domingo, 4 de novembro de 2018

Diário de bordo 27/10/2018 A mais ou menos 30 km da orla de Paracuru - Ceará


Esse é meu primeiro diário de bordo que escrevo enquanto parte de uma tripulação da Transpetro. Faz tempo desde o último, eu sei. Bastante coisa aconteceu desde então. Senta, que lá vem história.

Participei do concurso público aberto pela Transpetro no final do ano passado. Como as coisas mudam... no boom do offshore, niguém queria vir pra cá. Quando eu entrei para a marinha mercante, ninguém queria vir pra cá.

No boom do offshore (governo Lulla 1 e o retorno) ninguém queria vir pra cá porque as empresas privadas; sobretudo as gringas, tinham a obrigação de ter pelo menos metade da tripulação formada por brasileiros. O cara escolhia a empresa, escolhia o salário. Pra você ver como a relação de trabalho pode sim ser boa pros dois lados. Pra melhorar, tinha pouca mão-de-obra qualificada. Pra melhorar mais ainda, dentro do mercado de  mão-de-obra já qualificada, um em cem sabiam falar o verbo to be. Prato cheio, né? Foi nessa que eu entrei.

O pensamento era: "sempre ralei o cu nas ostras pra ganhar mal... que que tem ralar o cu nas ostras pra ganhar bem, né? Vamo nessa." E ninguém queria vir pra cá porque o regime era 90 dias embarcados para 45 dias em casa. Ganhando menos que nas gringas, e que nas outras privadas nacionais; nas quais se trabalha 28x28. Não era mesmo uma escolha difícil a se fazer, certo?
Só que aí veio Dilma 1, já tomando pressão. Dilma 2 e a vingança de Drácula. Todo mundo já sabe essa história. Ao longo desses anos, o mercado de mão-de-obra saturou de gente. Todo mundo quer morder um pedaço e eu também.


O PERCURSO

Eu estava trabalhando na Oceanpact no período do concurso. No dia da prova escrita eu estaria desembarcado, e foi só por isso que me inscrevi. Não me atreveria a pedir pra ficar em casa para fazer a prova. A gente nunca sabe o que passa na cabeça do empregador. "Ah, quer sair? Então sai." Vai saber, né? A possibilidade tá sempre lá. E meus gatos estão sempre com fome. Então fiz porque dava pra fazer.

No dia da prova, na Veiga de Almeida ali perto do Maracanã, aquela porrada de gente cheia de calça jeans, de camisa social, de barba feita. Eu de bermuda, chinelo, óculos escuros e a barba que minha folga de um mês permite como exercício de liberdade. Só eu estava de bermuda, e todo mundo olhava com ar de reprovação, hahaha. Encontrei uma pessoa que já havia trabalhado comigo. "Só você de bermuda, né, Arthur?" "Talvez eu seja o único que saiba que não estou em um quartel, e que, além disso, não estou embarcando hoje." Vi vários cenhos franzindo nessa hora. Ri de novo e desejei boa prova a ela.

Eu fiz a prova, e sabia que tinha ido muito bem nela. A certeza quase completa de ter gabaritado português (era uma prova de primeiro grau) e de ter acertado a maioria das questões de conhecimento técnico-marítimo me deixaram sempre tranquilo quanto à minha classificação. O problema era : a classificação seria publicada e a prova prática aplicada (uma corrida de 1.600 metros em 12 minutos, e uma natação de 25 metros só pra ter certeza que merda não afunda) dentro do período do meu próximo embarque.

E aí, o que é que eu faço? Se embarco e estou bem classificado (14 vagas, mais de 1300 inscritos na minha função) não tem jeito de eu desembarcar pra fazer o teste físico. Se peço pra não embarcar por causa do concurso e ainda por cima não fico classificado, corro o risco de perder minha vaga no barco que estou (no mínimo) ou o emprego, mesmo. E aí, negão, nem um nem outro. Como fala pros gatos que agora vai ter que fazer regime? Gato é bicho tinhoso. Passa fome , mas não come o que não quer. Aí destrói a casa toda. Um dos meus gatos já quebrou uma pia de louça do banheiro. E é o mais leve de todos. Como? Pergunte a ele. Cheguei em casa e ele estava sentado no vaso, olhando pra minha cara com a cara de cansaço que só os gatos sabem fazer. E a pia partida em três. A crise financeira em uma casa com gatos sempre vem acompanhada de prejuízo.

