SOBRE HIERARQUIA
Na sexta-feira
passada, embarcaram o outro comandante e chefe de máquinas. Eles não gostam da
nossa turma. No embarque passado, o chefe deu falta de um roteador. Disse no refeitório
que na nossa turma só tinha ladrão. No dia seguinte, descobriu que o roteador
estava com o comandante. Nós ficamos sem ter roubado; ele ficou sem pedir
desculpas. É a hierarquia.
Antes de eu
vir pra cá, o mesmo chefe de máquinas foi ao mesmo comandante se queixar da
imediata da nossa turma. Até hoje eu não sei o que ele foi falar (talvez
devesse ter perguntado ao chefe da minha turma). Mas ele deu um grande azar.
Era o primeiro embarque do tal comandante por aqui. E ele - não sei se para mostrar serviço, se para
saber quem é quem – teria dito: “olha, chefe. Eu não quero disse me disse não.
O senhor está dizendo que ela fez isso. Então, calma aí. – Imediata, vem aqui
no meu camarote! – Olha, o chefe tá aqui dizendo que você fez isso, isso e
isso. Não disse, chefe? Então, foi isso ou não foi?” – E não tinha sido.
Imaginem a cara de bunda que esse cara ficou. Mas teve que engolir o sapo que
ele mesmo havia criado. Deu o sapo na mão do comandante achando que ia assistir
a imediata engolir... mas o comandante “não senhor, engole que o sapo é teu!”.
É a hierarquia.
Hierarquia é o
nome do mecanismo criado para que tudo o que aconteça dentro de determinada
sociedade, convirja de tal maneira que quem está no topo da pirâmide esteja sempre
certo. A hierarquia atua sempre de maneira inversamente proporcional. Se o topo
da pirâmide comete um erro, por maior que seja; uma desculpa esfarrapada serve
para justificar o deslize. Se a base age completamente de acordo com a regra,
mas isso vai de encontro ao desejo de quem está na parte de cima, qualquer
desculpa esfarrapada serve para transformar essa conduta em erro abominável. A
hierarquia existe para ampliar a desigualdade, para falar mais alto do que a
ética, para que a verdade de muitos juntos valha bem menos que a opinião de um
único. A hierarquia é, portanto, a condição de que o indivíduo aceite uma
enorme assimetria para integrar-se a determinada sociedade.
Como o homem é
animal político e simultaneamente participa
de diversas sociedades – família, trabalho, cidade, país – é natural que
seu papel varie dentro de cada uma delas. Dentro da família, pode ser filho,
mãe, chefe da família; no trabalho, estagiário, analista, presidente, diretor;
e por aí vai. O motivo de o indivíduo aceitar papel subalterno em sociedade
mais circunscrita - e por isso mesmo, de hierarquia mais rígida – está
diretamente ligado ao potencial de ascensão em outras sociedades mais
abrangentes das quais ele participa. Esse potencial de ascensão está
basicamente ligado à notoriedade que seu papel na sociedade circunscrita tem
sobre as sociedades abrangentes, e pelo poder econômico por ela proporcionado;
sendo independentes esses dois fatores. Exemplo? O assessor de porra nenhuma
que leva cafezinho ao presidente da República tem mais reconhecimento social
que o presidente da cooperativa de catadores de latinha.
Repare que:
dentro da lógica da hierarquia, a quantidade de trabalho realizada, bem como
sua importância dentro da sociedade abrangente; estão longe de entrar na conta.
O lugar que o indivíduo ocupa dentro de uma hierarquia circunscrita é sua moeda
de troca – melhor!, é seu próprio valor intrínseco - nas sociedades abrangentes. Eis o motivo de o
indivíduo aceitar a hierarquia circunscrita, ainda que na última posição da
base. Muitas vezes o simples fato de pertencer a determinada sociedade
circunscrita já coloca o indivíduo em posição privilegiada quando na sociedade
abrangente. Exemplo – “aquele cara trabalha todo dia com o presidente da
República. Dê a ele a melhor mesa do restaurante.”
