sábado, 2 de março de 2019

Diário de Bordo, 26/02/2019 – A 43 km da Orla de Paracuru – Ceará



O CHEFE DE MÁQUINAS

 GÊNESIS

           Chegar para trabalhar em uma nova embarcação é sempre  parecido. A gente entra sempre com porte de estagiário. Solícito, gentil, mais trabalhador que o de costume. Vê o que há de errado -mas ninguém havia visto - e logo corrige. Não que as outras pessoas trabalhem com desleixo. Mas junto com os anos trabalhados no mesmo lugar, vem agarrada uma acomodação, um estado de costume que embaça a visão. Depois de um tempo é possível caminhar pelo navio de olhos fechados como alguém que encontra o que procura em seu quarto, mesmo no escuro. Para quem chegou há pouco tempo é bem mais fácil detectar os erros. É a hora mais fácil – e a mais necessária – de se mostrar serviço. Talvez eu não tenha trabalhado mais que o de costume. Talvez em todo início seja mais fácil trabalhar certo.

É sempre preciso observar as pessoas. Ainda mais quando você é o outro, o novo, o diferente. Quando você é a notícia é necessário conhecer as fontes, já que todos –menos você – têm o noticiário em posse. Você só começa a fazer parte do grupo quando deixa de ser noticiado e passa a receber as notícias. Por isso mesmo é que existem sempre no mínimo dois grupos em navios: os canelas e os oficiais. Um grupo sempre  noticiará o outro. Existem também os grupos “tripulação A e tripulação B” , podem existir “convés e máquinas” – entre os canelas e/ou “náutica e máquinas” – entre os oficiais , “efetivos e contratados” , “próprios e terceirizados”, “embarcados e povo da terra”.

Quando vem uma notícia nova, o melhor a se fazer é entender de que grupo ela está partindo, em que dialética ela está trabalhando.  Isso porque um único canal de notícia pode pertencer ao mesmo tempo a vários desses grupos. A relação entre quem fala , a partir de que grupo fala, sobre que grupo fala, - e só então – o que fala; é que garante ou não a qualidade, veracidade e importância da notícia.

Essa é a complexidade de uma sociedade pequena como a de um navio. Quem chega e entende isso, sabe que é melhor chegar calado. A sociedade pode ser harmônica – como gostaria Rousseau – ou pode viver em pé de guerra – como tinha certeza Hobbes.  Com dois ouvidos e uma só boca, ganha mais quem escuta e entende em que navio está.

Por sorte, vim para um navio de escala relativamente curta (35x35) e de tripulação extremamente amistosa. É um excelente lugar para o período de experiência. Quando problemas de relacionamento não são cotidianos, menor a chance e cair problema no colo do cara novo. Sorte a minha.

Embora haja sempre tantos grupos de notícias que formam a eterna rádio cipó (em terra, a chamada rádio corredor, ou rádio peão), às vezes você encontra um ou outro personagem que mesmo fazendo parte dos grupos, é alheio a tudo isso. Alguém que acaba integrando os grupos porque o grupo o considera integrante; ainda que, secretamente,  para ele isso não faça a menor diferença. Por aqui somos dois. Eu e o chefe de máquinas.

NO PRINCÍPIO ERA O NÃO-VERBO

A primeira impressão é a que fica. Será? Nem sempre. Se fôssemos pautar nosso tratamento por conta de nossa primeira impressão um do outro, eu não saberia nem a metade do que hoje sei a respeito desse navio e de seus tripulantes. Nem ele teria com quem desabafar sobre sua longa vida no mar.
Não chegou a ser ruim, a primeira impressão. Foi, sobretudo, estranha. Eu estava na copa trabalhando, chega ele. Quem me disse que aquele era o chefe foram seus próprios cabelos brancos; suas rugas. E seu silêncio. Entrou, pegou um pouco de café na cafeteira torre que fica ao meu lado – eu de frente para a pia; de costas para ele- , ficou indo e voltando de um lado para outro.  Cada vez que passava perto da pia, derramava um gole de café dentro dela. E continuou andando e derramando café, até que se acabasse o copo entre goles bebidos e jogados fora. Dei bom dia, ele não respondeu. Jogou o copo fora e saiu, como se ali houvesse entrado e saído em segredo. E como se ainda tivesse certeza de que sua ida à copa seria levada para o túmulo. Era como se eu fosse um gato de comércio, um quadro de consultório médico. Para ele, eu não fazia a mínima diferença no lugar. Ele saiu e eu fiquei pensando se o café que eu havia feito estava com gosto de merda. Até provei. Vai saber, né?

