sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Diário de bordo, 18/12/2018 – Navio fixado por boias a uns 30 km da orla de Paracuru – Ceará




Agora eu já estava a bordo do navio. Depois de uma viagem de lancha, escala em uma plataforma, outra lancha e por fim o convés da nova casa; o cansaço era brutal. Estamos na manhã de 29 de setembro. Eu havia chegado a Fortaleza às duas da manhã. Saí do hotel por volta de três e quarenta e cinco para seguir para Paracuru. Quando pus os pés no convés e aguardava as malas serem içadas, as pernas ainda tremiam. Não sei se pelo cansaço de não haver dormido, se pelo nervoso de ser levantado a mais de 20 metros de altura em menos de meia hora nas cestas de translado entre uma embarcação e outra, se pela eterna dúvida de funcionário novo sobre o que irá encontrar. O certo é que juntando esses ingredientes, o nome da receita é perna bamba.
Sem crise; a cabeça sempre no lugar. O segundo oficial de náutica me acompanhou. Cara boa, garoto novo. Educado, sorridente. Nordestino no falar, mas não nas feições. Indício de ser filho de família de dinheiro. Sendo oficial de marinha mercante; 75% de chance de vir de família de oficial. Sendo nordestino só na boca, a chance sobre pra 90. É grande o número de oficiais que sai do sudeste e vem morar, casar e ter seus filhos por aqui. Custo de vida, tranquilidade, acesso ao lazer e à cidade. E um contraste social brutal que faz o dinheiro valer muito mais por aqui. Recíproca verdadeira. Muito comandante nordestino morando no Rio. Muito nordestino nas feições, mas carioca (ou quase) no jeito de falar tripulam os mares. São os nordestinos que enriqueceram com os antigos enormes salários e foram morar no “Rio de Janeiro” – como eles chamam até o dia de sua morte – e seus filhos criados no Rio, mas ouvindo “vixe” e “oxi” dentro de casa (o que faz seu “carioquês” soar diferente do natural). 
Parecia feliz com a minha chegada. Entendi que por algum motivo eu era esperado. Se estão atrás do taifeiro, é que  alguém quer urgentemente deixar de se lascar e passar a bola pra ele. Com o tempo a gente aprende as incumbências da função. Mas isso eu aprendi nos primeiros 15 minutos a bordo do meu primeiro navio, o sísmico Oceanic Champion, da francesa CGG (Companhia Geral Geofísica – mas em francês) há quase cinco anos.
Fui ao camarote para deixar a mala e tive uma surpresa excelente ao abrir a porta: “cama de casal? Ô glória!”. Só tinha visto cama de casal em camarote de comandante e chefe de máquinas. Em raríssimas ocasiões. Nem em casa eu sei o que é ter uma cama de casal. Eu durmo no canto de uma cama queen, que a mulher deixa eu dormir naquele pedacinho da cama que é toda dela. Bom. O descanso merecido vai ter a sua hora, e tem tudo pra ser satisfatório. Partiu cozinha.
Um cozinheiro coroa, barba por fazer. Cabeça abaixada, olhando pro fundo da pia através dos óculos que escorregavam pelo nariz, torneira ligada. Sorri dando bom dia, me apresentei. “Rapaz, graças a Deus que você chegou. A gente está sem taifeiro tem uma semana, já.” Olha aí o porquê de tanto sorriso e tão pouco tempo dormido pra mim até agora. “Eu sou o Gonçalves. A galera me chama de Cabeça” – disse ele com uma daquelas toucas descartáveis de cozinha que fazem até a Gisele Bunchen ficar feia, que dirá o Cabeça. Logo depois apareceu o outro cozinheiro. Nilson. Mais baixo e mais barrigudo do que o Cabeça. Cabelos grisalhos, olhos verdes, cara rosa. ‘’Ó, macho; nós tá pegando um tempo da porra aqui!” Pegar (mau) tempo é passar dificuldade. “Os cara inda queria deixar nós sem taifeiro a viagem toda, macho! Ó a fulerági!”
