domingo, 17 de janeiro de 2016

Diário de Bordo 08-09-15



Hoje eu deveria desembarcar. Não aconteceu. Não fomos ao porto. Nesse caso, eu deveria ser transferido para um navio plataforma via cesta.

O guindasteiro de lá desce uma cesta feita de corda e em forma de árvore de natal no nosso convés , eu seguro nas cordas e ele me leva até a outra embarcação. Eu fico a uns 10, 15 metros do chão. Ou melhor, da água. Entre os costados dos dois navios a contrabordo. Mas não aconteceu. Ventava demais. O limite para essa manobra é 21 nós de vento. Estamos com 35.

Sacanagem. Peguei as cascas de fruta que cortei às quatro e meia da manhã para o café, e mais uns frios e embutidos velhos para jogar no mar. Fiz isso mais pra testar o vento. Realmente tava ventando pra cacete, tudo o que eu joguei voltou pro convés. Se eu estivesse na cesta, poderia ter porrado nos navios. Ficaria balançando, pendulando, voando de um lado para outro no suspense de bater em uma embarcação ou na outra. Tempão que não ando em brinquedos de parques de diversão. Deixa eu ir lá limpar aquela cagada.

Mar engrossando. As lixeiras, atadas na parede por um extensor, andam de um lado pro outro, o dia inteiro. E assim fazem todas as caixas do paiol seco, atrás da taifa. E assim faz tudo o que tem dentro delas. Assim também as cebolas, batatas, melões, as melancias que caíram com o balanço e racharam, o refogado que se mistura sozinho no vaivém. .. assim fazemos todos nós.

Estamos balançando muito, mesmo sem navegar. Vindo da câmara fria para a cozinha, olhei para a frente. No final da cozinha, acima das lixeiras que andam para lá e para cá, há uma vigia. Senti uma pressão nos joelhos, as pernas dobrando, dificuldade de andar para frente. A cozinha virou uma ladeira com im ângulo de uns 30 graus. A antepara da vigia está para a proa. Pelo vidro da vigia, vi apenas o céu cinza. Contei 1,2,3,4,5,6,7. Sete segundos, foi o tempo do mar levantar a proa, dela apontar para cima, do refogado vir para trás, e de, finalmente, o mar voltar a aparecer pelo vidro. Sete longos segundos. Enquanto a proa descia, meu corpo ficou mais leve, e eu desci quase que correndo até a metade da cozinha.

Esse movimento do navio quando a proa sobe e desce; quando é natural é o jogo. Quando é forte, é chamado de caturro. E hoje estamos caturrando. E não tem tempestade lá fora. Não tem problema. No final do caturro, quando a proa bate na água, o barulho que faz no navio é o mesmo de estar dentro de uma nuvem de tempestade. O som é amedrontador. Por um segundo dá a sensação que o casco está partindo ao meio. Aí você espera mais uns dez segundos pra ter certeza de que não precisa vestir colete, dia que segue.

Entrei no camarote para o descanso da tarde. Parece que fui assaltado. Tudo foi revirado. Logo mais pode ter inspeção, vou arrumar antes de dormir. Quando consegui deitar, o navio ainda caturrava. Deitado a vibração aumenta. Quando batemos na água novamente, deu pra sentir a vibração das cavernas do navio, se mexendo para anular a força do impacto. Ontem à noite, na sala de estar, um caturro forte fez as cavernas mexerem tanto que deu pra ver a sala inteira ficando em forma de ferradura , e voltando ao normal depois. Consegui perceber porque olhei para o fundo da sala, e vi que a antepara estava voltando para trás.

As condições do tempo devem melhoras em cinco ou sete dias, e talvez eu vá pra casa.

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