INTRODUÇÃO
Os dias como o de hoje fazem entender que nem todas as lágrimas que formam os oceanos são feitas de saudade. As que escapam dos cantos dos olhos por motivo de alegria valem aqui em ouro o peso dos nossos problemas.
Você é brasileiro. Você sabe que a terra patropi é a terra da pegadinha, da piada de português, da vídeo cacetada. Bota papelão na carne, nego faz uma tonelada de piada. Vai se aposentar com 170 anos, vai fazer piada até se aposentar. E vai no cemitério sacanear os amigos que não conseguiram. Esse é o brasileiro. Bicho muito filha da puta, cara. O cara faz piada dele próprio...
Que dirá dos outros!
PRIMEIRO ATO
Todo marítimo tem uma regra com a família. Aconteceu algum problema aí em terra? "Eu posso resolver daqui de onde eu estou?" Dois caminhos:
1- Se a resposta for sim, geralmente é dinheiro, ou tem que falar com uma pessoa X para resolver alguma coisa, e só você tem o contato ou é você que tem que falar pro fulano fazer a tal coisa.
2-Se a resposta for não, NUNCA me conte enquanto eu estiver embarcado. Só se for morte de parente de primeiro grau. Aí por lei o cara tem que desembarcar. Não resolve, mas tá lá, né? Qualquer outra coisa, é uma grande sacanagem levar isso pro cara que tá preso aqui. Já existe uma ansiedade natural. Leva bastante tempo pra acostumar com ela. Não que ela suma algum dia, mas você passa a administrar muito bem. Imagina alguém torturando uma pessoa que você gosta muito enquanto você está vendo tudo atrás de um vidro. Pinte esse quadro com suas próprias emoções, e é isso. Aí imagina que chegou o dia de ir embora, e de repente vem a notícia: vai ficar todo mundo aí por mais uma semana. Ou pior! O cara que te rende quebrou a perna. Dobra mais um mês. Quem franziu o cenho quando leu, entendeu. Mas mesmo entendendo, não faz idéia do que é isso.
Pois então:
(NOTA DO AUTOR
Antes de começar, é importante dizer que isso aqui é uma obra de ficção, e que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, e que os personagens não representam pessoas reais, falou? Agora que eu já estou calçado, vamos nessa.)
SEGUNDO ATO (volte à última frase do primeiro ato e prossiga pulando a nota do autor)
Tem um cara que embarcou dessa vez. É a primeira vez que o cara embarca na vida. Isso divide a sua vida em antes e depois, pode acreditar. É um cara novo, pouco mais de 20 anos. Educado, gente boa. Você vê que é um cara que não tem maldade.Nunca tinha trabalhado na vida. Que dizer, de quase um quarto de século que o cara tem de idade, trabalhou mais ou menos 15 dias. Coitado do moleque, claro que ele é cabaço, ahahahhaha.
E tudo pergunta. Não que seja problema pra mim. Gosto muito de ensinar, o que quer que seja. Mas tem umas perguntas que você fica meio assim, surpreso, embasbacado mesmo do cara perguntar naquela altura do campeonato. E antes que eu respondesse educada e verbalmente, meu pensamento já dava logo um tiro.
"Como arruma o quarto?" (ô porra, tu nunca arrumou um quarto na vida, caraio?) "Ah, vamos comigo que eu te mostro como faz, pô.
"Quando acabar o suco que tem a bordo, acontece o quê?" (ih você não sabe? Uma baleia sai voando de dentro da água até lá em cima nas nuvens. Aí quando ela chega bem lá em cimão, ela explode e vira um montão de fruta que cai no convés. Aí a gente pega tudo e faz suco. Até acabar de novo e vir outra baleia) "Ué. Quando acabar, acabou."
