sexta-feira, 15 de março de 2019

Diário de bordo 15/03/2019 – A 43 km da orla de Paracuru – Ceará






SOBRE HIERARQUIA



Na sexta-feira passada, embarcaram o outro comandante e chefe de máquinas. Eles não gostam da nossa turma. No embarque passado, o chefe deu falta de um roteador. Disse no refeitório que na nossa turma só tinha ladrão. No dia seguinte, descobriu que o roteador estava com o comandante. Nós ficamos sem ter roubado; ele ficou sem pedir desculpas. É a hierarquia.

Antes de eu vir pra cá, o mesmo chefe de máquinas foi ao mesmo comandante se queixar da imediata da nossa turma. Até hoje eu não sei o que ele foi falar (talvez devesse ter perguntado ao chefe da minha turma). Mas ele deu um grande azar. Era o primeiro embarque do tal comandante por aqui. E ele -  não sei se para mostrar serviço, se para saber quem é quem – teria dito: “olha, chefe. Eu não quero disse me disse não. O senhor está dizendo que ela fez isso. Então, calma aí. – Imediata, vem aqui no meu camarote! – Olha, o chefe tá aqui dizendo que você fez isso, isso e isso. Não disse, chefe? Então, foi isso ou não foi?” – E não tinha sido. Imaginem a cara de bunda que esse cara ficou. Mas teve que engolir o sapo que ele mesmo havia criado. Deu o sapo na mão do comandante achando que ia assistir a imediata engolir... mas o comandante “não senhor, engole que o sapo é teu!”. É a hierarquia.

Hierarquia é o nome do mecanismo criado para que tudo o que aconteça dentro de determinada sociedade, convirja de tal maneira que quem está no topo da pirâmide esteja sempre certo. A hierarquia atua sempre de maneira inversamente proporcional. Se o topo da pirâmide comete um erro, por maior que seja; uma desculpa esfarrapada serve para justificar o deslize. Se a base age completamente de acordo com a regra, mas isso vai de encontro ao desejo de quem está na parte de cima, qualquer desculpa esfarrapada serve para transformar essa conduta em erro abominável. A hierarquia existe para ampliar a desigualdade, para falar mais alto do que a ética, para que a verdade de muitos juntos valha bem menos que a opinião de um único. A hierarquia é, portanto, a condição de que o indivíduo aceite uma enorme assimetria para integrar-se a determinada sociedade.

Como o homem é animal político e simultaneamente participa  de diversas sociedades – família, trabalho, cidade, país – é natural que seu papel varie dentro de cada uma delas. Dentro da família, pode ser filho, mãe, chefe da família; no trabalho, estagiário, analista, presidente, diretor; e por aí vai. O motivo de o indivíduo aceitar papel subalterno em sociedade mais circunscrita - e por isso mesmo, de hierarquia mais rígida – está diretamente ligado ao potencial de ascensão em outras sociedades mais abrangentes das quais ele participa. Esse potencial de ascensão está basicamente ligado à notoriedade que seu papel na sociedade circunscrita tem sobre as sociedades abrangentes, e pelo poder econômico por ela proporcionado; sendo independentes esses dois fatores. Exemplo? O assessor de porra nenhuma que leva cafezinho ao presidente da República tem mais reconhecimento social que o presidente da cooperativa de catadores de latinha.

Repare que: dentro da lógica da hierarquia, a quantidade de trabalho realizada, bem como sua importância dentro da sociedade abrangente; estão longe de entrar na conta. O lugar que o indivíduo ocupa dentro de uma hierarquia circunscrita é sua moeda de troca – melhor!, é seu próprio valor intrínseco -  nas sociedades abrangentes. Eis o motivo de o indivíduo aceitar a hierarquia circunscrita, ainda que na última posição da base. Muitas vezes o simples fato de pertencer a determinada sociedade circunscrita já coloca o indivíduo em posição privilegiada quando na sociedade abrangente. Exemplo – “aquele cara trabalha todo dia com o presidente da República. Dê a ele a melhor mesa do restaurante.”

Em uma frase; é por conta da hierarquia que as pessoas vão ser faxineiros na Europa (e voltam dizendo que eram “cleaner”). É por conta da hierarquia que Tieta foi tão bem recebida quando voltou a Santana do Agreste (se dizendo esposa de rico). É por conta da hierarquia que padre João benzeu o motor do major Antônio Moraes, mas relutou quanto a benzer a cachorra do padeiro (dizendo que motor era coisa que qualquer um benzia). E é por isso, meus caros, que eu lavo, limpo e cozinho em navio (mas às vezes também digo que taifeiro é um cara que manda pacaralho aqui na Petrobras).



PORTAS CORTA FOGO



A acomodação do navio tem uma escadaria central. Nessa escadaria, há portas corta fogo que dão para os respectivos andares (conveses)  e seus aposentos. Acontece que o roteador central fica no piso dos  oficiais, o quarto piso. Com essas portas todas fechadas, o sinal da internet praticamente não chega para os canelas – primeiro, segundo e terceiro pisos. Quer dizer, o navio tem internet, mas só quem pode usar sem ter macete é o topo da pirâmide. O resto que se vire. É a hierarquia. Mas o resto se virou. Colocaram presilhas nas portas para mantê-las abertas o dia inteiro. Aí o sinal chegava para todo mundo. Quando o novo chefe e o novo comandante embarcaram, fecharam tudo de novo. “Ah, porque essas portas têm que ficar fechadas, isso é norma de segurança, bibibi, bibibi.”. Sim, claro que é norma de segurança. Mas que seria facilmente esquecida se o roteador central ficasse no primeiro piso. Aí, eles mandariam colocar presilha nas portas para terem internet numa boa. Também é norma de segurança não entrar de macacão no refeitório. E vocês acham que eu vou impedir o chefe de entrar pra tomar café a cada quinze minutos? Eu não sou retardado. É a hierarquia.

