sábado, 22 de junho de 2013

HUMANISMO XXI


                                                                                      


Precisamos de uma humanidade preocupada em dar a cada homem, a possibilidade das melhores possibilidades.  Quando o cardume de peixes pequenos se junta , o peixe maior entende que é um bicho maior que ele e vai embora. Os porcos espinhos entendem que é melhor se juntarem, mesmo  espetando uns aos outros, do que morrerem todos de frio, cada um em seu canto. A cooperação é a ideia mais forte da vida. E logo, de sua manutenção.
                Hoje, o ser humano convulsiona pelo mundo inteiro. Convulsionamos porque nós mesmos estamos sofrendo as convulsões a que forçamos o planeta. Mau intencionados com o outro que somos, somos nossos escravos desde sempre. Mesmo que com modelos diferentes através do tempo e do espaço.
                Muitos povos estão protestando pelo mundo. Conhecemos suas causas em maior ou menor escala. Não é que o homem esteja insatisfeito com seu governo. O homem está insatisfeito com a humanidade. É esse o cardume que agora se forma. Os inquietos, os insatisfeitos. Aqueles que querem que tudo, tudo mesmo seja diferente. Muitos não sabem o que fazer para construir um mundo que não sabem exatamente como deveria ser. Mas todos concordam que não é esse o mundo.
                Esta ideia cabe em qualquer lugar do mundo. Não importa em que língua ou em que lugar ela tenha sido escrita. Importa sua existência, pois essa é a importância das ideias. O problema que ainda temos é que transformamos em prática, somente as ideias que acreditamos ser obrigados para a manutenção da nossa vida em particular. Essa é a causa da convulsão, que não é particular. E até nosso tempo, estamos cuidando apenas dos sintomas, nunca da causa.
                Continuamos a acreditar que cada lugar é um lugar. Que existe lado de fora. Que somos o contrário do que não gostaríamos de ser. Praticamos as mesmas ideias até nosso tempo. E estamos convulsionando todos juntos , justamente porque não praticamos as ideias que são fundamentais para a manutenção da vida do outro. É o porco-espinho mais próximo que me fornece mais calor para que eu fique vivo.
                Todos tínhamos certeza de que nunca veríamos milhões de pessoas juntas nas ruas do mundo para alguma coisa séria. No entanto, estamos no mundo neste momento. A causa primária , bem como a última para a inquietude que há no mundo é a falta. Só vamos atrás daquilo que nos falta. Mas estamos indo atrás do que nos falta em particular. Nunca fomos atrás daquilo que falta ao outro.
                Então o mundo está errado por minha causa também. Sendo assim, quando o outro estiver bem, quando o outro estiver feliz, quando o outro não precisar se preocupar com a manutenção de sua vida em particular, ele nunca irá me atrapalhar . A minha felicidade / vida / sucesso / está em função do outro.
                Por isso, a economia baseada em dinheiro veda a possibilidade de saúde no mundo. Necessariamente ou outro deve ter menos. Necessariamente deve haver falta ao outro. Praticar as ideias que acredito ser obrigado significa ganhar dinheiro para atender minha vida em particular. Em sistemas não capitalistas significa todo mundo ter igual ou muito parecido. Em nenhum sistema significa o outro ter todas as possibilidades.
                Cada lugar do mundo possui recursos que são escassos em lugar diferente. Para que todos tenham todas as possibilidades, os recursos naturais do planeta devem ser distribuídos globalmente.  Não em um modelo de compras, mas em um modelo colaborativo. As pessoas nas ruas por todo o mundo geram uma força capaz de trazer esta ideia para o mundo da prática. Porém os governantes do mundo tentam desajeitadamente atender a demandas que no final das contas ainda são relativas a particularidades. Como por exemplo, revogar o aumento do custo do transporte no Brasil, ou deixar de destruir uma praça na Turquia.
                A tecnologia de nosso tempo permite a distribuição descomplicada de qualquer coisa pelo mundo.  O que impede a distribuição de chegar a todos é o sistema de compras. O dinheiro. O dinheiro permite que o continente dos diamantes seja o mesmo da peste.
                A distribuição de recursos em um modelo colaborativo imperativamente destruiria a possibilidade de existência dos serviços e elementos da economia baseada em dinheiro. Bancos. Seguros. Juros. Crises. Patrão. Dono dos meios de produção. Falta. Qualquer pessoa poderia ocupar na sociedade, o papel que melhor e com mais prazer desempenha. Todo homem teria a alma livre e feliz do artista.