Seus cabelos brancos o denunciavam como chefe de máquinas. Somente o mestre de cabotagem também tem cabelos brancos. Mas é aquele coroa que sorri, fala com todo mundo. Os marinheiros dele adoram o cara. Sendo ele o mestre e, tendo o comandante, cabelos pretos; o outro velho tinha que ser o chefe. Ainda mais depois de seu silêncio que fez parecer que quem ali estava no meu lugar, era alma invisível de Seu Mário, fazendo café mesmo depois de morto.

Entretanto, apesar da velhice característica de um chefe de máquinas experiente, sua figura destoava de seu posto. Chinelo velho, bermuda furada, uma camisa branca lavada tantas vezes que, a estampa frontal tinha jeito já de marca d’água. A gola chegava quase ao ombro, de rota. Vestia-se com roupas que não se deve dar aos pobres.

Fui para a sala de fumar coçar a pulga que ele se tornara em minha orelha. A sala não cheirava a cigarro – indício de que não havia fumantes a bordo. Acendi um cigarro de espantar mosquito – o que se acende e deixa-se quieto no lugar – e quem aparece? Quando colocou o segundo pé na sala e me viu, pela primeira vez seus olhos tiveram vida em minha presença. Melhor; pela primeira vez seus olhos deram a mim, vida. Ele se sentiu desmascarado. Eu, nu. Ele virou as costas e saiu tentando esconder seu desconcerto, ainda sem que eu conhecesse sua voz. Por diversas vezes a cena da sala de fumar se repetiu. Levei numa boa. É nas refeições e durante o trabalho que se deve obrigatoriamente dividir o espaço com os outros. Os poucos prazeres disponíveis por aqui, preferimos solitários.

Chegou uma hora em que ele não tinha mais cara de pau de sair da sala. Retirava um pedaço da ponta do cigarro, acendia, ficava rodando pela sala, apagava o cigarro, saía. Um tempo depois, ele percebeu que se tornara meu quadro de consultório. Foi quando começou a se sentar no sofá, de frente para a cadeira onde eu me sentava.

A marinha tem dessa palhaçada de que o oficial não tem braços. É a falta de braços dessa galera que me dá emprego. Então eu tenho que botar mesa, trocar roupa de cama, levar cafezinho, tirar lixo dos camarotes, enfim; eu sou a mãe desses caras. E foi em uma visita ao camarote do chefe que eu descobri como fazer o velho falar.

O VERBO ESTAVA COM DEUS, E O VERBO ERA DEUS. O VERBO ESTAVA COM ELE DESDE O PRINCÍPIO

De tempos em tempos eu devo ir ao camarote dos sem-braço dar um tapa na limpeza, na arrumação. O do comandante é muito limpo, não deu problema. Imediata mulher; prefere que eu não entre, só em último caso. Amén. O chefe é um pouco mais bagunceiro, mas nada demais. Um escritório na entrada do camarote com sofá, computador, frigobar, escrivaninha. E uma porta que dá para o dormitório. No meio da porrada de remédio que velho tem que tomar, meus olhos brilharam. Livros, vários livros. O primeiro e mais importante, Confissões – Santo Agostinho. Os textos sobre filosofia que volta e meia escrevo e entitulo “solilóquios” são por causa desse cara e de sua escrita magnífica. Muita pretensão de minha parte, sem dúvida. Vamos fingir que vocês continuam sem saber. Ao lado de Agostinho, Thomas Skidmore,  o que foi uma surpresa muito maior uma vez que alguém aí sabe quem é Thomas Skidmore? Pois é. O chefe de máquinas sabe, miserável. Ken Follett. E outros. “Porra, o coroa não é de bobeira, não. Mas esse filha da puta vai falar vai ser agora. Vou acabar aqui e vou ficar esperando na sala de fumar.”