E os tripulantes começaram a se queixar: “porra, esse peste toda hora fechando as portas. Tava tão bom pra todo mundo, agora vai ser essa merda.” . “Isso aí é porque ele não gosta de nós, macho. Não chamou nós de ladrão?”. “Tem nada, não. Ele fecha, nós abre.”. E eu disse “é lógico, porra, o cara é um só; nós somos vinte! Vamos ver quem cansa primeiro. Se ele de fechar, ou se a gente de abrir. É só não dar mole de ele ver a gente abrindo. Espera ele fechar, dá cinco minutos, vai lá e abre. Melhor só ele puto eu nós vinte.” E começava a guerra das portas. Todos sabiam quem fechava. Ninguém sabia quem abria.



APESAR DA HIERARQUIA, A ESFERA DE AÇÃO



Ninguém está mais abaixo no organograma do que eu. Acordo antes de todos, paro de trabalhar depois de todos. As outras seções trabalham oito horas por dia. Param no sábado ao meio diz e só retornam na segunda, às sete da manhã. Trabalham oito horas, mas podem declarar dez. Eu trabalho mais do que doze horas, mas sou proibido de declarar mais do que dez na planilha de horas trabalhadas.  A lógica diz que meu trabalho é extremamente importante. A hierarquia, não.

Mas, justamente pela quantidade de horas que trabalho, sei muito bem que meu trabalho interfere na vida de todos por aqui. E decidi usar isso a meu favor. O chefe é viciado em café. Não passa meia hora sem vir à copa buscar. Os sábios tem consciência de que não se deve tratar mal quem traz a sua comida , e que , em um navio, não se deve deixar a cozinha insatisfeita; ou todos sofrem. É obrigação minha que haja sempre café pronto. E eu faço café entre quatro e cinco vezes ao dia. Antes do café da manhã, depois do café da manhã, antes do almoço, antes do jantar, e depois do jantar. Então, sempre há café fresco.

Em uma situação de descontentamento, apesar da hierarquia, há a esfera de ação. Passei a fazer quatro litros de café antes do café da manhã e deixar o mesmo café na máquina até o outro dia. O cozinheiro, sem querer deixou a comida um pouco salgada demais. Ninguém deixou de cumprir com sua obrigação, satisfazendo à hierarquia. O diferencial é como passamos a fazer. E tome de porta abrir, e tome de porta fechar. No dia seguinte, a porta não se fechou.



UM NÃO TIRA TODOS, MAS TODOS TIRAM UM



No dia seguinte, sábado, o chefe estava completamente arreado. Já tossia desde o dia do embarque, mas a poeira do ar condicionado piorou demais seu quadro. Tomou café sem emitir som, foi embora. No almoço, o comandante perguntou “alguém viu o chefe hoje? Sumiu!” E sumiu mesmo. Não almoçou nem jantou nesse dia. No almoço de segunda feira, já perto da hora de tirar a refeição, comentei com a imediata. “Pô, esse cara não vem, ou vai deixar pra vir no último minuto, só pra sacanear?”. “Arthur, o chefe desembarcou! Foi para a plataforma, o enfermeiro não deixou voltar. Desembarcou ele. Ele vai é direto pro Rio. Nem vai a médico em Fortaleza.”. “Ah, é? Também, tanta gente pensando positivo pra ele aqui, com essa coisa da porta, né? Hahahah.”. E Cabeça arrematou: “é, rapaz. Um não tira todos, mas todos tiram um.”. “Quero morrer amiga de vocês.”, disse ela.

No outro dia, quem andava tossindo e de cabeça baixa era o comandante. “Pô, o chefe foi embora, agora eu é que tô doente.”, e também ficou sumido do navio. Vinte e três pessoas a bordo. Só os persona non grata doentes. E todas as portas abertas. Foi ótimo.



A SÍNDROME DO PEQUENO PODER

OU

 SEMPRE HÁ UM PEIXE MAIOR



Hoje foi dia de troca de turma. Saiu metade da minha turma, entrou metade da outra.  Antes de desembarcarem, alguém disse: “o chefe tá voltando aí. E tomou foi um esporro lá no escritório, no Rio.”

É o seguinte: sempre que alguém desembarca por motivo de saúde, tem a obrigação de ir ao posto mais próximo da empresa. Lá há um médico da empresa,  que também é médico do trabalho. Esse cara é o responsável por avaliar o quadro do desembarcado, e dizer se embarca de novo, se precisa de cuidados maiores, se vai a hospital, ou se volta para casa. Eu que acabei de entrar na empresa sei disso. O chefe está careca de saber. Só que a sociedade hierárquica onde ele tem enorme poder é circunscrita ao navio. Essa megalomania de achar que seu martelo afunda prego em qualquer lugar é a síndrome do pequeno poder. E é muito comum por aqui. E quem sofre disso se esquece de que sempre há um peixe maior. Ainda mais fora do seu aquário.

Acontece que o chefe desembarcou e cagou para o médico do trabalho de Fortaleza. Nem se deu ao trabalho de ir. Foi a seu médico no Rio, que nem deve ser médico do trabalho, inclusive.  Aí foi ao escritório comunicar o afastamento, levar atestado, e tal. Tomou-lhe uma mijada de alguém que manda mais do que ele. Quem manda no escritório não é ele. É a hierarquia.

“Ah; deram-lhe um esporro, é? Então vai voltar manso. Vai ter internet!”. O chefe já está a bordo. Sorri, mas ainda está rouco. O comandante segue com febre.

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