No dia anterior ao embarque, há a reunião de pré-embarque, na sede da empresa, lá na Glória. "E aí, como foi a prova, e tal?" "Porra, foi excelente. É nessa dúvida que eu tô. O teste físico vai ser no meio do embarque. Vou ficar muito puto se tiver passado, cara." "Rapaz, tu é doido? O homem tá aí, fala com ele. Tu sabe que o cara é ser humano pra cacete, vai deixar você fazer, pô." "É, mas a chance dele me dar uma descascada aqui na frente de geral existe, né? Ainda por cima me cago na empresa, sente o drama." "Mermão, vem ele ali, fala logo com ele, rapá. Não deixa isso passar não."
Era o Antunes, o subchefe de máquinas que conversava comigo. Amizade boa, aquela. Essa eu levo, mesmo estando longe. Quanta idéia boa trocada a bordo. Uma das poucas pessoas com quem se pode conversar sobre tudo no meio da água. Aí fui falar com o homem, né? "Patrão, seguinte: tem o concurso aí da Transpetro, né? "Tu fez, é? "Porra, então, fiz e fui bem pra cacete." "Ficou em que colocação?" "Então, não sei, só sei que foi assim. Sei que fui muito bem, mas o resultado só sai no meio do embarque. E tem o teste físico, também no mesmo período." "E aí?" "E aí que eu queria fazer, né? Eu não ia te pedir não; que eu tava aqui me peidando de você me dar uma mijada. Mas os cara tudo aí tão dizendo que era pra falar contigo que tu ia entender. Assim, não quero trazer problema pra você..." "Porra, problema tu já trouxe. Tá falando comigo no dia do pré-embarque, né? Mas rapaz, aqui a gente quer é que vocês melhorem sempre. E eu gosto de você, do teu trabalho. Fala com o gerente aí, com seu comandante. E arruma alguém pra ficar no teu lugar nesse embarque. Conseguindo isso, pode ir pra casa."

Esse cara é foda mesmo. Luiz Izidório, um dos donos da empresa. Fala contigo desse jeito, sem pompa, olhando reto. Muito peão quer te olhar de cima, mas ali o dono da empresa fala com você; que tem que catar tudo que cai da parte de cima do organograma da mesma maneira que fala com o dono de outra empresa, com um cliente, com qualquer outra pessoa do planeta. Eu nunca havia tido isso, e sei que nunca terei de novo. Meu máximo respeito a ele e ao Alessandro Monte, gerente da frota, mesmo modus vivendi.

Aí pronto. O cozinheiro da outra turma tava duro, precisando de um extra. Dobrou pra mim. Fez a viagem dele como cozinheiro, ficou como taifeiro na minha viagem, pra voltar a cozinheiro nos 28 dias subsequentes. Três meses embarcado. Olha quanta coisa eu consegui nessa conversa.
"Patrão, não embarco dessa vez, mas não to pedindo o mês não, tá? Se tiver algum barco aí pela baía de Guanabara precisando de gente, liga lá. Só preciso do dia do teste físico. Os outros são da empresa. Desembarco, faço a prova e vida que segue. Depois a gente vê no que deu." E assim foi.

Quando foi uns quatro dias depois embarquei no Loreto, atracado, pra cumprir a tripulação mínima. E foi lá que eu soube do resultado da classificação. Classificado e, como previa, muito bem classificado.

Me desembarcaram cinco dias antes do teste físico. A natação nunca assustou, mas a corrida sempre me preocupou. Sou gordo, detesto correr, tenho pé chato. Fumo. Tenho quatro dias pra me preparar. Que merda. Depois de tudo, perder no teste físico ia ser um vexame da porra.
O vizinho de porta da minha mãe é educador físico dos bons. Ricardo Pinho. Trabalha na academia que por graça divina eu nado. Fui lá falar com ele. A sucessão de eventos a partir de agora é um aviso pra quem tenha ficado puto de hoje me ver concursado na maior empresa do Brasil, ir reclamar com Deus em suas orações, porque não foi outro.

"Então, Ricardo. Tenho um teste de aptidão física aí. Transpetro, 1600 metros em 12 minutos. Fiquei bem classificado, perder esse teste aí vai ficar feião na foto. Mas eu não sei correr não, cara." "Então, muito provavelmente a pista na qual você vai correr é uma de atletismo, de 400 metros." "É lá no CEFAN." "Entáo é essa mesma. Quando é?" "Porra, em 4 dias." "E você tá se preparando há quanto tempo?" "O tempo dessa conversa aqui, hahahah" "Putz, vamo lá. Na UFF tem uma pista igual. O tipo de chão não é o mesmo, mas o formato é. Você vai correr lá todo dia, no horário da tua prova. Justamente pra não ter novidade. No dia da prova, você vai fazer exatamente a mesma coisa e pronto. Calma que vai dar certo. Toma cafeína antes de correr, anti-inflamatório depois, pra não chegar lá com dor nenhuma. O ideal é você manter sempre o mesmo ritmo. Tem gente que começa devagar e vai aumentando, tem gente que começa correndo muito e depois diminui, Eu prefiro que você ache o ritmo que dê pra fazer a prova toda com calma. Não é corrida, voce não tem que chegar antes que ninguém. Simplesmente tem que fazer no tempo. Não é difícil, mas não é facil. Vai lá e acha o ritmo."

Subi pra dar uma nadada, eram oito e pouco. Eu não conhecia a professora que estava lá, pois sempre nado na parte da noite. Prefiro nadar no frio. Expliquei a prova a ela. Ela me deu dicas excelentes, falou até do aspecto citológico do exercício que eu faria orientado ao meu peso e meu pouco preparo físico para corrida. Aí no final , disse: "por muitos anos eu trabalhei com a Fernanda Keller, a triatleta. Fui a técnica dela. Mas corrida mesmo, quem sabe é a professora que vai estar aqui amanhã. Tem uma corrida que é disputada nos andes. Dura cinco dias. Ela e o marido ja ganharam três vezes." Caralho! Eu tava tendo uma das melhores orientações do planeta terra. E a mulher teve a humildade de dizer que não sabia legal de corrida. Agora eu tinha que passar nesse bagulho. Bora pra UFF. Cheguei lá, uma porrada de gente de uniforme de corrida, e tal. "Vocês são atletas, irmão?" "Sí! Estamos treinando para una maratona." Contei lá minha história triste pro cara , ele me mandou falar com um outro ali. Falei com esse cara, ele disse que pra essa prova, bastava eu correr no trote, fazer o fácil, e ver em quanto tempo eu terminava a distância que eu tinha que correr. Depois, era ajeitar o ritmo. Ou dar um gás no final. Fiz o que ele disse, e pra minha surpresa, completei em 10 minutos e meio. Sobrou tempo! Fui lá agradecer ao cara. Marcinho, eu acho. Também um dos maiores profissionais de maratona do país, segundo ele. Conversamos uns 5 minutos e ele contou um pouco da história dele no esporte, enquanto eu engolia de volta os pedaços do pulmão que insistiam em querer cair pela boca. Voltei pra casa extremamente agradecido por ter encontrado essas figuras todas. De ter a plena certeza que dentre todos os candidatos para o concurso, nenhum teve melhor orientação que eu, e isso me dava extrema confiança e tranquilidade . Que o teste físico já não era problema.

Sábado, 19 de maio, dia do teste. Tudo conforme o previsto. Pista igual, sol igual, vento igual. Dez minutos e meio. Me chame de Bolt. Peguei um daqueles copinhos de água mineral (eles davam lá, igual em corrida mesmo), abri e joguei na cara, pra dar uma de atleta, hahahaha. Eu tinha a minha água pra beber, mas sem esse copo de água mineral na cara, a festa não teria sido completa, saca? Os fiscais te filmam na chegada pra atestar que você completou, e eu passei na chegada com cara de mau, olhando de soslaio , pálpebra cerrada, mó estilo. Eu parecia cruzar a chegada em câmera lenta enquanto tocava "carruagen de fogo". Talvez eu estivesse mesmo em câmera lenta, não sei.

Um cara que também já tinha terminado disse "essa corrida aqui é só pra tirar os velhos, é tranquilão." "Pooooorra, lógico, né não?" E pra todos os lugares que eu olhava, letreiros luminosos piscavam "obrigado, meu Deus, obrigado, meu Deus, obrigado meu Deus." Quem passou na corrida foi fazer a natação. E por incrível que pareça, teve gente perdendo na natação. O cara quer trabalhar no mar, mas desespera na piscina. Vai vendo.


O PREÇO

Passou o dia, passou o domingo. Durante o dia inteiro eu senti um desconforto nas pernas. "Deve ser porque parei de tomar o anti-inflamatório. Azar... já passou a prova; a minha consciência não doendo, pode doer o que quiser...
Na segunda-feira a dor no joelho tinha ficado insuportável. Hospital. Raio X. Ortopedista: "rapaz, você teve uma lesão no planalto medial da tíbia. Aliás, DAS tíbias. As duas. Você deu duas sortes. Uma, que foi logo nas duas pernas. Se fosse em uma só, sairia daqui de muleta. Outra, que sua lesão é extremamente discreta. Se fosse um pouquinho maior, sairia na cadeira de rodas." Vai correr, gordo, pra ver. " - pensei. Agenda aqui uma ressonância, que a gente tem uma imagem melhor da tua lesão. Você trabalha de quê? Ihhhh, embarcado? Nem pensar. Só o movimento no navio já impede isso aí de curar. O tratamento dessa lesão aí é entre 45 e 60 dias de repouso absoluto. Já toma aqui 14, mas trata de voltar pra pegar o resto, tá? Tem que ficar quieto. Se for trabalhar ou fazer qualquer coisa, isso aí não calcifica direito e, não queira ter esse tipo de lesão aí mal curada, hein. Eu sei que isso aí tá doendo pra cacete. Vai descansar."