“Ô, chefe. Bom dia!”. Ao que ele respondeu fechando os olhos ao mesmo tempo que fazia que sim uma vez com a cabeça. “Chefe, o senhor me perdoe parecer intrometido. E no final das contas, o que eu vou falar não vai fazer diferença nenhuma na sua vida, mesmo. Mas porra, o senhor lê bem pra caralho, hein?” E seu cenho franzido se converteu imediatamente em cara de pai que vê, escondido, o filho dar voluntariamente um pedaço de seu lanche a alguém que esteja com fome. “Agora você vai falar, né, desgraçado?”- pensei.

E assim foi. “Ah, eu leio tudo. Todos os livros que tem aqui a bordo eu já li. Os bons e os ruins. O pessoal aqui usa livro como apoio pro celular. Já viu nas janelas aí? Empilham quatro, cinco livros e põem o celular em cima, pra pegar melhor o sinal. E pronto. Tem que ler mesmo, rapaz. Te leva pra longe disso tudo aqui. Aí o embarque passa rapidinho, que você quando vai ver, já leu três, acabou o embarque.”. “Eu vi lá, quando fui limpar o camarote. As Confissões de Santo Agostinho é sensacional, né? Os primeiros capítulos são um absurdo, a escrita do cara. Depois ele vai contando que era mó maluco, vivia enchendo a cara, na sacanagem. E aí depois virou santo. Tem jeito pra nós, né? Ahahahah.”. “Esse livro tá lá? Tem tempo que li. Mas é muito bom mesmo.”. “Ken Follett, maneiro também. Escreve muito sobre” – “espionagem” - “exatamente. Mas o que eu achei mais legal dele é o Pilares da Terra.”. “Ah, esse eu tenho em casa, bom pra cacete mesmo.” “Eu tenho aí no HD a série de tv, se quiser passo pro senhor.” Ele fez cara de “como assim? “ – “É, pô. Fizeram uma série de oito episódios. Excelente.” “Ah, eu quero sim. A gente estava pensando no que ia assistir agora; então vai ser o pilares da terra. Todo dia , sete horas da noite a gente assiste filme lá no auditório. Vem também! Passa o filme pro mecânico, que a gente liga o projetor no computador dele.”
            
            Eu não fui. Passei o filme pro mecânico, mas não fui. Já assisti pilares da terra duas ou três vezes; chega. Mas a questão é que Santo Agostinho tinha feito o chefe falar. Fez até ele me convidar pra ir assistir filme. Quando terminaram a série, comentei que eu também tinha “Mundo Sem Fim”, também do Ken Follet, 200 anos depois da história de Pilares da Terra. Emendaram. Aí, todo mundo queria ver meu Hd, pra pegar o que mais havia nele. Nessa, também peguei o que cada um tinha. Ser bem visto pelos oficiais da administração faz com que sua esfera de ação possa aumentar significativamente em um navio. Pode-se ser político com cada tripulante e ganhar sua afeição. Pode-se ganhar a afeição da administração e de quebra receber o respeito de todos. Pra mim só serve se houver os dois. Graças a Santo Agostinho e a Deus, fez-se o verbo.
               
O CHEFE PELOS OUTROS

Você que está lendo e é terráqueo, sabe que seu trabalho é uma roça. Todo mundo fala de quem não está no momento. E olha que ninguém mora junto. Realiza essa ideia. Morar com seus colegas de trabalho. Passe uns cinco minutos pensando sobre morar com todos eles. Da tia da limpeza ao gerente geral, o diretor, o diabo. É assim. Só que aqui, você ainda tem informação deles através de outros que com eles já moraram em outros navios, ou que aqui já estiveram e já se foram. Aqui, todo mundo tem passado.

“Rapaz, esse chefe aí é foda. Tu vê que ele anda igual a um mendigo, né? Pois esse puto tem é dinheiro. Ele era da Petrobrás. Aí aposentou por lá. Criaram a FRONAPE, ele foi. Ciaram a Transpetro, ele veio. Ele ganha pela Petrobrás, pelo INSS, pela Transpetro, e ainda tem a Petros, a nossa previdência privada. É dinheiro pra desgraçar.”

“Oxe, ele é acionista, rapaz, da petobráis. Ganha uma ruma de dinheiro aí de ação, sabe de tudo antes de todo mundo.”

