domingo, 17 de janeiro de 2016

Diário de Bordo 30-12-15



Dois mil e quinze. Um ano montanha-russa. De Janeiro a agosto desempregado. Outubro, desempregado. Outubro, empregado. Embarcando em um navio que por pouco não afundou com suas 650 toneladas de óleo na baía de Guanabara. Sobrevivemos, eu e o navio. Depois de 28 dias, ainda fiz mais 17 em outro barco. O companheiro de trabalho de então se acidentou e eu assumi o setor. Graças a Deus deu tudo certo. Desembarquei e, nove dias depois me mandaram pra Santos, para buscar o navio novo da empresa, que estava em processo de finalização e entrega.

Tudo correu bem por lá. Recebemos as chaves em 23 de dezembro e zarpamos para a mesma baía de Guanabara do quase acidente. Chegamos em uma véspera de natal linda, que dá vontade de emoldurar as fotos. E todos os dias têm sido lindos, celestes, divinos. Mas em algum lugar há um portal aberto, por onde o fogo que sai lá do inferno, do centro da terra, do Tártaro mitológico, sei lá de onde; queima invisível o ar tão celeste e lindo nas fotos, o nosso corpo, a nossa mente, os nossos mais recôntidos pensamentos secretos, a nossa paciência, o nosso sono merecido, a água do chuveiro, o gelo que não dura.... O caralho a quatro.

Tá quente pra diabo.

Entrou água salgada no sistema do ar condicionado.

Estamos sem ar condicionado.

Tá quente pa caralho.

Eu trabalho na cozinha, e como não podemos ter fogo por lá, o fogão é de chapa elétrica de cerâmica. Ela demora um pouco a ganhar calor. Também, depois que ganha, negão... dá pra fazer café com a chapa desligada. Estamos sem ar condicionado. E tá quente pa caralho. Fogão, forno, chapa, fritadeira. A cozinha chega a 50 graus fácil, e em minutos. No jornal, a repórter diz que no termômetro, 36. Mas na sensação, 55. Perguntei pra tv qual a sensação de onde o termômetro diz 50. A repórter fez que não ouviu e começou a falar de futebol. Filha da puta. Quente pa caralho...

Toco de roupa 3, 4 vezes ao dia. Alguns não tripulantes que vêm a bordo com alguma finalidade, seja documentos, pintura, materiais ou qualquer outra coisa, olham pra mim na cozinha com pena nos olhos quando me vêem com a roupa grudada no corpo. Faço cara de brabo...ahahahaha

Dormi no convés. Papelão no chão, coberto com o edredom, travesseiro, samba-canção, eu. Azar que vai sujar o edredom novo... Nas adversidades mudam-se as prioridades.

Trinta de dezembro. Amanhece tudo igual. O mesmo divino-diabólico entre paisagem e temperatura que poucos lugares no mundo oferecem. Já faz 7 dias. A mente e a impaciência já esfriaram, tamanha a adaptação do ser humano. O mantra é "fazer o quê?".

Trouxeram aparelhos de ar condicionado portátil, daqueles que esfriam pouco o ambiente, mais esquentam pra ceceta o duto de saída. Dentro do camarote a noite é um pouco menos insuportável. Mas, como não tem onde enfiar o duto de saída de ar quente....tá tudo pro corredor. Ou seja, os corredores estão quase na mesma temperatura da cozinha. Os corrimãos são de metal. Melhor não encostar.

Hoje, depois de várias inspeções e auditorias que fizeram todos trabalhar até bem mais tarde e sem descanso, consegui tirar uma hora e meia depois do almoço pra dormir. Precisava. A desidratação constante na cozinha e as noites mal dormidas trouxeram um cansaço exponencial. Fazia o mesmo sol. Quando acordei, senti o navio adernado (tombado) a boreste. Deixei pra lá. "Vou fumar um cigarro e voltar a trabalhar".

Desci as escadas, entrei no corredor de acessovao convés. Dois marinheiros passaram por mim. Água pingando pelos queixos e macacões. Olhos arregalados. Nenhuma palavra. Foi quando olhei pro final do corredor; o convés. Um vento miserável, chuva muito grossa, daquelas de cair barranco. "Caralho, eu dormi por quantos dias?" Só depois percebi. A primeira chuva de verão. Vento: 64.7 nós. Quase 130km/h. A baía é rasa e o fundo é cheio de lama. Ruim de fundear. Estávamos sendo levados pelo vento e pela maré, de encontro a outro navio.

O comandante entrou em contato com o do outro navio, pelo rádio. Os dois ligaram os motores. O nosso contra o vento, o deles a favor. Ainda assim, o outro navio crescia diante de nós. "Que porrada que vai dar...se segura!"

Passamos a uns 8 metros do outro navio. É uma sensação pior do que quando um carro passa do lado de você pedestre, e vc sente o vento e ouve o que o motorista conversava com o carona. Quase arrancamos a âncora deles. Foi por muito pouco mesmo.

Em dez minutos a chuva parou. O vento também.

A baía de Guanabara é perigosa.

Faltam 7 dias pro ar condicionado voltar a funcionar.

Feliz ano novo.

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