A Revolta do Vinagre
Ainda por esses dias enquanto conversava com minha mulher, perguntei qual a diferença entre miopia e astigmatismo. Ela me disse que miopia é quando a pessoa tem problemas para enxergar o que está longe, e astigmatismo , quando não enxerga o que está perto.
Pois a política e o jornalismo brasileiros sofrem da vista. A política sofre de miopia. Não vê em outros países o que poderia aproveitar para o seu. Para assuntos internos, quando diz que não sabe ou não viu nada, é que virou a cabeça ou olhava para o próprio umbigo. O jornalismo sofre de astigmatismo. Enxerga muito bem o que acontece além das fronteiras. Faz inclusive comentários políticos sofisticados. Mas se o problema é no quintal, ou não enxerga nada ou, quando olha, vê tudo fora de foco.
Por mais de um ano, eu trabalhei no aeroporto do Galeão. Tenho a sorte de morar na Lapa, centro do Rio. Isso me economiza em tempo e dinheiro. Só que não. Para chegar ao aeroporto internacional preciso pegar o azulão, que parte do outro aeroporto da cidade; o Santos Dumont. Para chegar a este, preciso pegar um ônibus comum. Não fico nem dez minutos neste primeiro ônibus e já se foram R$2,95. Salto desse primeiro transporte na Academia Brasileira de Letras e ando mais de quinze minutos até o Santos Dumont. Pago caro para ficar no meio do caminho.
Aí vem a facada de R$ 13 do azulão. Confortável, com seus bancos reclináveis, tv e ar condicionado glacial, tem diferentes itinerários. O que eu costumava utilizar é o chamado expresso, que vai pela linha vermelha e faz todo o trajeto em 15 minutos. Minha ida e volta pro trabalho fica então em R$31,90! Claro, fica nesse valor caso eu não precise de ônibus para mais nada durante o dia. Não conto aqui com meu trajeto para a faculdade. O caso é que com quatro dias de trabalho, gasto um valor que me permite ir a Cabo Frio ( onde a passagem de ônibus custava até pouquíssimo tempo, 50 centavos) de avião.
Em 22 dias de trabalho no mês, gasto um salário mínimo e mais uns quebrados. Para chegar no trabalho. Gasto mais indo trabalhar do que com almoço na rua e compra de mês em casa. Nos finais de semana , visito minha mãe, que mora em Niterói. Uso as barcas, que pertencem à mesma empresa que controla o pedágio na ponte Rio-Niterói (CCR). A tarifa das Barcas custa R$4,50, trajeto de 12 minutos. O minuto da barca é mais caro que o minuto do cruzeiro do Roberto Carlos. Eu não estou brincando. Fico imaginando como seria uma greve da CCR, aí sim, liquidando o direito de ir e vir.
O trajeto ao Galeão não é o padrão do carioca, tudo bem. Mas algo está realmente muito errado. Para o mesmo Galeão, um ônibus que parte de Niterói (!) custa por volta de 6 reais. Qual é o critério? Há critério?
Vamos ao protesto em si. Há alguns meses, jovens foram às ruas no sul do país. Conseguiram impedir o aumento das tarifas. Não houve violência. Nos últimos dias os protestos foram no Rio e em São Paulo. Aqui no sudeste a coisa foi um pouco diferente.
Quero já agora deixar um ponto muito claro. Nos dois Estados foi possível ver bandeiras do PSTU. Ignorem. Primeiro que não é apenas o PSTU que anda de ônibus no Rio. Segundo , porque o afiliado ao PSTU “luta pelo direito do trabalhador” , mas vá lá perguntar quais deles trabalharam ou trabalham na vida. Alguns são formados em piano clássico, outros levam seu violãocelo por onde andam. A cara do trabalhador carioca, certo? Digo isso pois conheço muitos dos que lá estavam. O partido está recheado de comunistas que tomam chopp e cerveja Heineken no Garota do Flamengo (que eu já vi) . Minhas desculpas e pêsames aos pobres de dentro e de fora do partido. A questão é que o partidário do PSTU vive de “vamos fazer um ato”. Isso não é política, mas seu esvaziamento.
O problema deste partido é que não respeita quem, por exemplo, estava no protesto e não é PSTU. Se eu estivesse no protesto e fosse capturado por uma imagem aérea, qualquer um diria que integro o partido, enquanto discordo enormemente de sua ideologia. Fica claro que o partido, para eles, é maior que o povo (pelo qual eles dizem lutar). É o que nos restou dos heróis da cúpula vermelha. Projetos de herói made in Europe.