SEU MÁRIO

E só então eu fui saber do Seu Mário. Seu Mário trabalhou por muitos anos na empresa. Nossas semelhanças serão apresentadas ao longo. No embarque anterior, chegou a comentar com Cabeça sobre um mal estar digestivo. Fez o período dele, desembarcou. Com uma semana de folga foi ao hospital ver o que era. Dali a algumas semanas embarcaria pra outro plano. Firmamento ou rio Aqueronte? São Pedro ou Caronte? Ainda deixam dúvidas os depoimentos sobre ele. Eis a nossa primeira semelhança.  Câncer no pâncreas, parece. Daquele jeito que quando descobre, era melhor nem ter descoberto.
A LÍNGUA DO MARANHÃO
No primeiro dia, perguntei a rotina do navio. No segundo dia, ia cumprindo o que deveria ser feito, sempre perguntando a Nilson e Cabeça se era aquilo ali mesmo. No terceiro dia não fiz mais perguntas. “Cabeça, macho. Três dias esse cara já aprendeu a língua do Maranhão! Pode isso? É, Arthur. Já aprendeu a língua do Maranhão, né, macho?” Nilson repetia isso várias vezes ao dia. “Vocês tão me sacaneando com essa porra de língua de Maranhão, rapaz? Que porra de língua de Maranhão é essa?” E Cabeça explicou que “a língua do Maranhão são os atalhos do trabalho. É se adiantar e não deixar furo, fazer tudo o que tem que fazer bem feito, mas sem se matar.” E Nilson arrematou segurando um pano , apoiando as costas da mesma mão na cintura enquanto o indicador da outra  sacudia na minha direção. “Vinte e dois anos em cima de um navio e eu nunca tinha visto ninguém aprender a língua do Maranhão em três dias! Já vi até o final da viagem,  ou em 15 dias... mas em três? Cé doido, é macho?” E rimos os três. Eu por ter sido aceito. Eles por estarem livres do trabalho extra, por poderem voltar a suas rotinas e por não precisarem explicar todos os passos de todos os serviços que eu deveria executar.
TRIFIX E EXTRA-ROL
O navio tem uma tripulação fixa de 23 pessoas. Aqui é o que chamam de navio cisterna. Fica fixado por boias . Não navega, não sai daqui para nada. Somente de dois em dois anos o navio vai embora, e vem outro pro mesmo lugar fazer a mesma função. Quando o navio é trocado por outro, ele vai mas a tripulação fica. No fim das contas, a tripulação pertence a esse local, não a esse navio.
A empresa tem escalas de 90 dias trabalhados por 45 em casa, 60 a bordo e 60 em casa (escala que será fixada em todos os navios dentro em breve). O único navio que não terá a escala modificada é esse. Trinta e cinco por trinta e cinco. Melhor escala da empresa. Todo mundo sai no tapa pra vir pra cá por conta disso. Dizem os antigos que, sempre que vem um navio tomar o lugar desse, a tripulação que traz a próxima embarcação vem na ânsia de ficar por aqui. Argumentam que são tripulantes do navio que está chegando, e como ele vai passar a operar aqui, eles são quem devem ficar. Quando chega o comunicado que terão que se retirar para a tripulação da área entrar, eles preparam a surpresa para quem vem. Enquanto o navio navega até aqui, toda a tripulação se une e começa a entupir todos os encanamentos e desregular equipamentos. Quando a tripulação da área chega, ninguém consegue tomar banho. Ninguém consegue cagar. Os camarotes inundam. Água, mijo, merda. “É trabalho pra mais de mês, rapaz. Só pra deixar o navio operacional”; diz outro que “já tivemos que retirar as anteparas (paredes) todas do lugar pra desobstruir isso aí tudo. Isso aqui ficou tudo no esqueleto”. O ser humano é foda, jovem.
Além dos fixos, recebemos praticamente toda semana mergulhadores, operadores e um murimaster. São as pessoas a quem chamamos de extra-rol. Vêm, mas não fazem parte da tripulação fixa. Ficamos parados aqui para recebermos a produção de petróleo da plataforma através da tubulação subaquática. A operação não é interrompida nunca. Durante os dois anos que o navio fica aqui, recebe ininterruptamente petróleo e a água de produção (é a água injetada no poço para que o óleo suba). Essa água volta suja e deve ser armazenada nos tanques do navio para posteriormente seguir para seu tratamento. Como os tanques enchem mais ou menos em uma semana, um outro navio navega até nós. É o aliviador. Todo material presente em nossos tanques é passado para o tanque deles através de um mangote, que é uma mangueira enorme, um umbilical entre os dois navios. Para conectar esse mangote ao outro navio é que são necessários os mergulhadores. Eles vão para a água fazer e desfazer essa conexão com um mergulho de superfície. Os operadores são responsáveis pela vigilância de uma máquina que faz a análise e o bombeamento da produção entre as duas embarcações.