E por aí vai
TERCEIRO ATO
Pois esse cara gente boa porém cabaço, esses dias estava no celular falando baixinho, o refeitório tava quase vazio. Tava com aquela cara assim sem expressão nenhuma. Sem expressão nenhuma mesmo. Como se alguém te ligasse e dissesse "se liga: não esquece! A água não tem sabor." É aquela cara de "ou eu não entendi porra nenhuma, ou não é possível que essa pessoa tenha dito isso.". Maxilar pouca coisa separada da arcada superior, lábios entreabertos, olhos pouco acima do horizonte. Não chega a ser cara de bunda. Mas sem dúvida já é cara de babaca. Falei com ele alguma coisa que não lembro, ele respondeu com um sorriso amarelo. Pensei "tudo bem, todo mundo tem seus dias".
NO DIA SEGUINTE...
Estava eu no convés tirando cinco minutos pra sentir a brisa salgada depois do café da manhã...aí veio o cara, né.
E aí, beleza, cumé que tá; aquela coisa que a gente faz com quem encontra na rua pra logo sair correndo depois e demorar mais 5 meses pra ver de novo.
O cara coçou a nuca e "porra, tô com problema em casa". Falei "que merda, cara" e ensinei pra ele a lei do marítimo lá. Que não pode todo mundo jogar problema aqui no meio da água, que não dá pra fazer nada, que tem que se acostumar com isso, que leva tempo e por isso o pessoal de casa tem que ajudar, que ninguém sabe como é, e coisa e tal. "Porque pô, Arthur, você se sente impotente." "É claro, pô; e você tá de fato. Agora ocupa tua cabeça, arruma um monte de coisa pra fazer. Se achar que não ficou perfeito, faz tudo de novo. Terceira semana , irmão. Até quando tá tudo bem é foda. Se você não pode resolver... o que não tem remédio remediado está."
Ele não me falou o que era e eu também não perguntei.
Quando o cara é novo a bordo, todo mundo quer dar alguma sacaneadinha. Brasileiro, né. Ainda mais quando o cara é purão, sem malícia. A galera tava no refeitório, ele não. "Rapazeada, seguinte: pega leve aí com o cara. Ele tá com problema em casa, eu não sei o que é. Mas a gente não sabe como é cada um, né. Dá uma esfriada aí."
DEPOIS DO JANTAR...
Tô eu sozinho na cozinha, arrumando tudo pra ir embora, com meu headphone ouvindo minha música, trabalhando feliz da vida, quando alguém toca nas minhas costas.
"JÁ SEI! JÁ SEI! JÁ SEI! Já sei qual o problema que ele tá em casa." Dobrou o dedo médio e o anelar pra dentro da palma da mão, botou o polegar por cima dos dois, deixou o indicador e o mindinho esticados pra cima. Empurrou a mão na minha direção duas vezes, rápido. Faz aí que vocês vão entender.
Eu botei a mão no rosto balançando a cabeça "puta merda, cara. No primeiro embarque, coitado do moleque. Como é que tu sabe disso?"
"Ah, a parede é fina, o cara é que não sabe... tava lá falando alto pra cacete com a mulher no telefone. Todo mundo ouvindo...que eu ia te pedir em casamento, e tal. Assim que eu embarquei você trocou o status pra solteira."
Tomar chifre é muito triste.
Mas a verdade é que nós rimos muito, hahahahaha.
Olha só, eu entendo perfeitamente que o chifre dói igual tanto na mulher quanto no homem. Mas como o ser humano é um ser social, numa sociedade machista que é a nossa, o chifre faz muito mais estrago no homem. A mulher procura as amigas pra dizer que homem é tudo igual e não vale nada mesmo. Se produzem, saem pra dançar, usam langerie. O homem? Os amigos sacaneiam até a morte. Chamam a mulher dele de tudo o que é nome na frente dele. Esse é o jeito que lidamos com isso. O cara supera com muito mais eficácia dessa maneira. Ninguém alimenta a negação dele. Muito pelo contrário. Reafirmam, carregam em todas as tintas vermelhas pra doer de uma vez só. Quando você está sem recursos, é com ferro em brase que se estanca hemorragia.
CLÍMAX
Almoço de hoje. Refeitório cheio. Todo mundo já sabia. Como tradicionalmente, só o corno não sabia que todo mundo já tava sabendo. Eu dentro da cozinha, começam os caras lá fora. "Porque fulano foi corno, eu fui corno, você foi corno" - e ninguém olhava pro cara. Aí um puxou. "Cada um que foi corno, conta aí a sua história!"
Um tinha a esposa, morava com ela, tinha filho. Embarcava e o cara lá matando a fome. A mulher ainda quis botar ele pra fora, ficar com a casa e o Ricardão morando nela, usando o carro dele, e tal. O próprio corno em questão disse "porra, mas o cara só entrou com a pica!" aí alguém na roda falou "aí ela disse: e que pica, hein!!"
Outro tava com a mulher havia 12 anos. Morando junto havia 3. Ela grávida. Nasceu, criou. Quando o moleque tinha 12 anos, o DNA falou "vaaai, chifrudo"
Outro tinha uma namorada, um relacionamento moderno. Transavam a três. A mulher se apaixonou pela outra mulher e deu um pé na bunda dele.
Arthur, tu já foi corno também! "Eu fui mesmo! Prima minha, rapaz... namorando, juntando dinheiro juntos numa conta que ela abriu, viajamos pro Espírito Santo. Quando chegou lá ela simplesmente fechou a cara pra mim. Disse que não tinha mais nada pra falar comigo e no dia seguinte tava lá desfilando de mão dada com outro cara. Fui tipo um corno delivery, me levou lá pra ver. Ou um corno DDD. Fui saber em outro Estado..."
Outro embarcava em Vitória. A namorada era de lá. Do hotel, ficava de binóculo caçando a mulher pela praia com o Ricardo. Corno Pedro Álvares Cabral... "chifre à vista!"
E o motivo da conversa lá, fingindo que tava achando a maior graça. A pálpebra do cara tremia. Aquele sorriso que os dentes não se separam por nada. Pressão de uma tonelada naquela mordida ali... Aí todo mundo tinha já contado suas derrotas. Faltou quem? Exato. "Opa, falta você. Como que foi o chifre que você tomou?"
"Ah, eu nunca tomei não, rs.."
Aí eu me intrometi.
-Ahhh, moleque. Você não sabe arrumar teu quarto. Botar uma roupa pra lavar. Tu quer que todo mundo aqui acredite que tu é bom de vara? Conta outra, rapá. Se você nunca tomou, você tá tomando agooooooora (e bati a ponta do indicador na mesa), enquanto a gente conversa!
E outro vem e completa "mas rapaz, quando o corno vai saber, é porque não tem mais ninguém que não saiba, rapaz. E vixe, ja faz é tempo que o cara tá tumano gaia, visse? E tem vários tipos de corno, né? Tem o corno Xuxa, que não se separa da mulé por causa dos baixinhos, tem o corno cuzcuz, que sabe mas abafa..."
Agora à noite, botaram essa música no grupo de whatsapp da turma do barco. (Eu não consigo carregar vídeos por aqui. Por favor, vocês merecem escutar essa música. Procurem aí)
Eu Levei Foi Gaia
Silvanno Salles
Eu levei foi gaia
Eu levei foi gaia
Daquelas que a gente se atrapalha
Daquelas que a gente se atrapalha
Eu levei foi gaia
Eu dei casa comida
Uma vida de princesa
Todo dia ela acordava o café
Já estava sobre a mesa
Com frutas variadas torradas, patê
Mais quem dá quer receber
Eu dei dinheiro pra ela pagar o cartão
Dei uma televisão 46 polegadas lg
Dei um fogão 4 bocas electrolux
E você pergunta meu irmão
O que você ganhou?
Eu levei foi gaia
Eu levei foi gaia
Daquelas que a gente se atrapalha
Daquelas que a gente se atrapalha
Doeu, doeu, doeu, doeu
Mas eu, mas eu, mas eu
Eu vou sair por ai eu quero é ser feliz
Mais quando eu lembro depois
De tudo que fiz
Eu levei foi gaia
Eu levei foi gaia
Daquelas que a gente se atrapalha
Daquelas que a gente se atrapalha
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Imaginem como está a cabeça desse camarada (sem trocadilho).
Boa noite.
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