Esta ideia não respeita cargos. Não respeita sexo. Não respeita distância. Não respeita diferenças. Neste caso ela é muito perigosa hoje. Mas ela é maior que o tempo de hoje. Imagine essa ideia em um microfone na frente de milhões. Imagine a que velocidade cresceria o cardume. Se você gostou dessa ideia, passe adiante. Dê ela de presente a alguém. Traduza para outro idioma. Leve ao outro. Porque o outro é a sua finalidade.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O fruto, a praga, e o curinga do baralho

Quando eu era um só, meu sonho era impedir o aumento da passagem de ônibus/metrô/trem/barca. Hoje eu sou centenas de milhares. Em questão de horas , serei milhões.  Semana passada eu era qualquer bundão. Hoje vocês são meia dúzia de bundões.

Raul Seixas dizia que é no tronco que mora o curinga do baralho. O tronco do preço da passagem, da qualidade do hospital, da subpopulação que o sistema gratuito de ensino produz já de sacanagem, dos sistemas penal e prisional arquitetados pra prender e matar pobre e preto, do perfil do policial brasileiro (seja ele de que polícia for), de uma constituição que pesa quilos demais pra poder se mexer por conta própria... esse tronco não pode dar fruto bom.

Quando eu era um só eu comia desse fruto que tem gosto de vinagre todo dia, sozinho. Essa semana , os centenas de milhares que sou eu, estou levando toneladas  fruto desse tronco pra comer na rua. Os senhores não sabiam disso, mas toneladas desse troço dá náusea. E eu com essa quantidade de eus, estou vomitando sem parar. Todos os dias, em qualquer lugar que sou mais de meia dúzia .

Em qualquer lugar do mundo o Brasil é um país legal pra dedéu, e tal, democrático... o país das maravilhas.  É porque o fruto tipo exportação que sai desse mesmo tronco é o melhor do mundo, segundo o mundo inteiro.

A questão é que a arvore está com praga. Os direitos humanos são comandados por um pastor de merda que essa coca aí, é fanta. O presidente do senado (e quero lembrar que esse ano esse cara chegou a assumir a PRESIDÊNCIA DO BRASIL, pois a presidente e o vice estavam fora) é um condenado pela justiça. Um “genuíno” ladrão , também condenado por um esquema de propina , além de não ser preso ainda assumiu cargo público eletivo. A presidente conseguiu na mesma vida ser guerrilheira pela liberdade e perseguidora de movimentos sociais.

O Maracanã, no Rio, foi construído (ou quase isso) a um bilhão e lá vai fumaça. Vendido. A Marina da Glória, no Rio. Vendida. A reserva, no Rio. Vendida. Estão prendendo, matando e escondendo os pobres, mas quem manda em Zé Pequeno é Carlinhos Cachoeira, meu Capitão. A favela é ponto turístico e agora tem até festa que só entra rico.

As ruas em que hoje vomito, já foram fechadas algumas vezes por gente do Estado inteiro, a mando do Governador. PARA o Governador, que nunca vi royalties no transporte público nem em nenhum pedaço do fruto de que como. E ninguém ligou se meu direito de ir e vir foi lesado. Mas eu ainda era um bundão qualquer.

Hoje resolvi enfiar toneladas desse fruto goela abaixo de vocês, que são meia dúzia de bundões. Me falem sobre o gosto... não pode fazer cara feia não, hein. Essa é a igualdade como castigo. Até semana passada, cada um na rua era um inimigo em potencial. Hoje todo mundo sou eu, e sabemos quem são vocês. A Prefeitura de São Paulo está sendo invadida nesse exato momento. O prefeito fugiu de helicóptero.  Vocês podem correr, mas não podem se esconder.

Sempre haverá os mais exaltados. Sempre alguém vai pela porrada. Mas já disseram que “não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade doente”. Quem depreda é simplesmente um produto do sistema. É meu tique nervoso. A Acrópole está na Grécia, o Coliseu , em Roma. Os dois quebrados.  Milhares de livros escritos sobre o dia em que foram quebrados. Não é isso a História ?

Não é hora de tapar o sol com a peneira. Coisas vão ser quebradas. Todos os dias. Efeito colateral. Leiam a bula. Milhões de bulas.  Eu vou conseguir dar jeito no tronco. A melhoria do transporte público em todos os sentidos vai ser só uma das consequências da árvore sadia. O fruto vai ser delicioso, e a preço de banana. E vocês que comam comida azeda na cadeia.
Prazer: povo Brasileiro. Novo portador do curinga do baralho.

sábado, 15 de junho de 2013

O poder da interrogação

O que acontece quando fazemos perguntas? Pare debaixo de um viaduto e pergunte "onde tem fulanos milhões aqui? ". Entre no ônibus/metrô/barca e pergunte "será o caralho que tem três reais vezes um milhão de milhões de pessoas indo e voltando todos os dias aqui dentro dessa lata de sardinha ?". 