 Então, quem é o murimaster? Esse é um cara que vem para cá esperar o navio aliviador chegar. Quando chega, ele vai a bordo para comandar a manobra de aliviamento. Nessa hora  ele manda mais que o comandante do outro navio. O murimaster faz basicamente o mesmo curso dos práticos. Isso quer dizer que ele só trabalha na hora da manobra. E ganha mais, bem mais que o comandante.
Terminada a manobra, vão-se embora os mergulhadores, operadores e o murimaster. Voltamos a ser os 23. Até que os tanques se encham novamente. Até semana que vem.

SEU MÁRIO BOM
Conforme os dias iam se passando, eu ia conhecendo cada tripulante. Quem era sério, distante; quem era sociável, brincalhão. Eu gosto da brincadeira. Por mim, deixa a sacanagem rolar. O tempo passa mais rápido, você tem com quem conversar. A solidão que acompanha cada um vai ficando pra depois. Como é com o samba: “batuque mais forte e a tristeza se cala”. Agora; eu vou brincar de volta. Se minha brincadeira não for bem recebida, passar bem. E nem tenta brincar de novo. Ou é via de mão dupla, ou é sinal fechado. Todos temos os nossos dias e os nossos problemas. Ninguém nem desconfia dos meus, e que assim seja. Mas na minha função, sorriso é ferramenta de trabalho. Se eu não gostasse de brincadeira, o trabalho seria bem mais penoso.
O local onde todas as pessoas se encontram é o refeitório. Contígua a ele, separada por um marco sem porta, fica a copa. É onde eu trabalho. Oposta à entrada da copa há uma porta. É a entrada para a cozinha de Nilson e Cabeça. Na minha copa há duas pias, uma cafeteira de torre, como as de padaria, uma máquina de gelo que não funciona, uma bancada com uma sanduicheira pra quem quiser fazer um lanche rápido. Tudo isso fica na antepara onde está a porta de entrada para a cozinha. No final do pequeno corredor que é a copa, uma geladeira. Na antepara de entrada da copa, um armário de cozinha com alguns gêneros como latas diversas: achocolatado, leite em pó, granola, café solúvel, essas coisas – além de chás diversos, pacotes de pó de café, pipocas de micro-ondas. No chão, abaixo desse armário ficam as lixeiras.
Cada um faz sua refeição, levanta com seu prato e o leva à copa. Jogam na lixeira de resíduo orgânico o resto de comida que tenha ficado no prato, jogam fora seus copos descartáveis, guarda-napo sujo; e deixam o prato em uma das pias para que eu os lave. E assim, os mais adeptos da conversa começavam a falar:  “pô, o Seu Mário, ó bicho. A gente não vale nada mesmo.”; “Ah, você escuta sua musiquinha aí trabalhando, né? Igual o Seu Mário!”; “Seu Mário, rapaz (estalo de língua no céu da boca). Mas é foda né, o cara fumava demais.” . Aí estão, respectivamente, a segunda e a terceira semelhanças entre mim e ele. Música e tabaco. “O menino é carioca igual Seu Mário.” Quatro.  “O Mário era piranha velha. Já trabalhou de uma porrada de coisa. Até em puteiro ele já trabalhou...” . Putz... cinco. “Eu quando entro naquela lavanderia lá, só vejo ele trabalhando. É foda, né, véi?” – e por ai vai.
SEU MÁRIO MAU
Os tripulantes queriam saber como estava Seu Mário no hospital. Queriam notícias da família. Mas ninguém tinha. Ninguém sabia de nada. Foi quando Nilson recebeu uma mensagem no zap. Um cara que já tinha trabalhado tanto com Seu Mário quanto com Nilson , encontrou o hospital e foi lá visitar o velho.  Tirou uma foto ao lado dele. O cara sorria. Seu Mário de olhos pesados apenas acenava por entre os tubos ligados a ele. “Olha isso, macho. O caba trabalha a vida inteira, bancou tudo de todo mundo em casa. Mulher, filha, o diabo. Agora o caba tá lá na cama e não tem um da família lá com ele. Fulerági da porra, macho.”
Não lembro o dia exato. Mas passados os dez primeiros dias de outubro, e não antes que chegasse o vigésimo, veio a notícia. Seu Mário morreu. Como esperado, o clima pesou. Como de costume, as mulheres choraram. Morreu alguém que morava junto com todo mundo aqui. Normal. O afastamento de Seu Mário me fez ser o primeiro concursado a embarcar, e logo no navio de escala mais cobiçada. A morte de Seu Mário me trouxe a possibilidade de ficar fixo por aqui. A vida fecha muitas portas antes de abrir alguma. A morte fecha uma só. Mas pode abrir várias. Eis o segredo da vida e da morte de Seu Mário, pelo menos para mim.
Assim que eu soube da doença de Seu Mário, dei-o como morto. Não de fato, mas no navio. Mais de sessenta anos, câncer. Se sobreviver, se aposenta. Pra cá ele não volta. No armário do camarote ficavam suas roupas, pincel e creme de barbear, um jaleco branco para ocasiões mais importantes; essas coisas. Deixei tudo no lugar para não ser pretensioso. Passei o mês com a mala no chão, sempre aberta, retirando e pondo de volta o que precisava usar. Mesmo depois de sua morte.  Eu não sabia o que fazer com aquilo, e não queria perguntar aos oficiais o que fazer para que não o matasse mais uma vez em suas mentes. Não senti dor por sua morte, mas não era indiferente à dor dos outros. 
Os dias que se seguiram foram se tornando um pouco pesados, porque quando alguém entrava na copa para deixar o prato e me olhava, ali era o lugar que todo mundo esquecia seu dia de trabalho e lembrava de Seu Mário. Lançavam, então, sobre mim, o luto que tinham por ele. Não sei direito se sobre mim diretamente, ou sobre a copa. O fato é que entravam na copa, pensavam em Seu Mário, e quando olhavam – quase sempre com os olhos cheios de neblina, de horizonte- , viam a mim. Os olhares trocavam então um diálogo tão silencioso quanto pesaroso, sério e respeitoso de forma triste. Em uma palavra, os olhares conversavam sobre  morte. Vinte e duas pessoas faziam isso três vezes ao dia. Com mais o extra-rol eram trinta. Entre sessenta e noventa vezes ao dia, pessoas me olhavam como se me estivessem velando. A morte tem seus protocolos, é a vida que não tem manual. Não era confortável, mas era necessário.
O tempo foi passando, as vozes foram voltando, os olhares foram perdendo a distância. O trabalho não para. Quem está vivo come pelo menos três vezes ao dia. Eu sou um dos que responde por essas três. E aos poucos, enquanto a sacanagem ia voltando no salão, alguns iam desabafando sobre o outro lado de Seu Mário: “é aquilo, né. Quando morre, todo mundo vira santo. Mas o velho era foda, rapaz. Criava caso com todo mundo.” ; “Aquele ali nem vinha almoçar. Tinha dia que a gente nem via. Não queria nem olhar para a cara do velho. Agora que você está aqui é que ele está vindo.” ; “Ele era foda, macho. Você, terminou a janta vai logo embora. Ele ficava aqui até nove, dez, onze da noite. Vigiando quem vinha comer. Se o cara pegava uma fruta, olhava. Se pegava a segunda – poooooorrra, vai comer a fruta do navio todo? - . Eeeeera, rapaz. Regulava todo mundo.”; “A verdade é que parecia que ele tinha feito as compras do rancho, tudo do bolso dele. Um ciúme das comidas, que só a porra.” ; “O pessoal sente e tal, que ele morreu; mas a verdade é que ninguém gostava dele aí não, que ele era filha da puta, boy.” ; “Você no café da manhã sempre bate aí um nescau, uma vitamina de banana, uma abacatada, um café gelado, essas coisas. A gente vê que você faz porque quer, porque gosta. Galera pedia pra ele, ele dizia que não era empregado de ninguém não.  Carne de pescoço. Hun!” E Nilson disse “rapaz, no dia que o cara mandou a foto no hospital, ele mandou um áudio também. Seu Mário falava, mas não dava pra entender direito, né? Aí o cara traduzia lá. Que ele estava pedindo desculpa por tudo que já tinha feito comigo, que na verdade ele gostava muito de mim, de trabalhar comigo. Eu tenho pra mim que ali era ele já se despedindo, sabe? Porque era foda com ele mesmo. Tratava nós mal e puxava o saco dos oficiais.” E assim, Seu Mário foi morrendo. De vez em quando vem um matar mais um pouquinho. É a vida, não é?