Eu não andava direito mesmo, não. Sabe quando você tá atravessando a rua e tem que apertar o passo porque tem um carro vindo? Eu morria. Tome gelo e remédio pra dor. No total, fui a 3 ortopedistas. Os três especializados em joelho. Os três disseram exatamente a mesma coisa. Total de 60 dias encostado pelo INSS... E a cara de pau e de bunda ao mesmo tempo de ir na empresa levar o atestado e pedir pra darem entrada na licença depois dos caras terem me feito o maior favor do mundo em me deixarem fazer a prova? Conjuntivite, dengue, apendicite, tudo isso dá pra ver que o cara sofreu, né? Agora, você chegar lá com a perna enfaixada não quer dizer nada pro RH, né? "Ah, esse maluco só pode estar de sacanagem, né? Fez lá, passou, agora vem com papo de tô dodói? Morde aqui pra ver se sai coca-cola, rapaz..." Mas não. Foram extremamente atenciosos comigo, se recusaram a ver os exames que levei, e disseram que o médico nunca inventaria uma coisa dessas, e uma licença desse tamanho. Fiquei até sem jeito.

Dia 26 de Junho. Dia da homologação do concurso. Dia do fim da licença. Véspera do meu aniversário. Quatro da tarde. Toca o telefone.
"Arthur, é a Thaisa, embarcadora. Sua licença acabou, né? O Luis Izidório me mandou te ligar pra você embarcar ainda hoje, e ficar pelo menos 20 dias em alto mar." "Putz, Thaisa. O concurso homologou hoje. A partir de agora, podem chamar a qualquer momento. Podem chamar só ano que vem, mas também podem chamar amanhã." "Tá, mas o dono da empresa falou que é pra você embarcar. O que é que eu digo pra ele?" Passaram uns cinco segundos muito demorados, ela me ouviu ofegar do outro lado da linha. Era aquela expiração que precede uma tomada de decisão e, por isso se faz necessário esvaziar os pulmões pra que a mente busque novos ares. Toda frase posterior a essa expiração começa com "bom: então...". "Bom, então diga a ele que eu estou pedindo demissão." Novo silêncio. Nenhum dos dois respirou diferente. Esse silêncio é o da surpresa. Pra ela. Pra mim era o silêncio de quem, no poker, põe na mesa um four de ases e tem a certeza que o oponente não tem um royal straight flush pra falar mais alto. É o silêncio de quem pagou pra ver. "Mas diz a ele que eu vou falar direto com ele, tá? Ele me ajudou muito, e ficaria feio pra mim pedir pra que vocês me demitissem."


A SAGA

Agora eu estava no limbo. Depois de ter conseguido ir bem nas etapas do concurso, depois de ter conseguido deixar de embarcar para tal, depois de ter fraturado as duas pernas e ter ficado dois meses na cama, depois de ter pedido demissão... eu não tinha idéia de quando seria chamado. O dinheiro que eu tinha na mão, até quando daria? Pedi demissão, saí duro. Só tinha basicamente o que tinha antes disso tudo acontecer, e mais uma pratinha que você pega na recisão. Eu paguei o aviso prévio à empresa, então não foi essa maravilha pedir pra sair. Mas quem vai dar um pulo pra frente sempre tem que dar um passo atrás.

Ainda bem que pedi demissão e não embarquei. Teria ficado ao menos 15 dias em mar aberto. Teria perdido a convocação. Na semana seguinte à minha demissão, chegou o telegrama. "Parabéns, você foi aprovado parará-pão-duro. Venha dia tal trazer seus documentos." A mente deu uma tranquilizada. O dinheiro que eu tinha não deixaria nenhuma conta sem ser defendida.

Mais ou menos nessa época, apareceu um cara no facebook se apresentando, que tinha feito o concurso, e tal; e queria informações. Perguntou de onde eu era, eu disse, e a surpresa era que ele também era de Niterói; morava no sul, mas era de Niterói. Todos os convocados do Brasil deveriam se apresentar no Rio, então esse cara estava também vindo pra cá. Fomos trocando idéia até perto do dia de ir à sede da Petrobrás e, eu acabei oferecendo carona a ele, já que ele estaria em Niterói. E assim foi.

Deixei o carro num estacionamento ali do lado da sede do bola preta, esquina com a Lavradio, perto da 5ª DP na Gomes Freire. Entramos no prédio antes das oito da manhã e demos o nome às meninas da recepção do evento. Meu nome elas procuraram e foram achar lá na última página. O dele, nem lá. Chamaram uma pessoa da organização, que mandou que ele subisse assim que viu o telegrama de convocação. Em alguns minutos, um auditório gigantesco, completamente lotado; pessoas em pé. Um vídeo de briefing para algum caso de emergência, uma bate-papo rápido de um e de outro funcionário do RH. Pum, deu meio dia. "Os nomes que forem chamados, permaneçam para entregar os documentos. Os que não ouvirem seu nome agora, podem almoçar; retornem em uma hora." E fomos almoçar no saudoso e eterno Brasil Legal, na Sete de Setembro. Paraíso dos duros que gostam de comida bem temperada. Levei uns 5 comigo, todos voltaram felizes de conhecer o restaurante.

