça” – disse ele com uma daquelas toucas descartáveis de cozinha que fazem até a Gisele Bunchen ficar feia, que dirá o Cabeça. Logo depois apareceu o outro cozinheiro. Nilson. Mais baixo e mais barrigudo do que o Cabeça. Cabelos grisalhos, olhos verdes, cara rosa. ‘’Ó, macho; nós tá pegando um tempo da porra aqui!” Pegar (mau) tempo é passar dificuldade. “Os cara inda queria deixar nós sem taifeiro a viagem toda, macho! Ó a fulerági!”
SEU MÁRIO

E só então eu fui saber do Seu Mário. Seu Mário trabalhou por muitos anos na empresa. Nossas semelhanças serão apresentadas ao longo. No embarque anterior, chegou a comentar com Cabeça sobre um mal estar digestivo. Fez o período dele, desembarcou. Com uma semana de folga foi ao hospital ver o que era. Dali a algumas semanas embarcaria pra outro plano. Firmamento ou rio Aqueronte? São Pedro ou Caronte? Ainda deixam dúvidas os depoimentos sobre ele. Eis a nossa primeira semelhança.  Câncer no pâncreas, parece. Daquele jeito que quando descobre, era melhor nem ter descoberto.
A LÍNGUA DO MARANHÃO
No primeiro dia, perguntei a rotina do navio. No segundo dia, ia cumprindo o que deveria ser feito, sempre perguntando a Nilson e Cabeça se era aquilo ali mesmo. No terceiro dia não fiz mais perguntas. “Cabeça, macho. Três dias esse cara já aprendeu a língua do Maranhão! Pode isso? É, Arthur. Já aprendeu a língua do Maranhão, né, macho?” Nilson repetia isso várias vezes ao dia. “Vocês tão me sacaneando com essa porra de língua de Maranhão, rapaz? Que porra de língua de Maranhão é essa?” E Cabeça explicou que “a língua do Maranhão são os atalhos do trabalho. É se adiantar e não deixar furo, fazer tudo o que tem que fazer bem feito, mas sem se matar.” E Nilson arrematou segurando um pano , apoiando as costas da mesma mão na cintura enquanto o indicador da outra  sacudia na minha direção. “Vinte e dois anos em cima de um navio e eu nunca tinha visto ninguém aprender a língua do Maranhão em três dias! Já vi até o final da viagem,  ou em 15 dias... mas em três? Cé doido, é macho?” E rimos os três. Eu por ter sido aceito. Eles por estarem livres do trabalho extra, por poderem voltar a suas rotinas e por não precisarem explicar todos os passos de todos os serviços que eu deveria executar.
TRIFIX E EXTRA-ROL
O navio tem uma tripulação fixa de 23 pessoas. Aqui é o que chamam de navio cisterna. Fica fixado por boias . Não navega, não sai daqui para nada. Somente de dois em dois anos o navio vai embora, e vem outro pro mesmo lugar fazer a mesma função. Quando o navio é trocado por outro, ele vai mas a tripulação fica. No fim das contas, a tripulação pertence a esse local, não a esse navio.
A empresa tem escalas de 90 dias trabalhados por 45 em casa, 60 a bordo e 60 em casa (escala que será fixada em todos os navios dentro em breve). O único navio que não terá a escala modificada é esse. Trinta e cinco por trinta e cinco. Melhor escala da empresa. Todo mundo sai no tapa pra vir pra cá por conta disso. Dizem os antigos que, sempre que vem um navio tomar o lugar desse, a tripulação que traz a próxima embarcação vem na ânsia de ficar por aqui. Argumentam que são tripulantes do navio que está chegando, e como ele vai passar a operar aqui, eles são quem devem ficar. Quando chega o comunicado que terão que se retirar para a tripulação da área entrar, eles preparam a surpresa para quem vem. Enquanto o navio navega até aqui, toda a tripulação se une e começa a entupir todos os encanamentos e desregular equipamentos. Quando a tripulação da área chega, ninguém consegue tomar banho. Ninguém consegue cagar. Os camarotes inundam. Água, mijo, merda. “É trabalho pra mais de mês, rapaz. Só pra deixar o navio operacional”; diz outro que “já tivemos que retirar as anteparas (paredes) todas do lugar pra desobstruir isso aí tudo. Isso aqui ficou tudo no esqueleto”. O ser humano é foda, jovem.