A SURPRESA DESAGRADÁVEL DO MEU KINDER OVO
Quando eu era moleque apareceu o Kinder ovo. Um filete quase transparente de chocolate ao leite por fora e branco por dentro.  Delicioso. Quando apareceu, custava um real e alguma coisa, dava pra fazer uma graça. Mas a grande sacanagem do Kinder ovo era a surpresa, um brinquedo que vinha dentro. Diferentes coleções de brinquedos vagabundos que não serviam para bosta nenhuma (mas eu só sei disso agora – todas as crianças estão perdoadas) rechearam o mais desejado sonho de consumo de vários da minha geração.  “Esse é o Leoventura explorador.” “Que maneiro, agora só faltam 92 pra completar a coleção!” A gente parava em frente à caixa, com os ovinhos todos enfileirados pedindo a Deus para escolher o brinquedo que faltava, ou um que fosse legal. Eu ficava puto quando saía quebra-cabeça. Só que o negócio foi ficando caro depois de um tempo; vai ver o preço agora.
A gente vai crescendo e as coisas deixam de ter o mesmo brilho. Eu olhava crianças menores na padaria “papai, quero um Kinder ovo”; “quê? Quatro e cinquenta?” ; “Quero Kinder onnnnvo...” ; “Meu filho, toma aqui um baton qu...” “Kinder AAAAAAVO!” . Talvez o Kinder ovo tenha sido meu primeiro professor a ensinar o que é o capitalismo, tanto do ponto de vista do produtor, quanto do consumidor, quanto do público alvo.
A escala 35x35 é o Kinder ovo da empresa. Assim que disseram meu nome ainda no hotel , na época da ambientação -  “Arthur de Aquino Pontual – Lorena BR” , teve vários que já trabalhavam em outras embarcações que diziam, levantando o queixo e rebaixando as pálpebras: “É... Lorena. Só trinta e cinco dias, né? Molezinha. Tu é amigo do comandante, é? “ – Vagabundo fica puto. Mas quando o cara vem com um comentário infeliz desse, quer ficar puto, eu vou deixar mais puto ainda. “Que amigo, rapaz. Sou é família. Meu primo, aquele safado!”, sem fazer ideia de quem seja o comandante.  “Como é mesmo o nome dele? “ Aí é só inventar um nome de militar coroa e bigodudo e fica tudo resolvido: “Pô, é o Trindade, pô.” “Trindade, pode crer.” – E sai sugando pra dentro da boca o lábio inferior. Os caras que conheci durante o processo olhavam meio rindo. “É mole, Arthur?” “Vai aporrinhar o caralho, meu irmão.”
Alguns dias depois da morte de Seu Mário, fui chamado pela imediata para uma conversa. Dificilmente uma conversa entre quem manda e quem obedece é divertida pro segundo. Não sou eu que vim pra mudar isso aí.  Quem veio pra fazer isso foi o Bolsonaro (quem não te conhece que te compre, satanás).  “Arthur, eu não queria te falar o que eu tenho que te falar. Eu estou gostando muito de trabalhar com você, toda a tripulação também fala muito bem de você.” “Ué, e por que é que não queria me falar isso? Eu adorei, pô.” “Não, não é isso. É que assim que o Seu Mário se afastou, o comandante pediu que viesse pra cá um outro taifeiro que já trabalhou com ele; que ele gosta. Mas ele estava embarcado no longo curso.” “Então me mandaram pra cá pra tapar esse buraco.” “É, mais ou menos, né. O próprio comandante já disse que se arrependeu de ter chamado o outro rapaz; que gostou mais de você. Mas aí fica ruim de cancelar esse pedido com o escritório, fica chato. Então é isso, pedi pra você vir aqui pra te dizer que você não vai voltar pra cá, tudo bem?” “Nada, pô. Tudo bem, lógico. É só que eu já estava meio me sentindo em casa, e tal. E só aqui são 35, né? Mas tá valendo, ninguém tinha como prever.” Vir para cá foi o chocolate do meu Kinder ovo. Não permanecer era uma surpresa desagradável. Mas...
A COZINHA É UMA MÁFIA

-O que ela queria com você, Arthur?
-Porra, Nilson. Sacanagem. Mas vou fazer o que?
-Fala logo, macho!
-Eu não volto, não.
-Oxi, e por quê?
-Pô, assim que o Mário se afastou o comandante já pediu um cara aí, sendo que ele estava viajando e aí não pôde vir dessa vez. Mas vai poder da próxima. Um cara aí de Fortaleza. Como é que é o nome mesmo? Aluísio.
-Ó! Esse caba é meu vizinho lá no Mucuripe, eu conheço ele, rapaz.
-Ah, então vai ficar tudo bem aí com vocês mesmo, ué.
Nilson levantou o lábio inferior fazendo um bico, fez que não com a cabeça. Tirou do ombro um pano que ali repousava e encostou as costas da outra mão na cintura. Bateu com o pano no freezer horizontal que fica abaixo das vigias (janelas parafusadas de navio) da cozinha, ao mesmo tempo que dizia “esse caba não vem pra cá não, macho. Não vem porque ele não vai se adaptar. O negócio dele é ganhar dólar, é ir pra China, ficar cinco meses embarcado. Aqui ele não vai gostar. Eu vou falar com ele, você vai ver. Vou fazer a caveira desse navio aqui. Vou dizer que pro taifeiro é peso. Aqui não tem câmara, vou dizer que tem esses 40 freezeres aí pra limpar toda vez, que é muita sobremesa pra fazer, que toda hora embarca e desembarca gente, aí é aquela ruma de roupa de cama pra lavar. Pois eu duvido que ele venha! Ó macho, ele abriu um negócio lá no Mucuripe, a mulher dele gosta mesmo é que ele fique lá ganhando dólar.” Essa era a única chance de eu ficar por aqui. Se o Aluísio “desse nega”. O comandante não queria voltar atrás com a gerência, que podia parecer ficar devendo um favor, eu acho. Ou falta de poder de decisão, sei lá. Palavra de rei não volta atrás. Restava o cara não querer vir. Eu trabalho na máfia. A máfia trabalha comigo.
Aos poucos eu ia comentando com o resto da tripulação que não voltaria, explicava o motivo. O mestre, um senhor de mais de sessenta anos com uma vitalidade de quarenta ou menos dada pelos longos anos na pesca disse “não, Arthur, isso não tá certo. Ontem mesmo a gente estava todo mundo conversando de você aqui! O cara é profissional, bota o café sempre meia hora antes do horário, tudo completo. Ainda faz uma bebida gelada que Seu Mário não fazia. Com ele não tinha isso, não! E era só na hora certa. Seis e meia. É foda, é só os remo torto que se criam. O cara que trabalha não tem valor.” “Nada, mestre. Isso aí já estava decidido antes de eu vir pra cá. O negócio é que vocês gostaram. O negócio é estar na folha(de pagamento).”
TROCA DE TURMA
Eu nunca tinha trabalhado desse jeito. Estava acostumado com troca completa de tripulação. Embarca todo mundo junto, desce todo mundo junto. Aqui não. Em uma semana um grupo, na próxima outro, na terceira mais um. Eu sou do último grupo. Quando eu chego, já tem gente com duas semanas a bordo. Assim, todo mundo acaba trabalhando com quase todo mundo das duas tripulações. Você só não trabalha com quem embarca no dia que você desembarca. No meu caso, são 10 pessoas entre os 46 que compõem as duas turmas.
Quando faltam duas semanas pra eu descer, sobem o outro comandante e o outro chefe de máquinas; são a administração. Na semana seguinte, a primeira parte da segunda turma. Onze pessoas. No meu desembarque, sobem os últimos dez. A umas três semanas antes do fim do embarque, comecei a ouvir falar da outra imediata. Sem exceção, todos falavam mal. Que ela gosta de mostrar poder, que humilha os outros, que quer botar o taifeiro de empregado, que já tirou comandante daqui. Eu só ouvindo. “Comigo ela tá é fodida, que eu não volto pra cá... não sou eu que vou bater palma pra maluco dançar.” – pensava. Muitos me advertiam pra eu não ficar fazendo as coisas que ela ia me pedir, que aqui cada um faz a sua função; não tem que ficar cheirando ninguém. “Rapaz, vocês estão de bobeira comigo. Vocês sabem pra quê eu fiz esse concurso aqui, ganhando menos e trabalhando por mais tempo? Pra ter o direito de dizer não. Na privada o cara tem a obrigação de fazer uma porrada de coisa que não era pra fazer. Quantas vezes eu comprei decoração de festa de aniversário do meu bolso; todo mês, três, cinco quilos de chocolate pra fazer doce pro peão. E nego cagando na minha cabeça. Aqui? Não sou eu que tô preso com vocês, não. São vocês que tão presos aqui comigo.”
E veio ela: estranhei. Falou comigo sorrindo, perguntando por que eu não trabalharia mais no navio, se eu não havia gostado; que tinha ouvido falar bem de mim. Expliquei a situação, também cheio de sorriso, afastando as mãos do corpo com as palmas apontando para o teto, dizendo “é aquilo, né? O que há de se fazer, né? “ Aquela conversa mole, um cozinhando o outro. Antes da troca de turma, veio gente me avisar “olha, cuidado com o que você fala e com quem você fala quando ela chegar; que tem uns puxa-sacos aí. Tem um que você vai logo saber. Tem cara que fala mal dela do teu lado pra ver o que você vai dizer. Aí pronto. Logo ela já tá sabendo. Aí fode o cara.”
Sentou, tomou café. Logo veio um falar com ela. Todo duro, cheio de respeito. Ela deixou de sorrir pra falar com ele. Uma autoridade que eu não havia visto até então na marinha mercante. Me fez lembrar Wolf Larsen de Jack London. Mas havia um grande contraste entre ela e Wolf Larsen. O perfume. Um perfume doce, nojento, melado. O avesso olfativo de seu gênio seco. E usado em quantidades abissais. É costume por aqui. Dá pra saber se ela já esteve em qualquer lugar do navio durante o dia. A intensidade do perfume estima o momento da saída. Ela nunca encostou em mim, mas seu perfume estava na minha roupa. Nem a esposa mais complacente acreditaria. “O perfume dela é caríssimo!”; disseram uma vez. “Pra você ver que dinheiro está longe de comprar bom gosto.”
 Ele disse “sim, senhora” e saiu mudo. Desse diálogo, tirei três conclusões: o puxa-saco maior é esse aí; o sorriso dela cozinha a mim muito mais do que o meu a ela. Só que ela já sabe que eu não sou besta.
SÓ UMA SEMANA
É o tempo que um precisa aturar o outro. Coitado de quem passa trinta e cinco dias com ela. Devo cuidar para que ela goste de mim o mais rápido possível. Se for possível. Então tome sorriso, tome cortesia. A regra está aí, vamos jogar. Me chamou para conversar. Lá vem. “A senhora queria falar comigo?” O puxa-saco logo saiu caninamente da sala. A outra oficial que lá também estava pertence à minha turma; desembarcaria comigo. Amiga da nossa imediata, que já havia desembarcado. Levantou para sair. “Não, você pode ficar.” Ao que ela sentou novamente. “Olha, Arthur: o comandante veio falar comigo que você não está à disposição dele no salão durante as refeições. O taifeiro da nossa turma está sempre lá. Você precisa observar quando ele termina de comer, para oferecer uma fruta, uma sobremesa, um café. Quem deveria ter te falado isso é a imediata da outra turma, só que eu é quem tenho que ser a bruxa, a chata. Mas você tem que fazer isso, ou vem um e te dá uma nota ruim na sua avaliação, entendeu?”; “Sim, senhora. Entendi perfeitamente.” “Ah, e quando você tirar o café da manhã, traga a garrafa de leite quente pra cá. À tarde não precisa, mas quero essa garrafa aqui assim que você der volta no café.”; “Sim senhora, sem problemas.” E saí.