Em uma frase;
é por conta da hierarquia que as pessoas vão ser faxineiros na Europa (e voltam
dizendo que eram “cleaner”). É por conta da hierarquia que Tieta foi tão bem
recebida quando voltou a Santana do Agreste (se dizendo esposa de rico). É por
conta da hierarquia que padre João benzeu o motor do major Antônio Moraes, mas
relutou quanto a benzer a cachorra do padeiro (dizendo que motor era coisa que
qualquer um benzia). E é por isso, meus caros, que eu lavo, limpo e cozinho em
navio (mas às vezes também digo que taifeiro é um cara que manda pacaralho aqui
na Petrobras).
PORTAS
CORTA FOGO
A acomodação do navio tem uma
escadaria central. Nessa escadaria, há portas corta fogo que dão para os
respectivos andares (conveses) e seus
aposentos. Acontece que o roteador central fica no piso dos oficiais, o quarto piso. Com essas portas
todas fechadas, o sinal da internet praticamente não chega para os canelas –
primeiro, segundo e terceiro pisos. Quer dizer, o navio tem internet, mas só
quem pode usar sem ter macete é o topo da pirâmide. O resto que se vire. É a
hierarquia. Mas o resto se virou. Colocaram presilhas nas portas para mantê-las
abertas o dia inteiro. Aí o sinal chegava para todo mundo. Quando o novo chefe
e o novo comandante embarcaram, fecharam tudo de novo. “Ah, porque essas portas
têm que ficar fechadas, isso é norma de segurança, bibibi, bibibi.”. Sim, claro
que é norma de segurança. Mas que seria facilmente esquecida se o roteador
central ficasse no primeiro piso. Aí, eles mandariam colocar presilha nas
portas para terem internet numa boa. Também é norma de segurança não entrar de
macacão no refeitório. E vocês acham que eu vou impedir o chefe de entrar pra
tomar café a cada quinze minutos? Eu não sou retardado. É a hierarquia.
E os tripulantes começaram a se
queixar: “porra, esse peste toda hora fechando as portas. Tava tão bom pra todo
mundo, agora vai ser essa merda.” . “Isso aí é porque ele não gosta de nós,
macho. Não chamou nós de ladrão?”. “Tem nada, não. Ele fecha, nós abre.”. E eu
disse “é lógico, porra, o cara é um só; nós somos vinte! Vamos ver quem cansa
primeiro. Se ele de fechar, ou se a gente de abrir. É só não dar mole de ele
ver a gente abrindo. Espera ele fechar, dá cinco minutos, vai lá e abre. Melhor
só ele puto eu nós vinte.” E começava a guerra das portas. Todos sabiam quem
fechava. Ninguém sabia quem abria.
APESAR
DA HIERARQUIA, A ESFERA DE AÇÃO
Ninguém está mais abaixo no
organograma do que eu. Acordo antes de todos, paro de trabalhar depois de
todos. As outras seções trabalham oito horas por dia. Param no sábado ao meio
diz e só retornam na segunda, às sete da manhã. Trabalham oito horas, mas podem
declarar dez. Eu trabalho mais do que doze horas, mas sou proibido de declarar
mais do que dez na planilha de horas trabalhadas. A lógica diz que meu trabalho é extremamente
importante. A hierarquia, não.
Mas, justamente pela quantidade
de horas que trabalho, sei muito bem que meu trabalho interfere na vida de
todos por aqui. E decidi usar isso a meu favor. O chefe é viciado em café. Não
passa meia hora sem vir à copa buscar. Os sábios tem consciência de que não se
deve tratar mal quem traz a sua comida , e que , em um navio, não se deve
deixar a cozinha insatisfeita; ou todos sofrem. É obrigação minha que haja
sempre café pronto. E eu faço café entre quatro e cinco vezes ao dia. Antes do
café da manhã, depois do café da manhã, antes do almoço, antes do jantar, e
depois do jantar. Então, sempre há café fresco.