Além dos fixos, recebemos praticamente toda semana mergulhadores, operadores e um murimaster. São as pessoas a quem chamamos de extra-rol. Vêm, mas não fazem parte da tripulação fixa. Ficamos parados aqui para recebermos a produção de petróleo da plataforma através da tubulação subaquática. A operação não é interrompida nunca. Durante os dois anos que o navio fica aqui, recebe ininterruptamente petróleo e a água de produção (é a água injetada no poço para que o óleo suba). Essa água volta suja e deve ser armazenada nos tanques do navio para posteriormente seguir para seu tratamento. Como os tanques enchem mais ou menos em uma semana, um outro navio navega até nós. É o aliviador. Todo material presente em nossos tanques é passado para o tanque deles através de um mangote, que é uma mangueira enorme, um umbilical entre os dois navios. Para conectar esse mangote ao outro navio é que são necessários os mergulhadores. Eles vão para a água fazer e desfazer essa conexão com um mergulho de superfície. Os operadores são responsáveis pela vigilância de uma máquina que faz a análise e o bombeamento da produção entre as duas embarcações.
 Então, quem é o murimaster? Esse é um cara que vem para cá esperar o navio aliviador chegar. Quando chega, ele vai a bordo para comandar a manobra de aliviamento. Nessa hora  ele manda mais que o comandante do outro navio. O murimaster faz basicamente o mesmo curso dos práticos. Isso quer dizer que ele só trabalha na hora da manobra. E ganha mais, bem mais que o comandante.
Terminada a manobra, vão-se embora os mergulhadores, operadores e o murimaster. Voltamos a ser os 23. Até que os tanques se encham novamente. Até semana que vem.

SEU MÁRIO BOM
Conforme os dias iam se passando, eu ia conhecendo cada tripulante. Quem era sério, distante; quem era sociável, brincalhão. Eu gosto da brincadeira. Por mim, deixa a sacanagem rolar. O tempo passa mais rápido, você tem com quem conversar. A solidão que acompanha cada um vai ficando pra depois. Como é com o samba: “batuque mais forte e a tristeza se cala”. Agora; eu vou brincar de volta. Se minha brincadeira não for bem recebida, passar bem. E nem tenta brincar de novo. Ou é via de mão dupla, ou é sinal fechado. Todos temos os nossos dias e os nossos problemas. Ninguém nem desconfia dos meus, e que assim seja. Mas na minha função, sorriso é ferramenta de trabalho. Se eu não gostasse de brincadeira, o trabalho seria bem mais penoso.
O local onde todas as pessoas se encontram é o refeitório. Contígua a ele, separada por um marco sem porta, fica a copa. É onde eu trabalho. Oposta à entrada da copa há uma porta. É a entrada para a cozinha de Nilson e Cabeça. Na minha copa há duas pias, uma cafeteira de torre, como as de padaria, uma máquina de gelo que não funciona, uma bancada com uma sanduicheira pra quem quiser fazer um lanche rápido. Tudo isso fica na antepara onde está a porta de entrada para a cozinha. No final do pequeno corredor que é a copa, uma geladeira. Na antepara de entrada da copa, um armário de cozinha com alguns gêneros como latas diversas: achocolatado, leite em pó, granola, café solúvel, essas coisas – além de chás diversos, pacotes de pó de café, pipocas de micro-ondas. No chão, abaixo desse armário ficam as lixeiras.
Cada um faz sua refeição, levanta com seu prato e o leva à copa. Jogam na lixeira de resíduo orgânico o resto de comida que tenha ficado no prato, jogam fora seus copos descartáveis, guarda-napo sujo; e deixam o prato em uma das pias para que eu os lave. E assim, os mais adeptos da conversa começavam a falar:  “pô, o Seu Mário, ó bicho. A gente não vale nada mesmo.”; “Ah, você escuta sua musiquinha aí trabalhando, né? Igual o Seu Mário!”; “Seu Mário, rapaz (estalo de língua no céu da boca). Mas é foda né, o cara fumava demais.” . Aí estão, respectivamente, a segunda e a terceira semelhanças entre mim e ele. Música e tabaco. “O menino é carioca igual Seu Mário.” Quatro.  “O Mário era piranha velha. Já trabalhou de uma porrada de coisa. Até em puteiro ele já trabalhou...” . Putz... cinco. “Eu quando entro naquela lavanderia lá, só vejo ele trabalhando. É foda, né, véi?” – e por ai vai.