Faça-me o favor, cara pálida. O negócio aqui é escrachado mesmo. Aqui eu e meus iguais , parecidos e diferentes tentam chegar sem feder e ainda com seu celular no trabalho todos os dias, e pagando uma sacanagem por isso!

O jornal falou que os manifestantes quebraram um ponto de ônibus. Eu te pergunto quantos pontos de ônibus você já viu inteiros fora da zona sul/barra antes dos protestos. Responda aí nos comentários, tô pedindo numa boa. Você não respondeu porque isso é o vandalismo, e você sabe disso.

Um auto de resistência forjado é classificado como "um caso isolado", "o soldado foi transferido para funções administrativas". Um ponto de ônibus quebrado foram "os manifestantes". Todos eles juntos.

Ali tem muita gente diferente. Tem muito grupo diferente, mas todos no mesmo local. A tensão e o conflito foram apenas no final. Foram várias horas de protesto pacífico. Uma hora e pouco de conflito. Será que todos os manifestantes juntos são perigosos , ou um pequeno grupo do grande grupo que esteve lá, ficou até o final porque foi lá pra cair na porrada com a polícia?

Quem foi ali e sabia o que estava fazendo foi embora quando o pau quebrou, que malandro que é malandro sabe que duas pedras e uma voadora não põe a polícia do Rio pra correr. Mas tem muito rebelde sem causa, mas com peito de aço nessa cidade. Deixa rolar...

Hoje , o problema em São Paulo é a copa. Niterói marchou das Barcas em rush pela Amaral Peixoto até a Câmara. O jornal achou ruim que a avenida foi interditada. Aposto meu salário (que ainda paga umas passagens quando o Riocard acaba) que o jornalista mora no Rio. Nasci em Niterói e sei que a Amaral Peixoto é morta durante a noite. Os ônibus cortam a avenida em diagonal por todas as pistas, em velocidade de montanha russa. Só fez diferença porque o trânsito já está desviado pelas obras do mergulhão, que sinceramente, sei lá se é bom negócio.

Serginho. Dudu. Vocês têm um grande problema. Dilma, você também. O mundo todo está vendo. Repito aqui a frase que já é bordão do carioca há alguns anos. "Imagina na copa?" Ou alguém aí ainda acha que isso tudo não está acontecendo de propósito, neste exato momento? Aconteceu a menos de 7 dias da Copa das Confederações. Um grande aumento da tarifa estava previsto desde as últimas eleições municipais , ainda em 2012.

Doutores: vai ter protesto em dia de jogo. Os rebeldes sem causa vão ficar até o final e vão tomar porrada de novo. Só que isso vai estar na tela de cada tv do mundo, porque vai ser transmitido junto com o maior esporte do mundo. Olha em que merda vocês foram se meter.

O povo que vê ponto de ônibus com vidro limpo todo dia de manhã vai acreditar que é vandalismo. Só que o resto do mundo não vai não. E "os manifestantes" terão a seu favor, os últimos anos de governo dos senhores. Soco na cara, Maracanã de um bilhão e ainda assim feito nas coxas (inaugurado sem que estivesse pronto. Chegaram a interditar, mas os senhores "desinterditaram" na porrada), tiro na cara de gringo em "comunidade pacificada", caça aos mortos-vivos na Av. Brasil, enfim: escolham suas desgraças...

Tomara que nenhum de vocês leia isso, porque se do prefeito eu posso tomar um soco na cara, imagina do Governador, da presidentA que não aprendeu gramática quando era estudantA (???).

O que o resto do mundo vai pensar quando uma presidente que foi guerrilheira, presa e torturada pela ditadura prender estudantes por terrorismo (por pixar ônibus e quebrar vidraça)? É o poste mijando no cachorro, ou seja, um ato político com a cara e o cinismo do Brasil.

Cabral "vendeu" o maracanã pro dono da cidade (Eike absurdo!) por trinta e cinco anos. Pois eu aceito pagar a passagem no valor que está se ele decretar que vai ficar nesse preço por trinta e cinco anos. Pegadinha dos malandros. E olha que a polícia Federal foi proibida por "gente muito poderosa" de continuar investigando os senhores.