“Lá na sede tem bem assim uma sala que na parede tem uns quadros, num sabe; com as fotos dos oficiais que embarcaram por mais tempo na empresa. Ele é o segundo que embarcou por mais tempo. Faz bem uns quarenta anos, ó macho! Caba tem uma moral da porra na empresa.”

É claro que os principais depoimentos sobre o chefe eram sobre dinheiro.  Em uma função na qual a média salarial já é nos arredores dos vinte mil reais, o assunto sobre uma pessoa que tem essa, e pelo menos mais três rendas vai mesmo girar em torno disso. Fora que esses caras têm imóveis alugados, né? Outras ações, às vezes empresas... “Arthur, o rio só corre pro mar”, me disse certa vez um chefe de máquinas que trabalhou comigo em outra empresa, quando falava-se também em dinheiro. Mas eu me interessava sempre mais pelo velhote, porque os comentários sempre vinham acompanhados de grandes elogios a sua pessoa, seu proceder. E nossas conversas sobre literatura sempre confirmavam os comentários sobre ele. É mesmo um cara de virtude.

ANIVERSÁRIO DO CHEFE

No meu primeiro embarque por aqui, o chefe fez aniversário. Sempre tem “aniversariantes do mês”, aí é uma festa pra todo mundo junto, que nem eu nem os cozinheiros tacamos pedra na cruz. Mas dessa vez, foi no dia mesmo do aniversário dele.  Aí aquela coisa, presente, parabéns, bolo e guaraná, muito doce pra você. Aí, como era o dia dele, pediram discurso.

 “Queria agradecer a todos que estão aqui comigo hoje, ao universo por me proporcionar o prazer de poder ainda estar trabalhando, piriri, pororó.”. Respirou fundo, seus olhos ganharam o horizonte. Agora ele não mais discursava: estava orando em público - “eu estou hoje completando sessenta e cinco anos. Cheguei ao final da expectativa de vida (seus olhos miraram o chão, ele deu de ombros com palmas paralelas ao teto, dizendo com o corpo: “fazer o quê? “) , mas se eu puder fazer um pedido; peço mais cinco anos de vida, se o universo me permitir.”. Sua voz sofreu a interferência que causam sessenta e cinco anos passando de uma vez pela garganta, e tremulou. Uma pequena amostra de toda água salgada que já havia rodeado a vida desse homem brotou em seus olhos, confirmando que o mar estaria com ele até o fim. Ao estilo dos senhores gentis, botou a mão direita sobre o peito, levantou a esquerda em aceno, balançou a cabeça que sim enquanto bruxuleava um sorriso que era resultado da luta entre a satisfação do vivido versus a reflexão sobre o fim iminente da vida. Todos aplaudimos.

Naquele instante eu me tomei de admiração por ele. Alguém em sua idade, com seus recursos e as opções por eles possibilitadas, ainda trabalhando. Talvez, por isso mesmo sua gentileza. Você tem certeza que alguém faz o que quer da vida, quando o faz sem nenhuma necessidade, mesmo depois de aposentado. Assim vivem os artistas. “O mundo não será feliz a não ser quando todos os homens tiverem alma de artista, isto é, quando todos tirarem prazer do seu trabalho.” – Já disse Auguste Rodin.

Quando o chefe fez seu discurso, eu não vi ali um Oficial Superior de Máquinas de enorme currículo. Não vi alguém que havia viajado o mundo navegando a trabalho. Não vi alguém que sucessivos diretores da empresa conhecem pelo nome. Ali eu vi apenas um homem feliz com a vida que levou. Esse é um homem que entendeu a vida. Eis a importância da leitura na vida de um ser humano. A chance de a vida ser em vão é maior demais aos que não leem. Mas é preciso ler para disso ter consciência.

OS OUTROS PELO CHEFE

Com o tempo, as conversas foram diversificando. E sem que eu perguntasse, ele começou a falar das pessoas de bordo. Eu havia dito anteriormente que dedicaria um texto ao chefe, uma vez que ele é o personagem mais importante daqui. E ele é o mais importante, pois foi ele quem me possibilitou ter escrito sobre os outros. Ele é a principal fonte de construção dos outros personagens. Ainda bem que ele nem desconfia disso.

