quinta-feira, 27 de abril de 2017

Diário de bordo 11/08/2016 - Sul do Brasil - talvez Santa Catarina

Afogamento


Não. Não houve nenhum afogamento a bordo. Mas entre julho e outubro, quem é do mar conhece seu eleitorado. Na última viagem comentou-se, um dia, ondas entre 5 e 9 metros. Dessa vez não ouvi nada sobre o tamanho do mar.

Ontem o Brasil jogou contra a Dinamarca. Eu estava na cama, e aqui no camarote não tem tv. Só no refeitório e nos camarotes de quem manda, mesmo. Sem sono nenhum e com bastante tédio, tinha certeza de que ver esse Brasil aí jogando, só tinha duas possibilidades de futuro: risadas ou sono. O tédio era uma bebida amarga; as risadas eram whisky, o sono era um vinho de sabor prolongado. Fui atrás.

Alguns caras sentados vendo o jogo. Pareciam indiferentes ao que havia de errado naquele lugar. O navio balançava bastante. Afora nossos órgãos chacoalhando dentro de nós, de um lado para o outro, você percebe que o balanço está forte quando o cara em pé perto de você parece o Michael Jackson quando cantava "Annie, are you ok? Are you ok, Annie?". Sabe aquela hora que ele inclina o corpo pra frente e, se ele fosse qualquer outro ser humano, teria caído de cara? "Smooth criminal", o nome dessa música. Em dia de mar agitado, qualquer um tem seu dia de Michael Jackson aqui na marinha mercante, negão.

Estava três a zero. O subchefe de máquinas pendulava nesse refrão pop. Era o único em pé. Estava de macacão todo sujo de graxa. Era o único que não podia sentar. Mas outras coisas estavam erradas além da vitória da seleção. E assim que eu entrei, meus olhos saltaram, e exclamei:
-Caralho, que porra é essa? Tá foda mermo, hein?

Os nordestinos estranham o jeito do carioca de xingar pra tudo, até pra pontuar frase. É porque porra; a gente é assim mesmo. Mas eles ja se acostumaram comigo. Sabem que quando a gente chama de viado ou de filha da pulllta não tá xingando. A parte de vocativos na nossa gramática é diferente. Da mesma maneira que a deles difere da nossa. É , entretanto, mais amigável e divertida.

A água da estufa que mantém os alimentos quentes estava espalhada por metade do refeitório. O azeite temperado com pimenta calabresa que eu tinha feito, virou dentro do armário e agora temperava o chão. Os restos de pastel pelas mesas, a bandeja com um pastel murcho e o vidro de molho de pimenta chinezinho aberto, vazando e deixando a bancada vermelho radioativo, denunciavam que o cozinheiro tinha feito lanche pra galera assistir o jogo antes de eu descer atrás de risadas ou sono. A lixeira de vidro do refeitório estava do outro lado. Mas estava três a zero. E mesmo sem o som de sua vez, Michael Jackson cantava. Me fudi. Arrumei foi trabalho. Onze e porrada da noite. Acordo às quatro e meia.

Pelo menos eu secaria o chão e diminuiria o risco de um desavisado pouco observador cair. Para isso, precisava entrar na cozinha e pegar o rodo com pano. Abri a porta e exclamei:
-Puta que o pariu!

Todas as lixeiras da cozinha estavam no chão, sem exceção.E todas são presas na antepara (parede) por um alumínio que abraça todas de uma vez e é aparafusado quando chega do outro lado. Latas abertas rolando por sobre plásticos, a lixeira de restos de comida, a maior, parecia moribunda, pendendo de leve pro lado com o movimento do barco. Água por todo o chão, janelas de aço abrindo e batendo de volta. Uma carne descongelando fazia sangue na bancada da pia e escorria para dentro dela.
"Que se foda. Eu vou é fumar um cigarro. Amanhã vai estar tudo aí de novo..."

Na volta eu deixei as lixeiras no chão mesmo, mas sequei o refeitório pra ninguém dizer que eu não tinha feito nada. Burro fui eu de inventar de descer lá com o navio sacudindo daquele jeito. só podia era sobrar pra mim mesmo. Whisky custa caro, e só sabe o que é arrependimento, quem já tomou porre de vinho. Chá de boldo é ruim, mas faz bem.

A reflexão de hoje é sobre o cigarro, lá fora. Ir à parte externa do navio nesses momentos de mar alto, não dá pra ficar indiferente. Você acostuma, claro. Mas aquilo dialoga com você. Água pelo convés todo, onda batendo nos bordos e jogando mais água, ondas que passam por cima das laterais do barco e vão quase no meio do convés. Eu acho bonito pra cacete. Vocês aí que estão lendo, costumam ter medo. Eu acho formidável.

Mas é claro, é lógico, e é natural que o pensamento de afogamento passe mais pela cabeça de nós, que aqui estamos. Aqui é água. E dificilmente, alguma outra coisa. Quando aparece outra coisa, eu inclusive escrevo sobre. No mais, é água. Água e, depois de terminada a segunda semana, o tédio. A sensação do déjà vu diário. Quando escrevo é aproveitando o tédio, transformando ele em scholé, o ócio produtivo. E parei pra pensar no afogamento e em algumas de suas contradições.

Em biologia, aprendi que afogamento significa a inundação dos pulmões. Essa é a verdade científica. Mas analisando a psiqué do afogamento, essa definição simplesmente não presta. Você está envolto no ar, um elemento que te mantém vivo. Mas se fica completamente envolto em outro elemento, o responsável pelo próprio surgimento da vida, morre.

Toda a evolução da vida aponta para você, o ser humano. Ser humano que em contato direto e completo com o elemento que propiciou seu surgimento, é aniquilado por ele mesmo. Não tem ar.

Tem ar pra todo mundo. Não existe nem um espaço entre onde termina a água e onde começa o ar, aqui no mar. Mas não tem ar. Você prende todo o ar que conseguiu respirar, sem ter certeza de que era a última vez. Os pulmões fazem a hematose, o volume de gás aumenta nos pulmões, já que o carbono foi adicionado. O que antes era o bastante nos pulmões, agora é demais.

Momento filosófico na morte por afogamento: você quer aproveitar ao máximo o último ar que respirou. Só que lá dentro de você, ele já não é mais ar. À molécula de oxigênio fora adicionado um carbono. Fundamental para a vida no nosso planeta, mas tóxico, se dentro do peito. Não tem ar. Você tem plena consciência que a lei da respiração exige que, caso você solte o que tem no peito, precisa buscar novamente lá fora. Mas não tem ar. E nada que não for ar, vai servir. Toda força que você faz para não afundar só faz encher seu pulmão de carbono. Ninguém mais pensa, nessa hora. E é justamente aí que uma força maior que a razão, maior que qualquer ser humano age em você. Contra a sua vontade, contra seu próprio instinto de preservação, você expulsa toda a pressão do seu peito de uma vez só, então tendo a certeza de que, já que não tem ar, só te resta ter a humildade de aceitar a morte pela inundação de seus pulmões.

Pulei as lixeiras da cozinha e passei direto pelo refeitório. Quatro a zero.
-Boa noite, senhores. Deixa essa porra aí, que amanhã eu resolvo.

Enquanto houver ar, eu escreverei.

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