quarta-feira, 8 de junho de 2016

Diário de bordo 08/06/2016 Em algum lugar na bacia de Santos

Sobre solidariedade

Os dias são mais ou menos iguais por aqui. Meus diários de bordo costumam ser sobre os dias menos iguais. Hoje foi assim.Eu e Valmir acordamos às 04:30 para preparar o café da manhã, como de costume. Café na mesa, café tomado por nós, café tomado por quem vem junto com o sol.
Enquanto o pessoal toma seu café, eu saio para ir fumar. É o costume, a tradição. Valmir já tinha voltado pra dormir, e só desceria às oito da manhã pra fazer o almoço. Eu fico das quatro e meia da manhã até terminar de limpar tudo depois que a vapozada almoça. Aí eu subo pra descansar. Volto no meio da tarde pra dar o andamento final da janta e fechar a cozinha, depois das sete da noite.
   
    Então. Lá pelas seis da manhã, enquanto andava pelo convés até o lugar de fumar, onde tenho os primeiros pensamentos do dia, vi no chão um peixe voador. Eles ficam de sacanagem voando pra tudo que é lado e acabam descobrindo que não tem água no convés. Se fosse de dia, alguém até mandava ele de volta. Mas esse aí inventou de fazer vôo noturno.Acendi o cigarro, peguei o peixe pelo rabo e fiquei olhando, pensando que viagem um peixe voar. E não é? Ainda bem que não deram asa pra tubarão nem pra baleia.

     A gente costuma receber peixe congelado pra fazer a bordo, já em postas ou em filé. Mas aqui na empresa tem muito cara que veio da pesca, e acaba torcendo a cara dizendo "não como peixe congelado, não. Só peixe fresco." É bem o peixe que é fresco mesmo...Mas confesso que olhando pro peixe voador eu pensei "pôrra, seria bom comer um peixe fresco mermo, né? Porra, tamo todo mundo aqui no meio do mar, e o nosso peixe vem da terra, pô. Que porra é essa?"

     Se engana quem acha que não é ouvido. Acho que no meio do mar, fica mais fácil do cara ser ouvido, sei lá. Menos interferência, menos poluição, menos buzina, menos gente mesmo, morô? Não sei. Só sei que foi assim.Isso aí tudo, e o cigarro antes de chegar no meio. Tem sempre barco de pesca perto de embarcação offshore, perto de plataforma. Ou então, nós é que estamos onde eles sempre estiveram. Faz mais sentido assim.

     Comecei a tirar minhas fotos do barco, ele veio se aproximando pra passar pro outro bordo. Quando ele estava passando pela nossa popa, rumando pra bombordo, acenei com o polegar. Na mesma hora, os dois que estavam na proa deles responderam com seus polegares.Enquanto se afastavam a bombordo, o cara da proa deles bateu a mão na boca duas vezes e levantou o polegar lá no alto. eu logo entendi, e fiz com o braço pra que se aproximassem. Meti a mão no bolso e peguei o maço. Era cigarro, o que eles queriam. Abri o maço e olhei, "porra, cinco ou seis caras lá, quatro cigarros no maço.Vai dar não." Empurrei a palma da mão na direção deles três vezes, apontei o indicador pro alto duas vezes(calmaê que vou lá em cima buscar). Do lado de lá, o polegar disse que tudo bem.Eles já tinham voltado pra boreste quando eu desci. Assobiei e eles voltaram a se aproximar.

-"E aí, véi, firmeza? Vamo ver se tu é bom de arremesso!" -com um puçá na ponta de um bambu

Falei que o vento estava forte, então eu jogaria na direção oposta. o maço caiu bem perto do barco deles, mas na água. Como era um maço novo e lacrado, boiou, ele pegou e disse "pôôô, que isso, loco! Maço fechado!! Valeu mesmo!"

Era a minha deixa: "Então, será que não rola um peixe aí não? Essa hora já tem alguma coisa?"
Todos se entreolharam. Talvez pra que houvesse consenso entre os fumantes, talvez entre todos. Ou talvez pensassem "pôrra, nesse barcão aí não tem comida não, é, carái?" Enfim, começaram a sacudir a cabeça na vertical, e o cara do cigarro perguntou se poderia trocar por carne.

-"Pô, irmão, tu pode até não acreditar em mim. Mas a gente tá com meia tripulação extra, estamos na metade da viagem, e a carne já começou a arribar (terminar). Então carne fica foda. Tamo comendo muito frango, por isso perguntei aí do peixe, e tal."

-"Nããão, pode ser frango meeeemo!"


E o outro, mais velho que ele, cara de experiente , virou a cabeça na diagonal olhando pra mim e perguntou, tentando esconder o desdém que a idade traz pelos mais novos: "Você é o cozinheiro daí?". "Não, mas é mais ou menos isso. O cozinheiro mesmo tá dormindo." Ele sacudiu a cabeça na mesma diagonal enquanto levantou as sobrancelhas e fez os ombros saltarem de leve, como que a resposta tivesse servido para a ocasião.

Entrei e olhei pra cara dos frangos. Tem bastante. Bem mais que as outras carnes. Como quem tem girassol, tem medo, fui ao passadiço.