Retornamos pro auditório, ouvimos centenas de nomes que não eram os nossos. Quando o gerente do RH passou por mim eu perguntei se seríamos chamados pela ordem da mesma lista que estava na entrada do prédio, no que ele respondeu que sim. Pensei "puta quiupariu". "Tem esse cidadão aqui que veio comigo, o nome não tá na lista. Como fica?" "Fica por último..." , disse com o sorriso de quem não vai se foder sozinho num dia estressante de trabalho. Eu teria feito exatamente a mesma coisa. Olhei pro caroneiro e disse: "muito obrigado, corno. Tu vai me fazer ficar sentado aqui até Jesus voltar." Saímos de lá mais ou menos nove e vinte da noite. E tínhamos que ir à sede da Transpetro, lá na Rio Branco, antes da Presidente Vargas, pra fazer o exame toxicológico, eliminatório e sem direito a recurso. Já havíamos fechado a sede da Petrobrás, agora fecharíamos a da Transpetro. Pra encurtar, cheguei em casa depois das onze da noite, tendo saído pouco depois das cinco da manhã.

No dia seguinte começariam os exames admissionais. Meu primerio exame foi marcado para uma semana depois, já que era gente demais pra qualquer clínica na cidade. Agora minha cabeça se debruçava sobre uma questão que eu não podia resolver. Quem me conhece sabe que eu fico doente quando uma questão depende de algo que foge a meu alcance. Tenho lordose e escoliose. E se depois de ter quebrado as duas pernas eu for considerado inapto por um exame de imagem? Sacanagem, né? O edital dizia que em caso de inaptidão, a gente tinha 3 dias para mover recurso. Caso negado, aí entra advogado no circuito. Deixa eu reunir minhas provas aqui. Na academia, pedi um ofício dizendo que pratico yoga e natação para fins terapêuticos. Pronto. O Ricardo que me orientou na corrida disse que isso que eu tinha não era nada, que ninguém no mundo poderia me atribuir inaptidão por isso. Ok, mas não basta pra quem tá esperando o veredito. Voltei aos 3 ortopedistas, disseram o mesmo. "Você já não trabalha com isso há um tempo considerável? Então pronto." "É, né, se posso trabalhar como terceirizado, porque não como efetivo?" Só resta esperar.

Na dúvida, fiz todos os exames de coluna por conta própria, aproveitei que o plano de saúde da Oceanpact ainda estava ativo. Fui também à dentista fazer uma limpeza e um checkup pra ir bonitão, que dentista detesta fumante. Enquanto polia os dentes, sem querer o motor pegou na gengiva, lado direito, lá depois do ciso. No dia seguinte acordei com dor. Mais um dia depois e aquilo ficou inchado, enorme, uma dor miserável que latejava. Cutuquei com o cotonete. Estourou. Sangue, pus, fedor. Merda. Voltei lá e mostrei. O exame do dentista seria no final da semana. Ela me mandou tomar amoxicilina. Com dos dias de tratamento, meu corpo estava todo vermelho, antebraços e interior das coxas coçando feito pó-de-mico. A bula disse "reação comum". Eu que nunca havia tido reação a remédio, pra você ver. Volta no dentista. "Olha como eu fiquei. Troca isso aí." Cefalexina. Vermelho. Coceira. Faltavam três dias pra acabar o tratamento, mas a boca já estava bonita. "O caralho que eu vou tomar essa porra de novo." E joguei lá na caixa de remédios, esperando ele vencer como já venceram quase todos os outros.

E começaram os exames. Pressão, altura, equilíbrio, vista (a tia do exame de vista era meio doidona. Incenso no consultório, foto de gato. Gostou de mim e me deu um colírio de presente. Quando saí de lá, vi que também estava vencido. Mais um pra caixa.), capacidade respiratória (que eu achei que poderia dar problema, mas deu 100%), fezes, urina, sangue, raio-x, ressonância, teste ergométrico, entrevista psiquiátrica, entrevista psicológica, teste psicotécnico - o mesmo do Detran, teste de Zulliger (aquele dos três borrões de tinta). Esse eu achei sensacional. Eram três figuras. Uma toda preta, que parecia um inseto, uma preta com detalhe vermelho, que parecia um pierrô: a última figura era a única colorida. Você escrevia o que estivesse vendo e a menina passava lendo pra ver se você estava seguindo certinho as regras do teste. Eu escrevi: "nessa figura, vejo duas vacas em um campo, cercadas por uma floresta ao pôr-do-sol. As vacas estão deitadas, já que estão grávidas e prestes a parir. Porém, aparentemente estão grávidas de macacos." Quando a menina leu isso, sua boca permaneceu na mesma posição. Suas sobrancelhas permaneceram na mesma posição. Suas mãos, seu tronco, sua coluna. Tudo igual. Mas as narinas dela dilataram. Era essa a gargalhada que seu profissionalismo permitia. Ela acha que eu não vi. Mas eu sorria pra ela com a cabeça fazendo que sim.