SEU MÁRIO MAU
Os tripulantes queriam saber como estava Seu Mário no hospital. Queriam notícias da família. Mas ninguém tinha. Ninguém sabia de nada. Foi quando Nilson recebeu uma mensagem no zap. Um cara que já tinha trabalhado tanto com Seu Mário quanto com Nilson , encontrou o hospital e foi lá visitar o velho.  Tirou uma foto ao lado dele. O cara sorria. Seu Mário de olhos pesados apenas acenava por entre os tubos ligados a ele. “Olha isso, macho. O caba trabalha a vida inteira, bancou tudo de todo mundo em casa. Mulher, filha, o diabo. Agora o caba tá lá na cama e não tem um da família lá com ele. Fulerági da porra, macho.”
Não lembro o dia exato. Mas passados os dez primeiros dias de outubro, e não antes que chegasse o vigésimo, veio a notícia. Seu Mário morreu. Como esperado, o clima pesou. Como de costume, as mulheres choraram. Morreu alguém que morava junto com todo mundo aqui. Normal. O afastamento de Seu Mário me fez ser o primeiro concursado a embarcar, e logo no navio de escala mais cobiçada. A morte de Seu Mário me trouxe a possibilidade de ficar fixo por aqui. A vida fecha muitas portas antes de abrir alguma. A morte fecha uma só. Mas pode abrir várias. Eis o segredo da vida e da morte de Seu Mário, pelo menos para mim.
Assim que eu soube da doença de Seu Mário, dei-o como morto. Não de fato, mas no navio. Mais de sessenta anos, câncer. Se sobreviver, se aposenta. Pra cá ele não volta. No armário do camarote ficavam suas roupas, pincel e creme de barbear, um jaleco branco para ocasiões mais importantes; essas coisas. Deixei tudo no lugar para não ser pretensioso. Passei o mês com a mala no chão, sempre aberta, retirando e pondo de volta o que precisava usar. Mesmo depois de sua morte.  Eu não sabia o que fazer com aquilo, e não queria perguntar aos oficiais o que fazer para que não o matasse mais uma vez em suas mentes. Não senti dor por sua morte, mas não era indiferente à dor dos outros. 
Os dias que se seguiram foram se tornando um pouco pesados, porque quando alguém entrava na copa para deixar o prato e me olhava, ali era o lugar que todo mundo esquecia seu dia de trabalho e lembrava de Seu Mário. Lançavam, então, sobre mim, o luto que tinham por ele. Não sei direito se sobre mim diretamente, ou sobre a copa. O fato é que entravam na copa, pensavam em Seu Mário, e quando olhavam – quase sempre com os olhos cheios de neblina, de horizonte- , viam a mim. Os olhares trocavam então um diálogo tão silencioso quanto pesaroso, sério e respeitoso de forma triste. Em uma palavra, os olhares conversavam sobre  morte. Vinte e duas pessoas faziam isso três vezes ao dia. Com mais o extra-rol eram trinta. Entre sessenta e noventa vezes ao dia, pessoas me olhavam como se me estivessem velando. A morte tem seus protocolos, é a vida que não tem manual. Não era confortável, mas era necessário.
O tempo foi passando, as vozes foram voltando, os olhares foram perdendo a distância. O trabalho não para. Quem está vivo come pelo menos três vezes ao dia. Eu sou um dos que responde por essas três. E aos poucos, enquanto a sacanagem ia voltando no salão, alguns iam desabafando sobre o outro lado de Seu Mário: “é aquilo, né. Quando morre, todo mundo vira santo. Mas o velho era foda, rapaz. Criava caso com todo mundo.” ; “Aquele ali nem vinha almoçar. Tinha dia que a gente nem via. Não queria nem olhar para a cara do velho. Agora que você está aqui é que ele está vindo.” ; “Ele era foda, macho. Você, terminou a janta vai logo embora. Ele ficava aqui até nove, dez, onze da noite. Vigiando quem vinha comer. Se o cara pegava uma fruta, olhava. Se pegava a segunda – poooooorrra, vai comer a fruta do navio todo? - . Eeeeera, rapaz. Regulava todo mundo.”; “A verdade é que parecia que ele tinha feito as compras do rancho, tudo do bolso dele. Um ciúme das comidas, que só a porra.” ; “O pessoal sente e tal, que ele morreu; mas a verdade é que ninguém gostava dele aí não, que ele era filha da puta, boy.” ; “Você no café da manhã sempre bate aí um nescau, uma vitamina de banana, uma abacatada, um café gelado, essas coisas. A gente vê que você faz porque quer, porque gosta. Galera pedia pra ele, ele dizia que não era empregado de ninguém não.  Carne de pescoço. Hun!” E Nilson disse “rapaz, no dia que o cara mandou a foto no hospital, ele mandou um áudio também. Seu Mário falava, mas não dava pra entender direito, né? Aí o cara traduzia lá. Que ele estava pedindo desculpa por tudo que já tinha feito comigo, que na verdade ele gostava muito de mim, de trabalhar comigo. Eu tenho pra mim que ali era ele já se despedindo, sabe? Porque era foda com ele mesmo. Tratava nós mal e puxava o saco dos oficiais.” E assim, Seu Mário foi morrendo. De vez em quando vem um matar mais um pouquinho. É a vida, não é?