-"Pô, será que dá pra trocar frango por peixe fresco?"

-"Ih, eu ia ligar pra cozinha agora mesmo pra falar pra você oferecer um café pros caras, alguma coisa, sei lá. Tem muito frango?"

-"Se eu não pegar um peixe hoje, capaz de alguém voltar pra casa voando..."

-"Ah, então pode sim, pô. Vai lá."

Eram cinco caras mesmo. Se fossem seis, o último estava dentro do barco, ou no porão. Eles chegaram a uns 6 metros de distância. Joguei um frango de cada vez, Acertei todos no convés deles. O tal que perguntou se eu era cozinheiro falou "agora joga a pinha!" -(é essa bola laranja aí amarrada numa corda azul da foto).

-"Você é do Rio, não é?"

-"Sou. Você não, né? aahauihaaihaiuh"

-"Qual lugar do Rio?"

-"Niterói"

-" Ah, a gente tá sempre lá!

-"Mercado São Pedro?

-"Mercado São Pedro."

-"Ó, fica ligado vocês aí. Chegou aqui a notícia que sábado o mar vai ficar puto, hein. Ondas de cinco metros, altura máxima, mas pouco provável de 9. Não saiam nesse dia."

Eles amarraram 4 atuns no cabo e falaram pra puxar. Certamente eram mais de dez quilos de peixe. De atum! Quanto custa um quilo de atum ? Sei lá! Mas no mar pode custar três quilos de frango e um maço de cigarro. "Valeu mesmo pelo cigarro, hein!" - e foram embora. E aí chegamos ao título desse diário.

Eu já disse em um outro diário que o trabalhador do mar tem o privilégio de experimentar duas sociedades diferentes. Mais uma vez está provado.A sociedade em terra, todos vocês conhecem, embora nem todos percebam suas características. Inclusive isso mesmo é uma de suas características. Prefiro nos poupar de mais alguns parágrafos desnecessários.Mas no mar a gente vive em uma sociedade onde há completo controle social encarnado na figura do comandante. Ele é responsável por tudo e por todos. O número de integrantes dessa sociedade é sempre restrito e documentado. E é por todo esse controle que existe no mar que os dias são mais ou menos iguais. Hoje foi um dia diferente pra mim. Hoje eu fiz política externa. Diplomacia. Comércio exterior. Geralmente isso só é feito lá no passadiço, via rádio ou internet. Sempre pelos oficiais. E eu sou o mais "canela" do barco. Por isso a manhã de hoje é tão significativa. Mas não só por isso.

     As leis não escritas do mar fariam grande diferença se aplicadas em terra. Quando só se vê água e, de vez em quando aparece outro ser da sua espécie e de fora da sua comunidade, a cordialidade é de impressionar. Eu nunca tinha visto nenhum daqueles caras. Nenhum deles tinha me visto antes. Caso eles não voltem pra pedir cigarro, talvez nunca mais os veja. Se os vir na rua , tenho certeza absoluta que não reconhecerei nenhum. Tenho certeza que para eles é igual. Mas parece que eles já esperavam que eu acenasse para eles. E em fração de segundos, acenaram de volta.

Experimente acenar da rua pra alguém no ônibus, do ônibus pra alguém na rua, do metrô para alguém da plataforma, do seu prédio pro prédio vizinho. As reações serão, basicamente:

1- a pessoa vai te ignorar, não sem antes fazer uma cara de "é mole?"
2- a pessoa vai olhar pra trás, tipo "com quem esse maluco tá falando?"
3- a pessoa vai responder com o dedo médio
4- a pessoa vai responder, mas com muita cara de quem tá fazendo papel de idiota
5- a pessoa vai responder sorrindo, e você é quem vai ficar surpreso

No mar você tem certeza da resposta. E até um sinal de "legal" é bastante carregado de verdade.
Porque eu dei um maço de cigarro fechado pros caras, se ainda tenho 14 dias no mar, e eles voltam pra casa em no máximo 2 dias? Porque eles deram tanto peixe, enquanto só ganharam uns frangos?
Eu dei um maço de cigarro pros caras porque aqui, eu tenho o que eles não têm lá. Conforto. Opções. Equipamento de segurança. Abrigo do sol. Muita água pra beber e pra tomar banho. Tudo o que não foi dito na conversa esteve presente durante ela, reparem.
Eles me deram uma ótima quantidade de peixe muito caro porque sabem que aqui o que é pra um, tem que ser pra todos. Porque o peixe pra eles tem menos valor que o frango, quando no mar. Porque eles vêm pro mar sem quase proteína nenhuma a bordo, contando com o peixe que pescam. Por saberem que eu só posso dar o que tenho a bordo, enquanto a reserva de peixe deles tende ao infinito.

Rousseau disse que o homem é gente boa.
Hobbes, que o homem é um grande de um filha da puta.
Eu digo a vocês que é na solidão que a gente sabe como é o homem. Ele pode escolher a solidariedade e, trocar a carestia pela diversidade, pela abundância; ou escolher o silêncio, a ignorância ao próximo, o ostracismo em si e, tentar voltar voando pra casa. E acabar descobrindo ao contrário, o mesmo que o peixe voador.

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