Talvez fosse uma terça-feira. Mas
ele não se alarmou, já que tinha jeito de sábado. Com a mesma calma do mar do
horizonte continuou na cama, olhando o lado de lá da janela da mesma maneira
que um gato deitado de olhos abertos parece olhar lugar nenhum.
Mas
olhava alguma coisa. Olhava e também via, uma vez que ver é quando o olhar é
aliado do entendimento. O que via? Via como as mangueiras e as palhas do
coqueiro balançavam na parte mais alta do bairro, embora as roupas no varal não
denunciassem nenhum vestígio de vento.
Percebeu que o ipê vermelho tem
madeira mais dura, uma vez que no mesmo lugar, quase não balançava. Entendeu
que as folhas da mangueira aproveitavam melhor o vento que as roupas do varal,
pois a obra do homem nunca alcançou a simplicidade desinteressada da obra da
natureza. Talvez o próprio vento preferisse as plantas. A César o que é de
César.
Por esse instante seu olhar
deixou de respeitar o tempo. Conseguiu dar a um segundo a temporalidade da
longa duração. Nesse exato momento sentiu que por sua própria vontade, a
ampulheta que era sua vida tinha sido colocada na horizontal. Assim como o
leitor, ouviu o silêncio. Era o prenúncio de uma verdade absoluta, das que só
nos são dadas conhecer perante o recolhimento total da consciência.
Agora era óbvio. Cada uma em sua música as folhas balançavam,
pois tinham com o vento uma relação recíproca de vontade, ou necessidade, ou
identidade. O vento só se reconhecia vento quando usava o instrumento árvore
para tocar a sinfonia do farfalhar. A árvore sem o vento nunca se faria
presente alhures, e não existiriam histórias sobre as mangueiras. As árvores
não estão em todas as histórias, mas pense; quando a primeira história foi
contada, já havia uma árvore pra contar história. É bem possível que a primeira
história tenha sido contada embaixo de uma árvore.
Por isso as roupas estavam
inertes. Que é uma roupa para todo o vento? Se a roupa tinha alguma relação com
a força viva da natureza, talvez fosse com o sol. Sem sorte de dúvida, muito
menos por vontade sua que por onipresença dele. A prova disso é que quando
saísse do varal, a roupa estaria quente, enquanto perto da árvore a temperatura
era mais amena que no resto do mundo. A árvore está para o vento assim como a
roupa está para o sol.
Ainda era silêncio no mundo de
seu pensamento. Quanto mais durava aquele instante, mais significado tinha o
mundo, menos importantes eram seus sentidos, mais parte da natureza ele sentia
fazer, na proporção que fazia menos parte da linha do tempo. Talvez fosse mesmo
sábado, mas ele já sentia domingo em seu espírito, que tinha saído de férias. Tanto
durou aquela gota de tempo que seu entendimento atingiu o microscópico. Foi
então que ele viu o vento pela árvore. Foi aí que viu a árvore pelo vento. Viu
o sol regendo a orquestra da vida na Terra. Viu o indizível, que não cabe em
nenhum idioma conhecido, já que o sentido das palavras é obra da criação do
homem. Ele viu uma planta crescer.
E o vento sacudiu a roupa no
varal.
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