A SURPRESA DESAGRADÁVEL DO MEU KINDER OVO
Quando eu era moleque apareceu o Kinder ovo. Um filete quase transparente de chocolate ao leite por fora e branco por dentro.  Delicioso. Quando apareceu, custava um real e alguma coisa, dava pra fazer uma graça. Mas a grande sacanagem do Kinder ovo era a surpresa, um brinquedo que vinha dentro. Diferentes coleções de brinquedos vagabundos que não serviam para bosta nenhuma (mas eu só sei disso agora – todas as crianças estão perdoadas) rechearam o mais desejado sonho de consumo de vários da minha geração.  “Esse é o Leoventura explorador.” “Que maneiro, agora só faltam 92 pra completar a coleção!” A gente parava em frente à caixa, com os ovinhos todos enfileirados pedindo a Deus para escolher o brinquedo que faltava, ou um que fosse legal. Eu ficava puto quando saía quebra-cabeça. Só que o negócio foi ficando caro depois de um tempo; vai ver o preço agora.
A gente vai crescendo e as coisas deixam de ter o mesmo brilho. Eu olhava crianças menores na padaria “papai, quero um Kinder ovo”; “quê? Quatro e cinquenta?” ; “Quero Kinder onnnnvo...” ; “Meu filho, toma aqui um baton qu...” “Kinder AAAAAAVO!” . Talvez o Kinder ovo tenha sido meu primeiro professor a ensinar o que é o capitalismo, tanto do ponto de vista do produtor, quanto do consumidor, quanto do público alvo.
A escala 35x35 é o Kinder ovo da empresa. Assim que disseram meu nome ainda no hotel , na época da ambientação -  “Arthur de Aquino Pontual – Lorena BR” , teve vários que já trabalhavam em outras embarcações que diziam, levantando o queixo e rebaixando as pálpebras: “É... Lorena. Só trinta e cinco dias, né? Molezinha. Tu é amigo do comandante, é? “ – Vagabundo fica puto. Mas quando o cara vem com um comentário infeliz desse, quer ficar puto, eu vou deixar mais puto ainda. “Que amigo, rapaz. Sou é família. Meu primo, aquele safado!”, sem fazer ideia de quem seja o comandante.  “Como é mesmo o nome dele? “ Aí é só inventar um nome de militar coroa e bigodudo e fica tudo resolvido: “Pô, é o Trindade, pô.” “Trindade, pode crer.” – E sai sugando pra dentro da boca o lábio inferior. Os caras que conheci durante o processo olhavam meio rindo. “É mole, Arthur?” “Vai aporrinhar o caralho, meu irmão.”
Alguns dias depois da morte de Seu Mário, fui chamado pela imediata para uma conversa. Dificilmente uma conversa entre quem manda e quem obedece é divertida pro segundo. Não sou eu que vim pra mudar isso aí.  Quem veio pra fazer isso foi o Bolsonaro (quem não te conhece que te compre, satanás).  “Arthur, eu não queria te falar o que eu tenho que te falar. Eu estou gostando muito de trabalhar com você, toda a tripulação também fala muito bem de você.” “Ué, e por que é que não queria me falar isso? Eu adorei, pô.” “Não, não é isso. É que assim que o Seu Mário se afastou, o comandante pediu que viesse pra cá um outro taifeiro que já trabalhou com ele; que ele gosta. Mas ele estava embarcado no longo curso.” “Então me mandaram pra cá pra tapar esse buraco.” “É, mais ou menos, né. O próprio comandante já disse que se arrependeu de ter chamado o outro rapaz; que gostou mais de você. Mas aí fica ruim de cancelar esse pedido com o escritório, fica chato. Então é isso, pedi pra você vir aqui pra te dizer que você não vai voltar pra cá, tudo bem?” “Nada, pô. Tudo bem, lógico. É só que eu já estava meio me sentindo em casa, e tal. E só aqui são 35, né? Mas tá valendo, ninguém tinha como prever.” Vir para cá foi o chocolate do meu Kinder ovo. Não permanecer era uma surpresa desagradável. Mas...