Cabeça já havia desembarcado. No lugar dele veio a Dona Jane. Nilson desembarcaria comigo. “E aí, Arthur? Era o que?”; “Ah, meu irmão... que eu tenho que ficar olhando o comandante comer pra ir lá oferecer café, que ele não tem braço nem perna. Cularguice do caralho.”; “Ná! É que o Seu Mário e o Marconi ficam ali mesmo do lado deles, em pé. Aí eles acham que todo mundo tem que fazer isso. Não tá escrito em lugar nenhum que você tem que fazer isso não, macho. Mas isso é ela, rapaz. Ela usa o nome do comandante pra tudo, mas tudo é ela que quer. Eu não te disse? Ela fica aí o dia inteiro telefonando pro refeitório, pro camarote do Marconi inventando faxina pra ele.” Marconi é Marcondes. O cara que me rende quando desembarco. Mas por aqui, ninguém conseguiu falar o nome dele como está escrito na porta do camarote até agora. “Tem erro não. Quer teatro a gente faz teatro. Uma semana só.”
Ninguém sabia. Mas quando eu respondi que havia entendido perfeitamente, não era a respeito de ser babá dos oficiais. Eu tinha entendido a situação inteira. A imediata nunca quis “falar comigo”. Queria mesmo era que a outra oficial a ouvisse falando comigo. Que ela a ouvisse falando mal do trabalho da outra, que não se bicam. E que, por fim, a oficial fosse contar tudo para a amiga, no que ela caiu feito criança. O que ela queria era atrapalhar a folga da outra dizendo que era mais competente. De quebra ganharia uma garrafa de leite por dia. Eu ouvia e fazia cara de oração sem sujeito.
Quando foi no outro dia, assim que tirei o café da manhã, levei o leite dela.  Obrigado de nada. E eu preparando a mente para o almoço, quando eu deveria ficar igual a um dois de paus vendo os brancos comerem , como em um Debret. Não deu pra mim. Fiquei na porta da copa, olhando de longe. O comandante comia junto com seu chefe de máquinas. Quando terminou, fui lá buscar o prato. “E aí, comando? Café?”; “Ih, mermão. Esquenta comigo não!” Pronto. Só faço quando ela estiver perto. Terminou o almoço, passei para buscar de volta a garrafa de leite e fui dormir. O almoço termina ao meio dia e meia. Uma hora eu já programo estar deitado e de banho tomado. Vou até depois das três, três e tal – quase quatro. Eu já dormindo o sono da tarde, fundamental pra aturar o embarque inteiro. A gente começa a trabalhar antes das cinco da manhã. A janta termina às seis e meia da noite. Todo mundo trabalha oito horas por dia, menos a cozinha. De sábado ao meio dia até a segunda de manhã, ninguém trabalha; só a cozinha. Bate na minha cara, mas não mexa com o meu sono.
Em trinta dias, o telefone do meu camarote não havia nem dado sinal de vida. Estava lá descansando. Nesse dia ele tocou. Acordei, olhei no celular. “Porra, duas horas da tarde? No meio do meu descanso? É bom que alguém tenha morrido.” “- Alô.”; “Arthur, você levou meu leite embora? Traz meu leite aqui, faz favor.”. Dei uma longa pausa para respirar. “Já estou chegando aí.” Fui ao refeitório, esquentei o diabo do leite, levei lá. Ela me olhou da cabeça aos pés. Isso porque eu estava de bermuda e chinelo, e ela estranhou. Ainda estava com olhos de sono, e fiz questão de arrepiar os cabelos pra entrar com cara de maluco. “Você entendeu errado, é?”; “É a única explicação que eu encontrei. Era pra ter deixado o dia inteiro? Quando a senhora disse que na parte da tarde não precisava, entendi que era para levar embora. A senhora me perdoe.”; “Não, menino. É pra deixar o dia inteiro.”; “Tudo bem. Eu posso voltar ao meu descanso ou a senhora ainda quer mais alguma coisa?” Ela sentiu o peso, disse “não, pode ir.” Como ela sabia que eu não voltaria, sabia também que o poder dela sobre mim era menor. Sabia inclusive que eu sabia que a minha avaliação havia sido feita pelo comandante que já desembarcara. O mesmo que se arrependeu de ter chamado o Aluísio. Dali ao final do embarque os sorrisos diminuíram. Os pedidos, também.

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