Esclarecida a questão da bandeira vermelha, vamos ao que não foi dito. Pois o não dito interessa muito. Tiro de borracha. Teaser. Gás lacrimogênio . Spray de pimenta. Armas não letais, para vendermos uma imagem de respeito aos direitos humanos. Mas já que a arma não mata, a polícia vai usar a bala de borracha para dar tiro nos olhos, na boca das pessoas. Vão juntar 6 policiais para bater em uma pessoa já controlada. Vão usar o teaser na cabeça, no coração. Vão usar spray de pimenta em crianças com menos de 10 anos (foto que correu a internet, em outro episódio) Já que não mata, vamos causar sequela.
“A distância segura para um tiro de borracha é de 50 metros. Atirar a distância menor é assumir grande risco”. Palavras de um soldado da Aeronáutica que já tomou tiro de borracha a 50 metros e foi neutralizado. Pois a polícia atirou a curtíssima distância. Estourou o globo ocular de uma menina perigosíssima em São Paulo. E há outras pessoas com marcas de bala no rosto. É a mesma polícia que aumenta o índice de autos de resistência, deixando corpos com tiros no rosto, cabeça, mãos e antebraços (o que evidencia tentativa desesperada e inútil de defesa por parte da vítima). Mas o Arnaldo Jabour tem a cara de pau de dizer que a menina tomou tiro no olho porque não queria desembolsar vinte centavos. Quando o Jabour fala , é o momento no qual minha tv chega mais perto de ter cheiro.
O policial militar é em sua esmagadora maioria, um sádico. Entra na corporação com cabeça de bandido. “Vou matar vagabundo. Vou fazer salário extra. Vou almoçar de graça. Vou dar tapa na cara. Vou oferecer proteção privada ao comércio que não quiser ser assaltado”. Pra você que nunca ouviu dizer nada disso, ou que acredita que estou aumentando as coisas, me pergunto como meu texto chegou na sua mão, aí dentro da sua redoma de vidro blindado. O que eu estou dizendo; já disseram Luiz Eduardo Soares na sociologia, Paulo Lins na literatura, Mano Brown no rap, e por aí vai.
A questão é que o soldado tem uma roupa que o investe de poder , autoridade e fé pública. “Ah, os coitados ganham muito pouco”. Concordo plenamente. Mas a polícia Federal ganha muito bem, e muitos dos policiais federais que eu conheço também são corruptos. Rio e São Paulo são uma guerra de equipes de bandidos. Com camisa e sem camisa, como eu brincava na infância.
Se os policiais e grande parte dos leitores do meu desabafo dizem que quem virou bandido e cracudo virou porque quis, eu pergunto a vocês, “doutores”, quem vos obriga a vestir seus trajes oficiais. O altruísmo ou o interesse? Coloque aqui sua risada.
Um adendo. O governador é o comandante geral da polícia. Então, quando uma bala de borracha é deflagrada, quem atira é o Geraldo Alckmin , é o Sérgio Cabral Filho (dela mesma).
Alguns já chamam os episódios de “ a revolta do vinagre”. O vinagre reage amenizando os efeitos do spray de pimenta. Mas você vai acreditar quando o Bonner disser que vinagre dá pra fazer bomba caseira.
Infelizmente, as coisas só costumam ser resolvidas no Brasil quando o problema faz barulho fora do país. Pois a imprensa internacional está cobrindo a revolta do vinagre. Há uma reportagem do El País correndo a internet. E lá eles disseram algo parecido com “a classe média brasileira, sem costume de protestos, aplaude as autoridades”. O El País está falando dos fãs do Capitão Nascimento. E são muitos. Em contrapartida, nossa imprensa diz que os protestos são um movimento de classe média. Devem ter dito isso por causa das bandeiras do PSTU.
Leitor, a classe média tem carro. E ainda que existam elementos de classe média nas revoltas, andar de ônibus é coisa de pobre. Então o cunho da revolta é sim popular. Até porque, os poucos pobres que têm carro , usam para passear no fim de semana. E só. Não conseguem manter o carro andando por 30 dias sem que isso seja acompanhado de prejuízo.
Copa das Confederações, Copa do Mundo. Os megaeventos sempre em Junho / Julho. Claro. Se fossem no verão , só os esportes aquáticos seriam possíveis, com as inundações que param os Estados do Rio e São Paulo todos os anos . Mas a estiagem não cala a inteligência. Os protestos pelos vinte centavos, seu Arnaldo Jabour; não são pelos vinte centavos. São a maneira pela qual o povo começa a ser ouvido, de fora para dentro. E ainda há muito a se falar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário