Ao invés de 28, esse embarque está durando 30 dias. Faremos 2 extras para que a troca de turma ocorra sempre às sextas. Ainda bem que foi na minha turma. Uns reais a mais.
Viagem mais tranquila que já fiz. Na passada, tiramos o navio do estaleiro e levamos para a baía de Guanabara, onde sofremos quase uma dezena de inspeções. Em uma frase, é organizar o caos para a aprovação de alguém que vem com a regra do jogo debaixo do braço. Marinha, Anvisa, Petrobrás, Bureau Veritas, uma cambada. Só quem já fez pra saber o trabalho que dá...
Nessa viagem tiramos o barco da baía e levamos pra operar. Hoje já posso dizer que fiz parte da tripulação de um navio desde o dia zero. Feliz.
Navio novo é uma beleza. É só manter o padrão do início. Só deixar as coisas como estão. Navio velho... Não interessa o quanto se trabalhe, sempre tem aspecto de mal feito. Um porque ele tá velho mesmo, o aspecto das coisas está ruim. Só melhora se mudar a tal coisa. É como receber uma visita em sua sala com a tinta da parede descascada. Não interessa o quanto se limpe, o ambiente com aparência promíscua só se resolve em se pintando novamente a parede. Segundo porque a tripulação já é antiga no navio velho. Aí já estão fartos da mancha na parede, da cadeira que pende pro lado com o balanço do navio, do controle remoto colado com fita. A insatisfação travestida de costume com o velho é tão aparente quanto a parede descascada limpa com intenção de melhor aspecto. Um acordo nunca verbalizado obriga as partes a fingirem que não há um desconforto antigo, fluorescente, impossível de não se ver. Tudo em nome da boa convivência. Um mês é tempo demais pra já se começar insatisfeito. Ainda mais quando esse mês é o do carnaval, e as esposas estão "em casa".
Navio novo é uma beleza. Ou não. Se você é leitor dos diários já sabe que estivemos sem ar condicionado. Agora, com o navio longe da costa, descobrimos o que mais foi mal instalado, quantas gambiarras ganhamos de presente do estaleiro, e mai alguns erros de projeto e planejamento. Eu costumo ter sorte. Então, minha descarga já foi trocada e já parou de funcionar de novo. O chefe de máquinas percebeu que a peça reserva que o estaleiro mandou lacrada no pacote já era usada e bem usada. Em dois dias, tirei do vaso oito baldes de água de merda. Estavam no vaso havia cinco dias. Muito bom ar pra dormir. Quando tirei o último balde de merda, a descarga funcionou. O barulho do vácuo e o vaso de boca aberta pareciam rir de mim. Pra que ele não volte a rir, cada dia cago em um camarote diferente.
Mas no mar e na minha cabeça nada disso é problema. Acho até necessário que aconteça. Problemas matam monotonia e rotina. Quando eles vão embora deixam uma sensação de bem estar imversamente proporcional ao desconforto que causaram. Faz bem e passa o tempo.
Entre outros motivos, vim trabalhar embarcado , mais até que pelo dinheiro, pela longevidade da atividade petrolífera que o pré-sal prometia. Papo de eu me aposentar e ainda arrumar vaga pro filho que ainda nem tenho. Sou taifeiro. O que significa cozinheiro de segunda classe/faxineiro/arrumador. Trabalho pelos três. Mas também ganho pelos mesmos três.
É um trabalho quase sempre ingrato (levanta a mão quem sonhou em ver seu filho areando panela, lavando chão e com sacos de resto de comida pra lá e pra cá) mas que propicia uma vida tranquila, sem medo do final do mês. Na minha concepção, só pode dizer com autoridade que todo trabalho é digno; ou o velho "pedir é fácil... vai catar uma latinha, vai lavar uma roupa" aquele que tem sincera disposição para fazê-lo caso a necessidade ordene, ou caso o objetivo passe por caminhos azedos. Minha mente era lúcida quanto a isso desde a adolescência. Obrigado, mãe.
Só quem está dentro do meu coração sabe o quanto estou feliz e saciado com esta profissão, e o quanto fiquei lisonjeado em ter dado um tiro tão certo na vida.
Só que o José Serra apareceu na tv com seu sorriso de Homer Simpson (e chegamos ao motivo deste diário). E pela notícia, seu sorriso parecia gritar o bordão do Chapolin saindo de trás do esconderijo. E é bem isso. Os tucanos brasileiros têm, na verdade, a característica que define a raposa. E é bem isso. Não contávamos com sua astúcia. Na verdade, claro que contávamos. Mas éramos poucos.
Assim como a Vale na era FHC, hoje é a Petrobrás. Ela esteve lá, muito bem durante décadas. Até que descobriram uma quantidade indecente de petróleo. Aí , o que era o passaporte para o desenvolvimento do país, foi transformado (por uma formidável união de interesses entre bancos, governos internacionais, agências financeiras, bolsas de valores, redes de mídia e suas agências de propaganda e claro, empresas de petróleo) no mal do século, no expoente da corrupção, numa barragem de lama da vergonha que explode e caga tudo por onde passa.
-O povo brasileiro, cansado de todos os dias levantar da cama e pisar em um novo prego enferrujado com os mesmos pés já inflamados pelo pregos de todos os dias anteriores de vida de povo;
- A classe média, agora obrigada a sofrer por todas as vias que definiam seu epíteto de classe média: andar de avião com o porteiro, ao mesmo tempo que paga direitos trabalhistas à antes canina doméstica, e ter que ver a filha da mesma doméstica nadar em sua piscina, entrar na Universidade Federal. A classe média olha no espelho e não sabe dizer o que vê.
-O rico quer o que sempre quer. Máximo lucro pelo mínimo preço. Aí seus baluartes do saber, pós-doutores em astrologia e ciências ocultas acusam o país de ter "muito governo e pouca liberdade econômica".
-E o pobre fudido,que começou ter algum poder de compra, vê na tv que a inflação tá alta, a passagem aumenta, e...
TODOS compram a crise irrestritamente. Incrível a facilidade de dar tudo certo nas coisas erradas.
Um flashback: há uns anos, trabalhei no escritório central da Chevron no Brasil. Fica sobre o viaduto da avenida Chile, aquele prédio que na frente tem uma banca e um ponto de ônibus. Do outro lado é a sede do BNDES. Pensar na proximidade desses prédios na data de é até engraçado.
Pois então, nessa época, o presidente da Chevron Brasil era o George Buck. Um excelente nome. Xará do presidente de então em seu país, sobrenome que é simonimo de grana em sua língua. Um cara bem simpático, como todo economic hitman. Se esforçava pra falar português. Sempre sorrindo. Também pudera. Recebia salário tanto nos EUA quanto no Brasil. Aqui seu salário era mais baixo. Quanto menos imposto tributado fora da "América", melhor. Então em reais, seu contracheque dizia 400 mil mensais. Fora, claro: cobertura de frente pro mar, sedan de luxo com motorista, escola bilíngue ou trilíngue pros filhos, elevador privativo no escritório, funcionário até pra pentear os cabelos que a roupa não deixa ver.
Um dia, subindo de elevador comigo, resolveu treinar português com alguém que não precisaria conversar nunca mais.
-"Bom dia, qual é o seu nome?"
-"Arthur. "
-"Arthur, sabe qual é o melhor negócio do mundo?"
-"Ah, tenho pra mim que é banco. Os caras vendem dinheiro..."
-"Bom palpite. Mas não. O melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada. E qual o segundo melhor negócio?"
-"Aí deve ser o banco..."
-" Errou de novo. Uma empresa de petróleo mal administrada."
Sorriu e saiu do elevador. Nunca achei que um diálogo tão rápido faria tanta diferença pra mim. Talvez os 400 mil fossem bem pagos. Ou talvez não. Meses depois a Chevron foi responsável por um vazamento de petróleo na bacia de Campos. Ele perdeu emprego e a carreira. A empresa qual hoje eu estou é a que está lá limpando. Até hoje. Fim do flashback
Ontem o José Serra e o Renan Calheiros fizeram passar em caráter de urgência o projeto que retiraria da Petrobrás o monopólio das explorações no pré-sal. O que quer dizer abrir nossas reservas de petróleo para a exploração gringa, com lucros gringos.
Como?
A votação é sempre rápida, sempre urgente, sempre pouco noticiada. O que interessa aqui é o processo. Como um negócio trilhonário pode passar batido assim, e pior, parecer tao legítimo, tão correto mesmo?
Voltem na Vale. Dava mais lucro que chuchu na serra. De repente, notícias de prejuízo, de crise, disso e daquilo. Aí o FHC contratou o Bradesco pra avaliar o valor de mercado da Vale. O valor real (patrimonial) era de mais ou menos 300 bilhões. Mas a marca do neoliberal é a privatização. Então é mais fácil e rápido vender algo que vale muito por um preço baixo. Assim, a avaliação final da Vale pelo Bradesco, e assinado pelo FHC foi de 3 bilhões, apenas. Cem vezes menos do que seu patrimônio valia. Eis o efeito da propaganda de crise. Aí o presidente disse em praça pública: "Vou vender a Vale! Quem quer comprar?" e é óbvio que o Bradesco levantou a mão. Estava comprando uma nota de cem reais com uma moeda de um real.
É o mesmo mecanismo do desmonte da Petrobrás.
-A empresa bate com folga um recorde de produção todo ano. William Bonner anuncia prejuízo de 500 milhões.
-Nunca tantos pequenos empreendimentos foram abertos . Bonner diz: inflação e desemprego
- Os pretos e pardos estão lotando as faculdades. Corrupção
- Estamos exportando estudantes. Corrupção
-Não existe mais o bloco sobre fome e miséria no Jornal Nacional. Corrupção
-O abismo entre pobres e não pobres diminui vertiginosamente.Corrupção
-O índice de desenvolvimento humano do Brasil começa a não ser tão ridículo. Corrupção
Sabe-se pouco ou nada sobre o real estado de coisas. É a mesma relação entre número de crimes e sensação de insegurança. Se há muitos crimes e eles não são noticiados, paira certa tranquilidade, a exemplo da ditadura militar. Mas se muito se fala de crime, ainda que com taxas seguras, há uma histeria coletiva, um medo do outro que é sempre um inimigo em potencial.
Os dados estão tranquilos, estão favoráveis (hahaha). Mas as notícias vendem mais que o petróleo do George Buck. O que nos leva à seguinte pergunta: a que preço será vendida a Petrobrás que "dá prejuízo de 500 milhões" em um país em crise econômica, rebaixada na tabela dos bons pagadores, com processo de impeachment? É o mesmo mecanismo da venda da Vale. Só que somou-se uma enorme crise política. Assim a compra sai com desconto extra.
O duro é ver o povo, ou melhor; o marítimo achar bom. "Tira da mão dessa vagabunda dessa Dilma". É. O Serra nem precisou ser presidente pra sair vitorioso.
Não sabe ele que com o inevitável fim da lei de partilha (que as coisas já são muito ruins com ela... sem ela então é foda) é questão de tempo para o próprio marítimo perder o emprego pra um filipino da vida. Bora lá comprar gasolina (que já é uma sacanagem sendo nacional) pelo preço de importada.
Por hoje, acho que já deu. Seis dias pro desembarque. Talvez tenha mais assunto até la.
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