Eu não fui lá segurar bandeira. Mas já andei muito no metrô com a cara colada no vidro e com um só pé no chão, porque não tinha onde pôr o outro mesmo. Gosto quando o ônibus tem cobrador porque, além do motorista ser motorista e não fazedor de conta, dá pra ir em pé no ferro que tem do lado da cadeira dele. Do alto se respira melhor. Eu não tomei chicotada no trem da Central. Mas é só porque eu moro no centro mesmo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Revolta do Vinagre


Ainda por esses dias enquanto conversava com minha mulher, perguntei qual a diferença entre miopia e astigmatismo. Ela me disse que miopia é quando a pessoa tem problemas para enxergar o que está longe, e astigmatismo , quando não enxerga o que está perto.


Pois a política e o jornalismo brasileiros sofrem da vista. A política sofre de miopia. Não vê em outros países o que poderia aproveitar para o seu. Para assuntos internos, quando diz que não sabe ou não viu nada, é que virou a cabeça ou olhava para o próprio umbigo. O jornalismo sofre de astigmatismo. Enxerga muito bem o que acontece além das fronteiras. Faz inclusive comentários políticos sofisticados. Mas se o problema é no quintal, ou não enxerga nada ou, quando olha, vê tudo fora de foco.

Por mais de um ano, eu trabalhei no aeroporto do Galeão. Tenho a sorte de morar na Lapa, centro do Rio. Isso me economiza em tempo e dinheiro. Só que não. Para chegar ao aeroporto internacional preciso pegar o azulão, que parte do outro aeroporto da cidade; o Santos Dumont. Para chegar a este, preciso pegar um ônibus comum. Não fico nem dez minutos neste primeiro ônibus e já se foram R$2,95. Salto desse primeiro transporte na Academia Brasileira de Letras e ando mais de quinze minutos até o Santos Dumont. Pago caro para ficar no meio do caminho.

Aí vem a facada de R$ 13 do azulão. Confortável, com seus bancos reclináveis, tv e ar condicionado glacial, tem diferentes itinerários. O que eu costumava utilizar é o chamado expresso, que vai pela linha vermelha e faz todo o trajeto em 15 minutos. Minha ida e volta pro trabalho fica então em R$31,90! Claro, fica nesse valor caso eu não precise de ônibus para mais nada durante o dia. Não conto aqui com meu trajeto para a faculdade. O caso é que com quatro dias de trabalho, gasto um valor que me permite ir a Cabo Frio ( onde a passagem de ônibus custava até pouquíssimo tempo, 50 centavos) de avião.

Em 22 dias de trabalho no mês, gasto um salário mínimo e mais uns quebrados. Para chegar no trabalho. Gasto mais indo trabalhar do que com almoço na rua e compra de mês em casa. Nos finais de semana , visito minha mãe, que mora em Niterói. Uso as barcas, que pertencem à mesma empresa que controla o pedágio na ponte Rio-Niterói (CCR). A tarifa das Barcas custa R$4,50, trajeto de 12 minutos. O minuto da barca é mais caro que o minuto do cruzeiro do Roberto Carlos. Eu não estou brincando. Fico imaginando como seria uma greve da CCR, aí sim, liquidando o direito de ir e vir.

O trajeto ao Galeão não é o padrão do carioca, tudo bem. Mas algo está realmente muito errado. Para o mesmo Galeão, um ônibus que parte de Niterói (!) custa por volta de 6 reais. Qual é o critério? Há critério?

Vamos ao protesto em si. Há alguns meses, jovens foram às ruas no sul do país. Conseguiram impedir o aumento das tarifas. Não houve violência. Nos últimos dias os protestos foram no Rio e em São Paulo. Aqui no sudeste a coisa foi um pouco diferente.

Quero já agora deixar um ponto muito claro. Nos dois Estados foi possível ver bandeiras do PSTU. Ignorem. Primeiro que não é apenas o PSTU que anda de ônibus no Rio. Segundo , porque o afiliado ao PSTU “luta pelo direito do trabalhador” , mas vá lá perguntar quais deles trabalharam ou trabalham na vida. Alguns são formados em piano clássico, outros levam seu violãocelo por onde andam. A cara do trabalhador carioca, certo? Digo isso pois conheço muitos dos que lá estavam. O partido está recheado de comunistas que tomam chopp e cerveja Heineken no Garota do Flamengo (que eu já vi) . Minhas desculpas e pêsames aos pobres de dentro e de fora do partido. A questão é que o partidário do PSTU vive de “vamos fazer um ato”. Isso não é política, mas seu esvaziamento.

O problema deste partido é que não respeita quem, por exemplo, estava no protesto e não é PSTU. Se eu estivesse no protesto e fosse capturado por uma imagem aérea, qualquer um diria que integro o partido, enquanto discordo enormemente de sua ideologia. Fica claro que o partido, para eles, é maior que o povo (pelo qual eles dizem lutar). É o que nos restou dos heróis da cúpula vermelha. Projetos de herói made in Europe.

Esclarecida a questão da bandeira vermelha, vamos ao que não foi dito. Pois o não dito interessa muito. Tiro de borracha. Teaser. Gás lacrimogênio . Spray de pimenta. Armas não letais, para vendermos uma imagem de respeito aos direitos humanos. Mas já que a arma não mata, a polícia vai usar a bala de borracha para dar tiro nos olhos, na boca das pessoas. Vão juntar 6 policiais para bater em uma pessoa já controlada. Vão usar o teaser na cabeça, no coração. Vão usar spray de pimenta em crianças com menos de 10 anos (foto que correu a internet, em outro episódio) Já que não mata, vamos causar sequela.

“A distância segura para um tiro de borracha é de 50 metros. Atirar a distância menor é assumir grande risco”. Palavras de um soldado da Aeronáutica que já tomou tiro de borracha a 50 metros e foi neutralizado. Pois a polícia atirou a curtíssima distância. Estourou o globo ocular de uma menina perigosíssima em São Paulo. E há outras pessoas com marcas de bala no rosto. É a mesma polícia que aumenta o índice de autos de resistência, deixando corpos com tiros no rosto, cabeça, mãos e antebraços (o que evidencia tentativa desesperada e inútil de defesa por parte da vítima). Mas o Arnaldo Jabour tem a cara de pau de dizer que a menina tomou tiro no olho porque não queria desembolsar vinte centavos. Quando o Jabour fala , é o momento no qual minha tv chega mais perto de ter cheiro.

O policial militar é em sua esmagadora maioria, um sádico. Entra na corporação com cabeça de bandido. “Vou matar vagabundo. Vou fazer salário extra. Vou almoçar de graça. Vou dar tapa na cara. Vou oferecer proteção privada ao comércio que não quiser ser assaltado”. Pra você que nunca ouviu dizer nada disso, ou que acredita que estou aumentando as coisas, me pergunto como meu texto chegou na sua mão, aí dentro da sua redoma de vidro blindado. O que eu estou dizendo; já disseram Luiz Eduardo Soares na sociologia, Paulo Lins na literatura, Mano Brown no rap, e por aí vai.

A questão é que o soldado tem uma roupa que o investe de poder , autoridade e fé pública. “Ah, os coitados ganham muito pouco”. Concordo plenamente. Mas a polícia Federal ganha muito bem, e muitos dos policiais federais que eu conheço também são corruptos. Rio e São Paulo são uma guerra de equipes de bandidos. Com camisa e sem camisa, como eu brincava na infância.

Se os policiais e grande parte dos leitores do meu desabafo dizem que quem virou bandido e cracudo virou porque quis, eu pergunto a vocês, “doutores”, quem vos obriga a vestir seus trajes oficiais. O altruísmo ou o interesse? Coloque aqui sua risada.

Um adendo. O governador é o comandante geral da polícia. Então, quando uma bala de borracha é deflagrada, quem atira é o Geraldo Alckmin , é o Sérgio Cabral Filho (dela mesma).

Alguns já chamam os episódios de “ a revolta do vinagre”. O vinagre reage amenizando os efeitos do spray de pimenta. Mas você vai acreditar quando o Bonner disser que vinagre dá pra fazer bomba caseira.

Infelizmente, as coisas só costumam ser resolvidas no Brasil quando o problema faz barulho fora do país. Pois a imprensa internacional está cobrindo a revolta do vinagre. Há uma reportagem do El País correndo a internet. E lá eles disseram algo parecido com “a classe média brasileira, sem costume de protestos, aplaude as autoridades”. O El País está falando dos fãs do Capitão Nascimento. E são muitos. Em contrapartida, nossa imprensa diz que os protestos são um movimento de classe média. Devem ter dito isso por causa das bandeiras do PSTU.

Leitor, a classe média tem carro. E ainda que existam elementos de classe média nas revoltas, andar de ônibus é coisa de pobre. Então o cunho da revolta é sim popular. Até porque, os poucos pobres que têm carro , usam para passear no fim de semana. E só. Não conseguem manter o carro andando por 30 dias sem que isso seja acompanhado de prejuízo.

Copa das Confederações, Copa do Mundo. Os megaeventos sempre em Junho / Julho. Claro. Se fossem no verão , só os esportes aquáticos seriam possíveis, com as inundações que param os Estados do Rio e São Paulo todos os anos . Mas a estiagem não cala a inteligência. Os protestos pelos vinte centavos, seu Arnaldo Jabour; não são pelos vinte centavos. São a maneira pela qual o povo começa a ser ouvido, de fora para dentro. E ainda há muito a se falar.