Cheguei em casa e fui procurar informações sobre o teste e saber se eu era mesmo doido. Para minha feliz surpresa, dizia lá. "Nessa figura colorida, quanto mais coisas diferentes o candidato escrever, maior será sua inteligência, capacidade de abstração e criatividade." Teria ela me achado um gênio? Mas eu duvido é muito, ahahahahah.

Foi muito exame diferente, não consegui lembrar de todos. O povo disse que só de exame, a empresa havia gasto 12 mil reais com cada um. Mais de 300 pessoas fizeram exames. Intervalo para aguardar os resultados dos exames. Momentos de tensão na arquibancada. Que rufem os tambores. Uma semana. Duas semanas. Alguns foram chamados para refazer os exames psicológicos. Metade dos marítimos são doidos. A outra metade jura que não é. Liguei pra lá perguntando sobre os resultados, sobre como saberíamos se estávamos ou não aprovados. Meu dinheiro acabando. Disseram que tinha que esperar, não tinha prazo. Mas que ninguém ia receber telegrama dizendo que estava apto. Quem recebesse alguma coisa, seria o informativo de inaptidão. Que só depois de todos os resultados de todo mundo (inclusive dos que refizeram os exames de atestado de maluco), seria enviada a convocação para a efetivação. E eu torcendo pra não receber nada. Mais uma semana, mais outra, talvez a terceira, não sei. Telegrama. Que seja bom, hein, porra. "EEEEEE! Você passou, miserável. Vem dia tal com o resto dos documentos para sua efetivação. Venha preparado para embarcar, principalmente se você mora no Rio. Quem não for do Rio fica no hotel. Vem com dinheiro, que não tem almoço grátis nesse mundo."

E fui. Carreguei comigo o cara que me trouxe o azar do dia da primeira convocação. Um hotel na Lapa, perto da André Cavalcanti, onde morei por uns cinco anos. Ali eu tava em casa. Chegando lá, senta pra ser chamado. Mais uma vez, fim da fila. Cada dia eu gostava menos desse cara. Mas agora estávamos sendo chamados por cargo. Não era culpa dele.

O cara que fez minha admissão perguntava de cá, de lá. Abriu minha carteira de trabalho, viu que eu já tinha trabalhado até de Mickey Mouse no trenzinho estilo carreta furacão. Quis saber como eu tinha ido parar ali, eu disse que eu fazia visto pra gringo e fui conhecendo o mercado, e tal. Ele disse que já tinha trabalhado com a mesma coisa, contou a trajetória dele. Quando eu falei os nomes das empresas desse ramo onde eu já havia trabalhado, ele disse : "sério que você ja trabalhou lá? Eu trabalhei com beltrano, cicrano, Jailton..." "Ah, pô, eu também trabalhei com Jailton. É um que fala hoze, sacanazi, ahahahaha" Ouvi a galera que tava esperando ser chamada cochichando atrás, meio puta que a gente tava batendo papo. Olhei pra trás, sorri "ah, vocês tão puto, seus filha das puta? Então agora que vocês vão mofar aí, ahahahhahhahaha" Aí meti a mão no celular, mostrei foto com Zaílto, falei quem já tinha morrido, quem tinha feito redução de estômago, quem tinha comido quem no banheiro da empresa em pleno expediente e todo mundo fingia que não sabia. Cada vez eu ria mais alto pra nego ficar mais puto. Ele não percebia, mas rimos até só nossas vozes serem perceptíveis na pequena sala usada para a admissão. Assim é o Rio de Janeiro e a carioquice. Nunca te vi, mas já te considero pra cacete. Foi o único aperto de mão verdadeiro em todo o processo. Me deu os parabéns, agradeci dizendo "deixa eu ir embora que hoje é um dos dias do ano em que você trabalha, hahaha".

Desse dia prá lá, ficamos uma semana em casa. A integração seria na semana seguinte, quando conheceríamos o funcionamento da empresa, sua organização, direitos e deveres, benefícios, presidente, diretor, gerente, cachorro, papagaio e periquito.

Segunda-feira da integração. Dei carona ao cara todos os dias. Mas aí a gente já não levou mala e cuia. Se era integração, palestras, e tal; ninguém embarcaria. Programação de oito às cinco até sexta. Muita gente havia sido eliminada na admissão por não ter todos os documentos exigidos. Por exemplo, de mais ou menos 70 eletricistas convocados, menos de 10 admitidos. A maioria não tinha a CIR (carteira de inscrição e registro), o documento mais importante do integrante da Marinha Mercante, onde constam seus dados na Marinha, todos os cursos que você tem, e todo o histórico dos seus embarques. Muita gente que fez o concurso não tinha. Com isso, o número de contratados foi abaixo da meta da primeira convocação. Melhor para quem estava na lista de espera. A segunda chamada já era certeza. De modo que éramos 256 efetivados. Dentro do plano divino, depois de todos os eventos até aqui relatados, tudo havia dado certo. Até meu dinheiro tinha dado conta.

Depois do dia da admissão, fui levar minha mãe para um exame de rotina no hospital. Vamos sempre meu irmão, ela e eu. Eu os deixo na porta do hospital, estaciono e volto andando. Nesse dia, quando eles saltaram do carro, reparei pelo retrovisor que ficaram muito tempo parados, e sabia que minha mãe havia ficado tonta. Ela foi internada já nessa manhã. Ficou uns quatro ou cinco dias internada, eu e meu irmão dormindo em dias alternados numa cadeira que é castigo pra corno. Mas a infinita doçura do sorriso dela sempre fez despertar o que há de melhor até no ser humano mais duro e embrutecido que cruze seu caminho. E graças a Deus ela voltou pra casa ainda dentro dos dias úteis dessa mesma semana.

Toda a felicidade que pode existir nesse mundo de miséria cabe em pequenos momentos, pequenas situações, pequenos silêncios, no sorriso da minha mãe (só quem conhece tem o privilégio) e na frase "a senhora está de alta". Mas a felicidade completa não é deste mundo. Na sexta-feira que antecedia minha efetivação, recebi um outro telegrama. Dessa vez, da UFRJ. "Vem aqui que tem um processo de jubilamento contra você. Você já não tem matéria nenhuma pra fazer, porra. Entrega logo tua monografia ou a gente vai dar um bico na sua bunda.". Puta merda, é tanto troço... Talvez por isso eu tenha demorado tanto na admissão. Talvez por isso eu tenha sacaneado todo mundo que estava esperando para assinar lá sua carteira de trabalho, depois de tantas etapas vencidas. A minha cota de felicidade naquele dia era limitada. Saindo dali eu iria ao largo de São Francisco pra me retratar perante a inquisição. Haviam me mandado redigir um documento explicando o porquê de não haver cumprido o plano de estudos prometido. Ia ser uma merda; mas ainda bem que minha defesa seria feita por mim, e por escrito. Dentro da minha defesa falada, eu deveria entregar tudo em dezembro. Por escrito, ganhei até a metade do ano que vem. Jucá, muito obrigado. Posso te considerar amigo. Esse diário de bordo é dedicado a você. Tomara que você tenha chegado até aqui. Neste diário coube o que não podia ter entrado no documento que redigi à Universidade.

Palestra atrás de palestra, a empresa é assim, esses são os canais de atendimento, essa é a política da empresa, o plano de saúde funciona assim, o salário é pago dessa forma, a plataforma de cursos é essa, temos esse plano de previdência, esses são os riscos envolvidos na atividade de vocês, temos essa política de complience, vamos fazer um overview a respeito do plano de metas até o ano tal, piriri,pororó. Todas as palestras foram de extrema importância. Todas elas. A robustez da empresa capaz de guiar a economia do país impressionou a todos. Sobre o conteúdo das palestras e seus personagens principais eu não posso discorrer; fere o complience. Estou em período de experiência (ahhhh moleeeeque), é CLT. Mas foi tanta informação que eu fui mais um que ficou zureta pensando "tá, mas e agora, como faz pra entender tudo isso?".

Na quinta-feira saíram os nomes das embarcações pra qual cada um iria. A maioria ficaria em casa por um bom tempo, até chegar o dia da troca de turmas previstas para cada navio. Lembrando que há ainda navios na escala 90x45. Esse concurso veio para implantar o 60x60. Fechando a discussão aberta nos primeiros parágrafos desse diário, esse é o motivo da Transpetro ter se transformado em uma empresa extremamente atrativa nos dias de hoje. O mercado está em crise, e no mesmo momento ela oferece relativa estabilidade, agora com uma escala de um dia descansado para cada dia trabalhado, fora outros benefícios que nenhuma empresa privada dará.

Eu já estou quase desembarcando e tem muita gente que ainda está em casa. Eu que tinha sido praticamente o último em todas as etapas do processo, logo recebi um e mail. "Aí, tá feliz? Pois é. Você embarca amanhã, sexta-feira, em Fortaleza." Não deu nem tempo de terminar de assistir à última palestra. Liguei para a embarcadora dizendo quem eu era. Ela me disse que tinha mais um cara que ia embarcar junto comigo, também estava no meio dos outros 255 no hotel. Encontrei o cara, disse que meu pai era taxista e levaria a gente no aeroporto. Ele disse que tava de bicicleta do Itaú, que iria com ela pro hotel, e de lá nos encontrava. A embarcadora disse que deveríamos ir para a praça XV. De lá pegaríamos uma lancha para ir a bordo de um outro navio, e lá pegaríamos macacão, bota, capacete, o EPI todo. E fomos. Ele de bicicleta, eu no taxi.

Sexta-feira. Hora do rush. Centro do Rio. Vôo marcado para oito e quinze. Galeão. Sei não, hein. No meio da Rio Branco, ali quase na Ouvidor, liga o cara: "aí Arthur, ela disse que não é mais pra ir pra praça XV não. É pra ir para a sede da Transpetro, vamos pegar o EPI lá." Putz, vamos ter que dar outra volta ao mundo pra chegar lá. Passamos pertinho, agora toma mais quase uma hora pra voltar pro mesmo lugar. Remarca o vôo. Nove e quarenta e cinco.

Cheguei no prédio, o cara já estava lá. Meu pai ficou com o carro parado na Visconde de Inhaúma, na quadra da entrada do túnel Marcelo Alencar, ali perto do quartel da Marinha. Perto de onde trabalhei com Jailton Zaílto. Malandramente abriu o capô e ligou o alerta, "ah, vai lá. Qualquer coisa tô esperando o mecânico." Pegamos os EPI's, beijo e abraço, descemos. O hotel onde ele estava era do outro lado da rua, esquina Rio Branco X Visconde de Inhaúma. "Arthur, vou lá fazer o checkout, mas vou deixar umas coisas guardadas no hotel. Se eu demorar, é porque tem muita gente fazendo checkout também, e o cara lá é meio mole, acho que ele vai me atrasar." E atravessou a rua. Olha aqui minha certidão de nascimento dizendo que eu nasci ontem... esse cara vai chegar, vai tomar banho, vai cagar, vai jantar, vai tomar banho de novo e aí vai pensar em fazer o checkout. E eu aqui, suado e com fome. Eu puto de cá, meu pai puto de lá. No taxímetro, sei lá, 60 reais. Já tinham se passado uns 45 minutos, meu pai diz "olha lá, hein. Sexta-feira a essa hora pro Galeão, começando a chover? Esse cara vai te fazer perder o vôo, hein." "Dá mais 10 minutos aí. Se ele não chegar a gente vai."

Cinco minutos depois liga ele. De onde eu estava eu vi o único cara de mala na mão; era ele. Assobiei, ele veio. Quando chegou perto, ameaçou abrir a boca pra dar boa noite ao meu pai, eu já cortei: "olha só. A gente vai trabalhar junto, vai morar junto. Você foi pro hotel tomar banho e jantar, que tu tá de roupa trocada e todo cheirosão aí. E a gente aqui sentado te esperando. Começamos muito mal, ok? Entra no carro que tua janta pode fazer a gente perder o vôo." "Ah, ma" "Meu irmão. Nem tenta. Se você dissesse que ia tomar banho e jantar, a gente decidia se dava pra te esperar, e o combinado não sai caro. Só não queira aplicar pra cima de mim e pensar que eu vou achar bonito." Meu pai deu um sorriso de esse é meu garoto e levou a gente. Até esqueci que o cara estava dentro do carro, tamanho o silêncio que ele fazia. Ele tinha quase dois metros. Minhas duas frases fizeram com que ele coubesse no porta-luvas.

Conseguimos chegar. Tirei minha mala e mochila do carro. Quando ele saiu, perguntou quanto tinha dado, eu disse que no taxímetro dizia 122 reais. "Pai, tô duro, te pago na volta. Cobra só a parte dele aí." (pra ele deixar de ser babaca) "Ah, me dá cinquenta pratas aí que tá resolvido." Jantou de graça, mas pagou o táxi. Depois meu pai me ligou rindo: "quer ser malandro, né? Tomei cinquentinha desse otário. Não ia cobrar não, fui pra levar você. Mas ele queria chofer, toma que o filho é teu."  

Na área de embarque, encontramos um terceiro cara que embarcaria no mesmo navio. Chegamos em Fortaleza às duas da manhã. Aí é que eu fui tomar meu banho. Permanecia sem ter jantado. Havia comido só um salgado enquanto o bonito tomava banho no hotel, e uns pães de queijo no aeroporto que custaram o preço de um rodízio de churrascaria. Deitei na cama às duas e vinte da manhã. O carro me buscaria já para embarcar às três e quarenta e cinco. Pegaríamos mais ou menos duas horas de carro até Paracuru. De lá, mais duas horas de lancha até a área. Seríamos levados de cesta para uma plataforma, que nos entregaria de cesta para outro barco pequeno, que nos entregaria de cesta para o navio em que eu trabalharia virado e com fome no primeiro dia.

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