Já tem um tempo que não escrevo, acho que desde o ano passado. Bastante coisa aconteceu, e preferi esperar as coisas estabilizarem pra escrever. Fiz bem. A impulsividade tem muitos filhos, e todos se chamam arrependimento.
O ano passado foi muito bom pra mim. Casei, comprei meu carro, tirei férias pela segunda vez trabalhando desde os 18 anos, minha esposa está tendo um sucesso maior que o outro; mas não serei eu que vou falar isso aqui. Aquela sabe guardar a felicidade dela pra ninguém meter o nariz. Coberta de razão. Enfim, foi um ano no qual eu pela primeira vez respirei aliviado sem ter pensado nenhuma vez "puta merda, tá faltando isso, aquilo, aquilo outro, não tem tempo, não tem clima, vai vencer a luz, como faz mês que vem?". Enfim, aquelas coisas que a partir de determinado momento a gente acaba acreditando que são partes integrantes de todos os dias. Não são. Pode acreditar. Tudo é fase.
Inclusive a maré boa.
Dois de Janeiro. Ligação em torno das dez e vinte da manhã. Era da empresa. "Você não embarca mais no Jim O'Brien. Quiseram te mandar embora, disseram que você deu problema lá. Mas como eu e outros conhecemos teu trabalho, não deixamos. Estamos te trocando de barco. Você vai pro Fernando de Noronha. Aproveite a chance."
Como são as coisas. Um cara (um cara porra nenhuma, O cara) que se dizia meu amigo. Cara que eu tinha como aliado mesmo. Pediu minha cabeça. Vai vendo.
Uns meses antes, uma pessoa que eu tenho total admiração, respeito e gratidão, estava numa pindaíba daquelas assim "caralho!". Esse cara é um senhor de quase 60 anos (margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos), e foi ele quem me ensinou a trabalhar em navio. E eu sempre me senti obrigado a fazer alguma coisa por ele, pois ele me tinha ensinado a trabalhar num ramo onde dificilmente alguém ensina alguma coisa de graça. Não era justo eu estar vivendo uma excelente fase na vida enquanto uma das três pessoas que me proporcionaram a possibilidade disso acontecer estava naquela situação.
Ele precisava de um qualquer pra poder renovar sua documentação de marítimo. Na verdade, ele comentou que estava pra vencer. Não pediu nada não. Mas aí eu, que sou bom aproveitador, registrei a informação para retribuir de alguma forma o favor irretribuível que ele me havia feito anos atrás. Você vê que ensinar alguém a fazer alguma coisa é mesmo o que há de mais bonito a se fazer nessa vida, quando tenta retribuir isso de alguma maneira e tem a nítida impressão de que não adianta, não vale nem um décimo daquilo. Eu fiz o que precisava ser feito para que a documentação dele ficasse ok.
Pois bem. Durante o embarque, aquele fulano amigo da onça que estava trabalhando comigo chegou e me pediu dinheiro emprestado, que tava precisando, e tal.
Agora uma digressão divagativa entre parenteses: tem um ditado que diz "nunca empreste dinheiro a um amigo: você vai perder as duas coisas." . Putz, nada mais verdadeiro. Quando um amigo me pede dinheiro eu sinto uma agulha da grossura de um grão de arroz entrar pelos meus olhos. Eu já sei que vai dar merda. Sempre deu merda. Ouça quem tem os ouvidos de ouvir.
Então eu disse "porra cara, logo agora? Acabei de emprestar uma grana ai pra uma pessoa q tava precisando pra cacete. Desculpa, mas não vai dar." Aí é que eu digo que vai dar merda de qualquer jeito. O cara ficou desconcertado. Fechou a cara e disse que nunca mais ia me pedir nada não. Aí você que tava quieto no seu canto lá, pá... tem que se justificar. Olha só, hein.
"Ah, mas que eu também to precisando, que parará pão duro caixa de fósforo...". - Irmão, desculpa, não vai dar. Emprestei uma parte do meu salário, tenho que viver com a outra. To resolvendo uns negócios aí de cartório que daqui a pouco vai vir uma porrada doída. Se tivesse pedido mês passado, tava na mão. Agora não sei quando vai dar. "Ah, mas eu tenho cinco filhos, porra."
Sabe quando o personagem olha pra câmera e faz aquela cara virada de lado, dando de ombros?
Aí eu percebi que a coisa tava indo por um caminho bem malicioso. Eu estava sendo vilão. O hobin hood às avessas, que toma dos pobres e dá aos ricos. Só que quando eu percebo essas coisas que só se percebe em se sentindo um cheiro podre que gente triste e coitadista exala... aí, sai de perto. Que a sinceridade pode ser delicada. Mas quando necessário, pode ser só verdade. E verdade não se qualifica. Não tem essa de verdade triste, verdade boa, verdade sei lá que porra. Tem verdade. A verdade se basta de tal maneira que ela não está nem aí pra adjetivo.
"Mermão, como você disse, VOCÊ tem cinco filhos. Eu não comi a mãe de nenhum deles. Eu sou doido pra ter filho. Não tenho nenhum porque eu só vou ter na hora que eu puder criar todos os que eu quiser ter sem precisar pedir nada pra ninguém, ainda mais no tom que você tá me pedindo. Você veio me falar que seu filho engravidou a menina lá, mas tava no telefone rindo com ele "ah, fazer o que, né?". Qual é? Eu não tenho filho pra ajudar a criar teu neto? Qual a graça? Você mesmo diz ai que entra no puteiro na sexta feira e só sai na segunda. Vem me pedir dinheiro? O cara que eu emprestei a grana, ESSE precisa. E precisa de muito mais do que eu emprestei. Mas tá lá dando o jeito dele. Não dou."
Mas é claro que ia dar merda o babaca aqui falar um troço desse, né ahahahaha?
No embarque seguinte eu fiz com ele uma brincadeira verbalmente agressiva, como ele fez comigo 43668879564 vezes e os dois sempre levaram na boa, era o nosso jeito de trabalhar, muita gente vai entender o que estou falando. Mas sem querer eu fiz na frente de uma outra pessoa. Aí ele ficou puto e foi lá pedir minha cabeça. Pronto. Mas tem nada não. Deus vigia todo mundo, mas gosta mesmo é de quem sabe que o certo é o certo, e azar da sua posição no jogo do bicho.
Estou completando meu segundo embarque no Fernando de Noronha. A turma é excelente. E está sempre com vontade de comer doce. Antes de eu chegar aqui "era bem diferente". Deus é tão sinistro, que pega coisas ruins e transforma em coisas excelentes, brilhantes, inimagináveis. Eu estou muito melhor do que estava, obrigado. Soube que tá meio esquisito lá no outro barco...
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