“Aqui, rapaz, esse poço aqui é uma merda. Já tentaram vender isso pra todo mundo, ninguém quer comprar. Já deu o que tinha que dar. Aqui faz o quê? Cinco mil barris/dia. Não é porra nenhuma. As plataformas, você vê que têm pessoal reduzido, uma está praticamente desativada. Esse campo aqui tem é função social. A empresa tem gente pra trabalhar, então continua por aqui.”. “Mas porra, chefe, então não dá lucro?”. “Dá, porra. Lucro dá. Mas é pouca coisa em relação ao pré-sal. O interesse da empresa é o pré-sal, ué. Petróleo pra caralho... mas pra eles é bom aqui. Aqui eles botam todo mundo que eles não querem em outros lugares.”. “Ih, como que é isso?”. “Todo mundo que tá aq.. todo mundo não, uma porrada de gente. Já fez merda, ou é maluco. Saporra é um hospício, rapaz. Junta todo mundo aqui que toma tarja preta que você vai ver, hahaha.”

Você nunca sabe onde está, até que alguém mais antigo te mostre. Por isso, o que não é dito é sempre mais importante até do que o que é visto. Daí a importância desse velho. Ele veio me contar de graça o que os outros personagens acham desnecessário que eu saiba. É ótimo fazer amizade com alguém que já vai morrer mesmo, então está cagando para o que os outros acham. “Aqui tá todo mundo de favor. O fato de esse navio aqui ficar amarrado e não navegar, salva a vida de muita gente! Aquela menina da máquina. Você vê que ela não bate bem, porra. Ela não pode navegar, que dá merda. Tarja preta. A imediata, tem os problemas dela, tá aqui de favor. As duas imediatas estão. A da outra turma saiu daqui chutada. Depois de um tempo, não tinham onde enfiar aquela porra; voltou pra cá. Mas voltou mansinha, bola baixa. Os dois comandantes aqui são novos; chegaram esse ano de 2018. O da outra turma é aquele negócio de síndrome do pânico. Se tranca lá no camarote e fica gritando “eu não queria estar aqui, porra!”, a gente ouve tudo. Tarja preta. “. “Puta merda, só tem piroca! Aí, chefe. No natal, o comandante disse que o início do ano foi ruim pra ele, aí mandaram ele pra cá, estava se reerguendo, e tal. Qual é a dele?”

“Puta, coitado. Esse estava no longo curso. Quando chegou na costa leste da África , inventou de tocar um exercício de incêndio e abandono. Só que, duas coisas. Em navegação de longo curso, não é obrigado ter exercício. E ainda mais na África, porra. Um mar filho da puta de ruim, e aquela porrada de pirata, né? Mas ele resolveu fazer assim mesmo. Se fodeu. Veio uma onda, mas uma onda daquela que atravessa o convés todo e a crista nem bate no chão. Passa toda por cima do navio. Poooorra, mas foi gente voando pelo convés, teve nego que ficou agarrado assim nos ferros com as pernas pra fora do navio, cara. Foi foda. Não morreu ninguém, mas podia ter morrido gente pacaralho, né? Aí até agora ele tá respondendo aí uma porrada de processo. Passa dias sem dormir. Tarja preta. Você vê que ele é gente boa, mas fez merda, né?”

Eu vi que nunca mais olharia pra nenhum deles da mesma maneira. “E você, chefe? Tu é maluco? Ou fez merda?”. Ele olhou, sorriu e disse: “não, porra. Eu sou é velho, né? Eu estou aqui porque eu quero. Se me tirarem daqui eu vou-me embora pra casa. Já chega de navegar pra longe. Quero trabalhar, mas com tranquilidade.”. Eu olhei de soslaio, sorrindo e sacaneando: “uhum. Tá bom, então. Tu é o único santo aqui da história.”

VELHO

É velho e ainda é velhaco. Mas no bom sentido da velhacaria. Ele entende que as diversas pressões que aqui atuam, mais especificamente as psicológicas, precisam de uma válvula de escape. E ele acha um barato ser esse agente de descompressão. “Eu gosto de contar piada de velho na mesa. Mas aí eu falo que o velho da piada sou sempre eu. O pessoal adora, ahahahah. Eu mesmo me sacaneio, que aí eles ficam felizes, eu não ligo, não. Você conhece a história de Sansão?” . “Ué, o da bíblia? Sim, pô.”. “E do magnífico Sansão? Hááá”. “Hahahaha, esse não, conta aí.”. “Numa cidadezinha que o cara estava visitando tinha lá uma casa de show, com o letreiro em cima: HOJE, SHOW DO MAGNÍFICO SANSÃO. Aí ele foi ver. Chegou lá, entrou um cara no palco. Aí botaram lá três mulheres. Ele cacetou a primeira, pá; (quando dizia pá, estalava o dedo indicador no médio, como se faz com o termômetro), a segunda, pá; a terceira, pá! Nego “’óóóóó”. Aí, botaram lá uma mesa. Na mesa, botaram três nozes, uma do lado da outra (aqui eu já dei uma gargalhada). O Sansão veio com a chibata e pá (agora fazia como se estivesse usando um machado, uma marreta), pá ,pá! Nego “óóóóóó”. Aí, quando foi trinta anos depois, o mesmo cara voltou na mesma cidade, e viu lá o mesmo letreiro: MAGNÍFICO SANSÃO: 19:00HS, 20:00HS, 21:00HS, 22HS (poooorra). O cara disse “porra, não é possível, deve ser o filho do cara.” , e entrou. Entrou no palco um velhinho, era o mesmo cara! Aí botaram CINCO mulheres, ele pá! Depois vieram com três CÔCOS! Pá, pá, pá, ainda dava o côco de presente para a plateia. Quando acabou, o cara foi lá falar com ele... “Magnífico Sansão, como que pode, cara. Tem trinta anos que eu vim aqui, como a velhice não te afeta, porra?” – “Não afeta é o caralho, tem cinco anos que eu deixei de enxergar as nozes!”. Velho contando piada de velho é engraçado demais...

DEIXA EU BROXA, MESMO

O café da manhã é sempre a refeição mais divertida do dia. Já era assim em outras empresas, em outros navios. Continua sendo também por aqui. O horário de serviço do café é às 06:30 e finaliza às 08:30. Esse é o horário oficial. Mas eu prefiro acordas antes das cinco. Assim, sirvo o café antes das seis da manhã, fazendo tudo sem correria. Três ou quatro tipos de fruta, cinco variedades de pães de forma, quatro tipos de frios, quatro tipos de queijo, requeijão, iogurtes, café preto, leite quente, bolo, um batido de leite gelado: seja vitamina de abacate (abacatada, por aqui), banana com aveia e mel, frappuccino, kiwi ao leite, ou mesmo um nescau gelado. Para quem quiser, estão disponíveis também granola, aveia, mel, ovomaltine, leite em pó. Os cozinheiros preparam aqui um prato quente. Cachorro quente, ovo mexido, canjica, várias coisas. Quando cheguei aqui achei pouco. Na última empresa que trabalhei, eu fazia o café da manhã todo sozinho. E fazia três opções de pratos quentes, fora todo o resto. Eu não falo nada porque é bem capaz que sobre pra mim.

É comum que antes das seis eu já esteja me servindo para comer; não sem antes sair do refeitório, ir à sala de TV, ao lado e dizer: “bora!”. Ali normalmente já estão aguardando Bira e Moisés, os marinheiros de convés. Dois coroas. Moisés é de Fortaleza;  enorme, parece um armário. Expressão sempre séria, voz de trovão, olhar retilíneo, pele marrom avermelhada.  Não vale porra nenhuma; é um sonso. Só se faz de sério, mas é uma grande criança. Cabeça grisalha raspada a máquina 4, talvez. Fica com o cabelo espetado, como os japoneses de cabeça raspada. Era da marinha de guerra, serviu no Rio. Seus caninos inferiores são projetados à frente dos demais, e aquilo me dizia que ele parecia com algum personagem de desenho animado. Depois de uns dias, percebo. Pumbaa, o javali. Bira é de Natal; pescador daqueles brabos, que cambou para a marinha mercante, e hoje tem uma vida sossegada. Mais de cinquenta anos, mas forma física melhor que a minha. No meu primeiro embarque aqui o moço de convés que era contratado falou pro Bira que eu era viado e gostava dele, ahahahaha. Eu batia o abacate com leite, botava na mesa e dizia que quem quisesse beber  tinha que pedir ao Bira, porque era dele. Quem pedisse alguma coisa que não estivesse à mesa, deveria pedir ao Bira. Aí eu buscava. O coroa ficava vermelho, que quase explodia. Até ele acreditar que eu não era viado, levou tempo.

A gente se senta , se serve. Começa a sacanagem. “Cabeeeeça, meu amigão, cadê você?” . “Tô aqui, meu amigão! Bom dia!” . “Ó, Cabeça; o Moisés tá aqui dizendo que você só faz bolo pro mestre, que se der um chute no saco do mestre, quebra três dentes teu!” . “Eu não acredito em vocês, não. Vocês querem estragar minha amizade com Moisés, mas não vão conseguir, né, Tio Môse?” . “Tá vendo aí, né, Cabeça... esses cara não podem ver ninguém tratando o outro bem.” Cabeça volta para a cozinha, e Moisés diz pra nós: “essa peste desse bolo véio ruim da porra, rapaz...” e ri. “Aqui Cabeça! Falando mal do seu bolo!”. “Bira, já disse que eu não acredito em você!” ; e todos rimos.

Esses dias, o papo que rolou no café da manhã foi viagra. Todo mundo sabe tudo de viagra. Você só não encontra quem já tenha tomado... né? “Os velhos lá da Roca, em Natal... morreu bem uns quatro já. Por causa de viagra! Toma toda hora, com cerveja ainda. Com cachaça, com o que for. Tá tudo morrendo lá.”

Entra o chefe de máquinas, se serve, senta e ouve quieto. “Rapaz, teve um lá no Mucuripe que tomou mais de um; com cerveja também. Ficou com o lado direito do corpo todo duro; menos a chibata. Ó!”. E eu comentei: “mas porra, viagra não pode tomar bebendo, pô. Tem uns outros aí que a galera fala que pode beber, que é tranquilo. Qual o nome , mesmo?” Todos , ao mesmo tempo: “NÃO SEI, não sei.”.  “A gente não toma isso, não. Vê o mestre: quase setenta anos. Treze filhos. A mulher grávida de quatro meses.”. “Tá de sacanagem que o mestre tem TREZE filhos e tá vindo outro!? Puta que pariu, esse é tarado mesmo; vá comer feijão com farinha por cinquenta anos todo dia na casa do caralho, malandro.”. Assim são os cafés da manhã. Antes do horário oficial chegar, já começamos o dia brincando entre amigos, sem supervisão de oficiais. É uma das horas de maior liberdade no embarque.

Cigarro depois do café, entra o chefe. “Esse negócio de viagra é perigoso, mesmo.”. “Ué, chefe, toma do outro, pô.”. “Não, eu não tomo isso não. Tô falando por esses caras que bebem pra caralho e tomam isso. Eu falo pra todo mundo aqui que eu sou broxa, mas não sou porra nenhuma, não. Tinha um comandante aí que faltava cair da cadeira de tanto rir, quando eu dizia que era broxa. Aí eu falava “vai, sua vez vai chegar!”, e ele se cagava de rir. Mas porra, não fala pra ninguém que é mentira minha não. Pra todos os efeitos eu sou broxa. Gosto de fazer eles rirem. Eles ficam menos tensos. Tem que ter alguém pra alegrar essa cambada de doido...” . “Hahahahha... chefe, tu é o melhor que tem aqui! E esses caras nem imaginam o quanto que tu é pilantra. Ainda por cima faz cara de velho, aí passa batidão. Tu é velho, mas aqui conversando comigo tu não faz a cara de velho que faz pra eles, lá fora. É, vai pensando que eu sou trouxa.. ahahahha.” . Ele simplesmente sorriu com os olhos apertados, cheios de juventude.

Em cima de navio, você conhece umas pessoas que te marcam das mais variadas maneiras. O chefe Alvarenga vai ficar como um dos caras mais simples que passaram por minha empreitada marítima. Um homem que teve um momento sagrado em seu aniversário, despindo-se de todas as posses e posição, tendo uma atitude linda perante a vida. Dificilmente esquecerei o chefe e seu aniversário de sessenta e cinco anos. Parabéns, chefia. E salve Santo Agostinho.

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