A COZINHA É UMA MÁFIA

-O que ela queria com você, Arthur?
-Porra, Nilson. Sacanagem. Mas vou fazer o que?
-Fala logo, macho!
-Eu não volto, não.
-Oxi, e por quê?
-Pô, assim que o Mário se afastou o comandante já pediu um cara aí, sendo que ele estava viajando e aí não pôde vir dessa vez. Mas vai poder da próxima. Um cara aí de Fortaleza. Como é que é o nome mesmo? Aluísio.
-Ó! Esse caba é meu vizinho lá no Mucuripe, eu conheço ele, rapaz.
-Ah, então vai ficar tudo bem aí com vocês mesmo, ué.
Nilson levantou o lábio inferior fazendo um bico, fez que não com a cabeça. Tirou do ombro um pano que ali repousava e encostou as costas da outra mão na cintura. Bateu com o pano no freezer horizontal que fica abaixo das vigias (janelas parafusadas de navio) da cozinha, ao mesmo tempo que dizia “esse caba não vem pra cá não, macho. Não vem porque ele não vai se adaptar. O negócio dele é ganhar dólar, é ir pra China, ficar cinco meses embarcado. Aqui ele não vai gostar. Eu vou falar com ele, você vai ver. Vou fazer a caveira desse navio aqui. Vou dizer que pro taifeiro é peso. Aqui não tem câmara, vou dizer que tem esses 40 freezeres aí pra limpar toda vez, que é muita sobremesa pra fazer, que toda hora embarca e desembarca gente, aí é aquela ruma de roupa de cama pra lavar. Pois eu duvido que ele venha! Ó macho, ele abriu um negócio lá no Mucuripe, a mulher dele gosta mesmo é que ele fique lá ganhando dólar.” Essa era a única chance de eu ficar por aqui. Se o Aluísio “desse nega”. O comandante não queria voltar atrás com a gerência, que podia parecer ficar devendo um favor, eu acho. Ou falta de poder de decisão, sei lá. Palavra de rei não volta atrás. Restava o cara não querer vir. Eu trabalho na máfia. A máfia trabalha comigo.
Aos poucos eu ia comentando com o resto da tripulação que não voltaria, explicava o motivo. O mestre, um senhor de mais de sessenta anos com uma vitalidade de quarenta ou menos dada pelos longos anos na pesca disse “não, Arthur, isso não tá certo. Ontem mesmo a gente estava todo mundo conversando de você aqui! O cara é profissional, bota o café sempre meia hora antes do horário, tudo completo. Ainda faz uma bebida gelada que Seu Mário não fazia. Com ele não tinha isso, não! E era só na hora certa. Seis e meia. É foda, é só os remo torto que se criam. O cara que trabalha não tem valor.” “Nada, mestre. Isso aí já estava decidido antes de eu vir pra cá. O negócio é que vocês gostaram. O negócio é estar na folha(de pagamento).”
TROCA DE TURMA
Eu nunca tinha trabalhado desse jeito. Estava acostumado com troca completa de tripulação. Embarca todo mundo junto, desce todo mundo junto. Aqui não. Em uma semana um grupo, na próxima outro, na terceira mais um. Eu sou do último grupo. Quando eu chego, já tem gente com duas semanas a bordo. Assim, todo mundo acaba trabalhando com quase todo mundo das duas tripulações. Você só não trabalha com quem embarca no dia que você desembarca. No meu caso, são 10 pessoas entre os 46 que compõem as duas turmas.
Quando faltam duas semanas pra eu descer, sobem o outro comandante e o outro chefe de máquinas; são a administração. Na semana seguinte, a primeira parte da segunda turma. Onze pessoas. No meu desembarque, sobem os últimos dez. A umas três semanas antes do fim do embarque, comecei a ouvir falar da outra imediata. Sem exceção, todos falavam mal. Que ela gosta de mostrar poder, que humilha os outros, que quer botar o taifeiro de empregado, que já tirou comandante daqui. Eu só ouvindo. “Comigo ela tá é fodida, que eu não volto pra cá... não sou eu que vou bater palma pra maluco dançar.” – pensava. Muitos me advertiam pra eu não ficar fazendo as coisas que ela ia me pedir, que aqui cada um faz a sua função; não tem que ficar cheirando ninguém. “Rapaz, vocês estão de bobeira comigo. Vocês sabem pra quê eu fiz esse concurso aqui, ganhando menos e trabalhando por mais tempo? Pra ter o direito de dizer não. Na privada o cara tem a obrigação de fazer uma porrada de coisa que não era pra fazer. Quantas vezes eu comprei decoração de festa de aniversário do meu bolso; todo mês, três, cinco quilos de chocolate pra fazer doce pro peão. E nego cagando na minha cabeça. Aqui? Não sou eu que tô preso com vocês, não. São vocês que tão presos aqui comigo.”
E veio ela: estranhei. Falou comigo sorrindo, perguntando por que eu não trabalharia mais no navio, se eu não havia gostado; que tinha ouvido falar bem de mim. Expliquei a situação, também cheio de sorriso, afastando as mãos do corpo com as palmas apontando para o teto, dizendo “é aquilo, né? O que há de se fazer, né? “ Aquela conversa mole, um cozinhando o outro. Antes da troca de turma, veio gente me avisar “olha, cuidado com o que você fala e com quem você fala quando ela chegar; que tem uns puxa-sacos aí. Tem um que você vai logo saber. Tem cara que fala mal dela do teu lado pra ver o que você vai dizer. Aí pronto. Logo ela já tá sabendo. Aí fode o cara.”
Sentou, tomou café. Logo veio um falar com ela. Todo duro, cheio de respeito. Ela deixou de sorrir pra falar com ele. Uma autoridade que eu não havia visto até então na marinha mercante. Me fez lembrar Wolf Larsen de Jack London. Mas havia um grande contraste entre ela e Wolf Larsen. O perfume. Um perfume doce, nojento, melado. O avesso olfativo de seu gênio seco. E usado em quantidades abissais. É costume por aqui. Dá pra saber se ela já esteve em qualquer lugar do navio durante o dia. A intensidade do perfume estima o momento da saída. Ela nunca encostou em mim, mas seu perfume estava na minha roupa. Nem a esposa mais complacente acreditaria. “O perfume dela é caríssimo!”; disseram uma vez. “Pra você ver que dinheiro está longe de comprar bom gosto.”
 Ele disse “sim, senhora” e saiu mudo. Desse diálogo, tirei três conclusões: o puxa-saco maior é esse aí; o sorriso dela cozinha a mim muito mais do que o meu a ela. Só que ela já sabe que eu não sou besta.
SÓ UMA SEMANA
É o tempo que um precisa aturar o outro. Coitado de quem passa trinta e cinco dias com ela. Devo cuidar para que ela goste de mim o mais rápido possível. Se for possível. Então tome sorriso, tome cortesia. A regra está aí, vamos jogar. Me chamou para conversar. Lá vem. “A senhora queria falar comigo?” O puxa-saco logo saiu caninamente da sala. A outra oficial que lá também estava pertence à minha turma; desembarcaria comigo. Amiga da nossa imediata, que já havia desembarcado. Levantou para sair. “Não, você pode ficar.” Ao que ela sentou novamente. “Olha, Arthur: o comandante veio falar comigo que você não está à disposição dele no salão durante as refeições. O taifeiro da nossa turma está sempre lá. Você precisa observar quando ele termina de comer, para oferecer uma fruta, uma sobremesa, um café. Quem deveria ter te falado isso é a imediata da outra turma, só que eu é quem tenho que ser a bruxa, a chata. Mas você tem que fazer isso, ou vem um e te dá uma nota ruim na sua avaliação, entendeu?”; “Sim, senhora. Entendi perfeitamente.” “Ah, e quando você tirar o café da manhã, traga a garrafa de leite quente pra cá. À tarde não precisa, mas quero essa garrafa aqui assim que você der volta no café.”; “Sim senhora, sem problemas.” E saí.
Cabeça já havia desembarcado. No lugar dele veio a Dona Jane. Nilson desembarcaria comigo. “E aí, Arthur? Era o que?”; “Ah, meu irmão... que eu tenho que ficar olhando o comandante comer pra ir lá oferecer café, que ele não tem braço nem perna. Cularguice do caralho.”; “Ná! É que o Seu Mário e o Marconi ficam ali mesmo do lado deles, em pé. Aí eles acham que todo mundo tem que fazer isso. Não tá escrito em lugar nenhum que você tem que fazer isso não, macho. Mas isso é ela, rapaz. Ela usa o nome do comandante pra tudo, mas tudo é ela que quer. Eu não te disse? Ela fica aí o dia inteiro telefonando pro refeitório, pro camarote do Marconi inventando faxina pra ele.” Marconi é Marcondes. O cara que me rende quando desembarco. Mas por aqui, ninguém conseguiu falar o nome dele como está escrito na porta do camarote até agora. “Tem erro não. Quer teatro a gente faz teatro. Uma semana só.”
Ninguém sabia. Mas quando eu respondi que havia entendido perfeitamente, não era a respeito de ser babá dos oficiais. Eu tinha entendido a situação inteira. A imediata nunca quis “falar comigo”. Queria mesmo era que a outra oficial a ouvisse falando comigo. Que ela a ouvisse falando mal do trabalho da outra, que não se bicam. E que, por fim, a oficial fosse contar tudo para a amiga, no que ela caiu feito criança. O que ela queria era atrapalhar a folga da outra dizendo que era mais competente. De quebra ganharia uma garrafa de leite por dia. Eu ouvia e fazia cara de oração sem sujeito.
Quando foi no outro dia, assim que tirei o café da manhã, levei o leite dela.  Obrigado de nada. E eu preparando a mente para o almoço, quando eu deveria ficar igual a um dois de paus vendo os brancos comerem , como em um Debret. Não deu pra mim. Fiquei na porta da copa, olhando de longe. O comandante comia junto com seu chefe de máquinas. Quando terminou, fui lá buscar o prato. “E aí, comando? Café?”; “Ih, mermão. Esquenta comigo não!” Pronto. Só faço quando ela estiver perto. Terminou o almoço, passei para buscar de volta a garrafa de leite e fui dormir. O almoço termina ao meio dia e meia. Uma hora eu já programo estar deitado e de banho tomado. Vou até depois das três, três e tal – quase quatro. Eu já dormindo o sono da tarde, fundamental pra aturar o embarque inteiro. A gente começa a trabalhar antes das cinco da manhã. A janta termina às seis e meia da noite. Todo mundo trabalha oito horas por dia, menos a cozinha. De sábado ao meio dia até a segunda de manhã, ninguém trabalha; só a cozinha. Bate na minha cara, mas não mexa com o meu sono.
Em trinta dias, o telefone do meu camarote não havia nem dado sinal de vida. Estava lá descansando. Nesse dia ele tocou. Acordei, olhei no celular. “Porra, duas horas da tarde? No meio do meu descanso? É bom que alguém tenha morrido.” “- Alô.”; “Arthur, você levou meu leite embora? Traz meu leite aqui, faz favor.”. Dei uma longa pausa para respirar. “Já estou chegando aí.” Fui ao refeitório, esquentei o diabo do leite, levei lá. Ela me olhou da cabeça aos pés. Isso porque eu estava de bermuda e chinelo, e ela estranhou. Ainda estava com olhos de sono, e fiz questão de arrepiar os cabelos pra entrar com cara de maluco. “Você entendeu errado, é?”; “É a única explicação que eu encontrei. Era pra ter deixado o dia inteiro? Quando a senhora disse que na parte da tarde não precisava, entendi que era para levar embora. A senhora me perdoe.”; “Não, menino. É pra deixar o dia inteiro.”; “Tudo bem. Eu posso voltar ao meu descanso ou a senhora ainda quer mais alguma coisa?” Ela sentiu o peso, disse “não, pode ir.” Como ela sabia que eu não voltaria, sabia também que o poder dela sobre mim era menor. Sabia inclusive que eu sabia que a minha avaliação havia sido feita pelo comandante que já desembarcara. O mesmo que se arrependeu de ter chamado o Aluísio. Dali ao final do embarque os sorrisos diminuíram. Os pedidos, também.