Tenho escrito já há algum tempo
sobre um modelo colaborativo de sociedade. Provavelmente, muitos dos que lerão
esse texto já conhecem alguma coisa a respeito. Caso não conheça, avise que
mostrarei o que escrevi. Em um futuro não muito distante, tudo será condensado
de maneira que o entendimento das partes não seja prejudicado. Segue mais uma
parte que integrará esse futuro todo.
Quando o leitor entende e percebe
como totalmente possíveis as bases do
modelo colaborativo, sente que sem sombra de dúvida as dificuldades da vida
serão diminuídas na mesma medida em que o prazer de viver será multiplicado. Em uma sociedade onde as pessoas trabalharão
com o que melhor sabem fazer, o trabalho sempre será prazeroso. Daí que todo
trabalho será um presente. Tanto para o trabalhador quanto para o consumidor. Isso
eleva o trabalho à categoria da arte.
O leitor que concordou até aqui ,
ou o que sentiu entusiasmo com essa proposta, sente-se assim porque entende em
maior ou menor grau que, o progresso no modelo todos-por-todos é inevitável. As
células do seu corpo trabalham nesse modelo. As da árvore também. As marés, a
posição da lua, o sistema solar, o universo. Nada existe por si só. Tudo está
em relação a alguma coisa.
Somos todos grãos de sal no
oceano que é o planeta Terra, e a única coisa em que concordamos é que cada um
de nós é o centro do mundo. Reflita. Em última análise, é o mercado quem nos
faz concordar aqui. É o motivo financeiro o responsável por criar e resolver os
seus problemas. Ele faz um grão de sal se entender oceano. E no entanto, estamos todos ilhados. Olhando
para nós mesmos, nem tomamos conhecimento que além do outro, está ao nosso lado
todo o resto de tudo o mais.
Orgulho
Achamos que temos o poder de ser
produto final. Não entendemos que somos célula de organismo maior. Acreditamos
progredir, mas estamos estagnados. Estudamos a sociedade, mas devemos nos
abster dela para que nos entendam cientistas.
Cegueira
A sociedade não melhorará quando
cada um melhorar ou estiver bem de vida por si só. Na realidade, o capitalismo
não propõe isso. Ande dez quilômetros a seu redor e comprovará. A ideia capitalismo
não comporta a ideia igualdade. Só haverá melhora na qualidade de vida do
planeta quando todos melhorarem junto. Uma mudança em bloco. Tal objetivo só se
alcança partindo de uma mudança de consciência.
Organismo
A consciência passa então a ser
orientada para o outro. Cada um é o outro para todos os outros. Aqui começa a
igualdade. Claro, no capitalismo cada um é outro para todos os outros, e por
isso mesmo todos são inimigos em potencial. A diferença é que, enquanto no
capitalismo estamos em oposição ao
outro, no modelo colaborativo estamos em relação
ao outro. A oposição também é uma relação. Mas é uma relação negativa. A
relação do modelo colaborativo é positiva, pautada na resolução das carências
do outro. É estar em função do outro. Todos temos carências que não podemos resolver, enquanto sabemos e
podemos resolver carências que não temos. Qualquer sociedade se encaixa nessa
proposta. Porque toda sociedade é um conjunto de homens. E a todos os homens
falta alguma coisa.
Questões
Em hora nenhuma parece vergonhosa
(pequena, bitolada, incompleta) a vida que se leva hoje? Devemos mesmo morrer
cheios de boas intenções? Será mesmo a vida, acordar todos os dias pensando no
fim do mês? Será mesmo alegria , beber muito e ouvir música (“”) alta para que
não escutemos o barulho de nossa consciência?
Confissão
Me sinto amarrado aqui onde
estou. Me sinto fazendo pouco demais, sendo pouco demais. Sinto isso em mim e
em todos os outros. E sinto em dobro pelos que não sentem isso. A prática da alteridade
é a chave do cofre no qual trancamos nossas vidas. O mercado exige que vivamos
em função dele, para que em um dia que não chegará, compremos a chave dele (o sucesso), abramos o cofre e tomemos nossa
vida para nós. E vivemos sem a vida, com base nessa ilusão. Porque o sucesso é
cópia mal feita da chave da vida, não abre o cofre. A chave sempre andou com
cada um de nós. A questão é que a chave que abre seu cofre está com qualquer um
dos outros. E você tem a chave para outros cofres, muitos. O mercado é quem nos
faz tentar construir sozinhos uma chave, que é simulacro. Nos afasta do outro
para que não obtenhamos nossa chave verdadeira. E o ciclo parece inquebrável.
Síndrome
É a sua resistência em mudar de ideia.
É o tempo que você não pode perder. Fim do mês está chegando. O mercado está
ruim. A taxa de juros subiu. As pessoas só te atrapalham. Poxa, desculpa: hoje
não vai dar. Está difícil para todo mundo. Só acontece comigo. As perguntas e
afirmações feitas aqui não são minhas nem suas. São de nosso tempo. De todos
nós.
Não, você não está sozinho. Você
só não está (ainda) em função dos outros.
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