Em uma situação de
descontentamento, apesar da hierarquia, há a esfera de ação. Passei a fazer
quatro litros de café antes do café da manhã e deixar o mesmo café na máquina
até o outro dia. O cozinheiro, sem querer deixou a comida um pouco salgada
demais. Ninguém deixou de cumprir com sua obrigação, satisfazendo à hierarquia.
O diferencial é como passamos a fazer. E tome de porta abrir, e tome de porta
fechar. No dia seguinte, a porta não se fechou.
UM
NÃO TIRA TODOS, MAS TODOS TIRAM UM
No dia seguinte, sábado, o chefe
estava completamente arreado. Já tossia desde o dia do embarque, mas a poeira
do ar condicionado piorou demais seu quadro. Tomou café sem emitir som, foi
embora. No almoço, o comandante perguntou “alguém viu o chefe hoje? Sumiu!” E
sumiu mesmo. Não almoçou nem jantou nesse dia. No almoço de segunda feira, já
perto da hora de tirar a refeição, comentei com a imediata. “Pô, esse cara não
vem, ou vai deixar pra vir no último minuto, só pra sacanear?”. “Arthur, o
chefe desembarcou! Foi para a plataforma, o enfermeiro não deixou voltar.
Desembarcou ele. Ele vai é direto pro Rio. Nem vai a médico em Fortaleza.”.
“Ah, é? Também, tanta gente pensando positivo pra ele aqui, com essa coisa da
porta, né? Hahahah.”. E Cabeça arrematou: “é, rapaz. Um não tira todos, mas
todos tiram um.”. “Quero morrer amiga de vocês.”, disse ela.
No outro dia, quem andava
tossindo e de cabeça baixa era o comandante. “Pô, o chefe foi embora, agora eu
é que tô doente.”, e também ficou sumido do navio. Vinte e três pessoas a
bordo. Só os persona non grata doentes. E todas as portas abertas. Foi ótimo.
A
SÍNDROME DO PEQUENO PODER
OU
SEMPRE HÁ UM PEIXE MAIOR
Hoje foi dia de troca de turma.
Saiu metade da minha turma, entrou metade da outra. Antes de desembarcarem, alguém disse: “o
chefe tá voltando aí. E tomou foi um esporro lá no escritório, no Rio.”
É o seguinte: sempre que alguém
desembarca por motivo de saúde, tem a obrigação de ir ao posto mais próximo da
empresa. Lá há um médico da empresa, que
também é médico do trabalho. Esse cara é o responsável por avaliar o quadro do
desembarcado, e dizer se embarca de novo, se precisa de cuidados maiores, se
vai a hospital, ou se volta para casa. Eu que acabei de entrar na empresa sei
disso. O chefe está careca de saber. Só que a sociedade hierárquica onde ele
tem enorme poder é circunscrita ao navio. Essa megalomania de achar que seu
martelo afunda prego em qualquer lugar é a síndrome do pequeno poder. E é muito
comum por aqui. E quem sofre disso se esquece de que sempre há um peixe maior.
Ainda mais fora do seu aquário.
Acontece que o chefe desembarcou
e cagou para o médico do trabalho de Fortaleza. Nem se deu ao trabalho de ir.
Foi a seu médico no Rio, que nem deve ser médico do trabalho, inclusive. Aí foi ao escritório comunicar o afastamento,
levar atestado, e tal. Tomou-lhe uma mijada de alguém que manda mais do que
ele. Quem manda no escritório não é ele. É a hierarquia.
“Ah; deram-lhe um esporro, é?
Então vai voltar manso. Vai ter internet!”. O chefe já está a bordo. Sorri, mas
ainda está rouco. O comandante segue com febre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário