quarta-feira, 8 de junho de 2016

Diário de bordo 08/06/2016 Em algum lugar na bacia de Santos

Sobre solidariedade

Os dias são mais ou menos iguais por aqui. Meus diários de bordo costumam ser sobre os dias menos iguais. Hoje foi assim.Eu e Valmir acordamos às 04:30 para preparar o café da manhã, como de costume. Café na mesa, café tomado por nós, café tomado por quem vem junto com o sol.
Enquanto o pessoal toma seu café, eu saio para ir fumar. É o costume, a tradição. Valmir já tinha voltado pra dormir, e só desceria às oito da manhã pra fazer o almoço. Eu fico das quatro e meia da manhã até terminar de limpar tudo depois que a vapozada almoça. Aí eu subo pra descansar. Volto no meio da tarde pra dar o andamento final da janta e fechar a cozinha, depois das sete da noite.
   
    Então. Lá pelas seis da manhã, enquanto andava pelo convés até o lugar de fumar, onde tenho os primeiros pensamentos do dia, vi no chão um peixe voador. Eles ficam de sacanagem voando pra tudo que é lado e acabam descobrindo que não tem água no convés. Se fosse de dia, alguém até mandava ele de volta. Mas esse aí inventou de fazer vôo noturno.Acendi o cigarro, peguei o peixe pelo rabo e fiquei olhando, pensando que viagem um peixe voar. E não é? Ainda bem que não deram asa pra tubarão nem pra baleia.

     A gente costuma receber peixe congelado pra fazer a bordo, já em postas ou em filé. Mas aqui na empresa tem muito cara que veio da pesca, e acaba torcendo a cara dizendo "não como peixe congelado, não. Só peixe fresco." É bem o peixe que é fresco mesmo...Mas confesso que olhando pro peixe voador eu pensei "pôrra, seria bom comer um peixe fresco mermo, né? Porra, tamo todo mundo aqui no meio do mar, e o nosso peixe vem da terra, pô. Que porra é essa?"

     Se engana quem acha que não é ouvido. Acho que no meio do mar, fica mais fácil do cara ser ouvido, sei lá. Menos interferência, menos poluição, menos buzina, menos gente mesmo, morô? Não sei. Só sei que foi assim.Isso aí tudo, e o cigarro antes de chegar no meio. Tem sempre barco de pesca perto de embarcação offshore, perto de plataforma. Ou então, nós é que estamos onde eles sempre estiveram. Faz mais sentido assim.

     Comecei a tirar minhas fotos do barco, ele veio se aproximando pra passar pro outro bordo. Quando ele estava passando pela nossa popa, rumando pra bombordo, acenei com o polegar. Na mesma hora, os dois que estavam na proa deles responderam com seus polegares.Enquanto se afastavam a bombordo, o cara da proa deles bateu a mão na boca duas vezes e levantou o polegar lá no alto. eu logo entendi, e fiz com o braço pra que se aproximassem. Meti a mão no bolso e peguei o maço. Era cigarro, o que eles queriam. Abri o maço e olhei, "porra, cinco ou seis caras lá, quatro cigarros no maço.Vai dar não." Empurrei a palma da mão na direção deles três vezes, apontei o indicador pro alto duas vezes(calmaê que vou lá em cima buscar). Do lado de lá, o polegar disse que tudo bem.Eles já tinham voltado pra boreste quando eu desci. Assobiei e eles voltaram a se aproximar.

-"E aí, véi, firmeza? Vamo ver se tu é bom de arremesso!" -com um puçá na ponta de um bambu

Falei que o vento estava forte, então eu jogaria na direção oposta. o maço caiu bem perto do barco deles, mas na água. Como era um maço novo e lacrado, boiou, ele pegou e disse "pôôô, que isso, loco! Maço fechado!! Valeu mesmo!"

Era a minha deixa: "Então, será que não rola um peixe aí não? Essa hora já tem alguma coisa?"
Todos se entreolharam. Talvez pra que houvesse consenso entre os fumantes, talvez entre todos. Ou talvez pensassem "pôrra, nesse barcão aí não tem comida não, é, carái?" Enfim, começaram a sacudir a cabeça na vertical, e o cara do cigarro perguntou se poderia trocar por carne.

-"Pô, irmão, tu pode até não acreditar em mim. Mas a gente tá com meia tripulação extra, estamos na metade da viagem, e a carne já começou a arribar (terminar). Então carne fica foda. Tamo comendo muito frango, por isso perguntei aí do peixe, e tal."

-"Nããão, pode ser frango meeeemo!"


E o outro, mais velho que ele, cara de experiente , virou a cabeça na diagonal olhando pra mim e perguntou, tentando esconder o desdém que a idade traz pelos mais novos: "Você é o cozinheiro daí?". "Não, mas é mais ou menos isso. O cozinheiro mesmo tá dormindo." Ele sacudiu a cabeça na mesma diagonal enquanto levantou as sobrancelhas e fez os ombros saltarem de leve, como que a resposta tivesse servido para a ocasião.

Entrei e olhei pra cara dos frangos. Tem bastante. Bem mais que as outras carnes. Como quem tem girassol, tem medo, fui ao passadiço.

-"Pô, será que dá pra trocar frango por peixe fresco?"

-"Ih, eu ia ligar pra cozinha agora mesmo pra falar pra você oferecer um café pros caras, alguma coisa, sei lá. Tem muito frango?"

-"Se eu não pegar um peixe hoje, capaz de alguém voltar pra casa voando..."

-"Ah, então pode sim, pô. Vai lá."

Eram cinco caras mesmo. Se fossem seis, o último estava dentro do barco, ou no porão. Eles chegaram a uns 6 metros de distância. Joguei um frango de cada vez, Acertei todos no convés deles. O tal que perguntou se eu era cozinheiro falou "agora joga a pinha!" -(é essa bola laranja aí amarrada numa corda azul da foto).

-"Você é do Rio, não é?"

-"Sou. Você não, né? aahauihaaihaiuh"

-"Qual lugar do Rio?"

-"Niterói"

-" Ah, a gente tá sempre lá!

-"Mercado São Pedro?

-"Mercado São Pedro."

-"Ó, fica ligado vocês aí. Chegou aqui a notícia que sábado o mar vai ficar puto, hein. Ondas de cinco metros, altura máxima, mas pouco provável de 9. Não saiam nesse dia."

Eles amarraram 4 atuns no cabo e falaram pra puxar. Certamente eram mais de dez quilos de peixe. De atum! Quanto custa um quilo de atum ? Sei lá! Mas no mar pode custar três quilos de frango e um maço de cigarro. "Valeu mesmo pelo cigarro, hein!" - e foram embora. E aí chegamos ao título desse diário.

Eu já disse em um outro diário que o trabalhador do mar tem o privilégio de experimentar duas sociedades diferentes. Mais uma vez está provado.A sociedade em terra, todos vocês conhecem, embora nem todos percebam suas características. Inclusive isso mesmo é uma de suas características. Prefiro nos poupar de mais alguns parágrafos desnecessários.Mas no mar a gente vive em uma sociedade onde há completo controle social encarnado na figura do comandante. Ele é responsável por tudo e por todos. O número de integrantes dessa sociedade é sempre restrito e documentado. E é por todo esse controle que existe no mar que os dias são mais ou menos iguais. Hoje foi um dia diferente pra mim. Hoje eu fiz política externa. Diplomacia. Comércio exterior. Geralmente isso só é feito lá no passadiço, via rádio ou internet. Sempre pelos oficiais. E eu sou o mais "canela" do barco. Por isso a manhã de hoje é tão significativa. Mas não só por isso.

     As leis não escritas do mar fariam grande diferença se aplicadas em terra. Quando só se vê água e, de vez em quando aparece outro ser da sua espécie e de fora da sua comunidade, a cordialidade é de impressionar. Eu nunca tinha visto nenhum daqueles caras. Nenhum deles tinha me visto antes. Caso eles não voltem pra pedir cigarro, talvez nunca mais os veja. Se os vir na rua , tenho certeza absoluta que não reconhecerei nenhum. Tenho certeza que para eles é igual. Mas parece que eles já esperavam que eu acenasse para eles. E em fração de segundos, acenaram de volta.

Experimente acenar da rua pra alguém no ônibus, do ônibus pra alguém na rua, do metrô para alguém da plataforma, do seu prédio pro prédio vizinho. As reações serão, basicamente:

1- a pessoa vai te ignorar, não sem antes fazer uma cara de "é mole?"
2- a pessoa vai olhar pra trás, tipo "com quem esse maluco tá falando?"
3- a pessoa vai responder com o dedo médio
4- a pessoa vai responder, mas com muita cara de quem tá fazendo papel de idiota
5- a pessoa vai responder sorrindo, e você é quem vai ficar surpreso

No mar você tem certeza da resposta. E até um sinal de "legal" é bastante carregado de verdade.
Porque eu dei um maço de cigarro fechado pros caras, se ainda tenho 14 dias no mar, e eles voltam pra casa em no máximo 2 dias? Porque eles deram tanto peixe, enquanto só ganharam uns frangos?
Eu dei um maço de cigarro pros caras porque aqui, eu tenho o que eles não têm lá. Conforto. Opções. Equipamento de segurança. Abrigo do sol. Muita água pra beber e pra tomar banho. Tudo o que não foi dito na conversa esteve presente durante ela, reparem.
Eles me deram uma ótima quantidade de peixe muito caro porque sabem que aqui o que é pra um, tem que ser pra todos. Porque o peixe pra eles tem menos valor que o frango, quando no mar. Porque eles vêm pro mar sem quase proteína nenhuma a bordo, contando com o peixe que pescam. Por saberem que eu só posso dar o que tenho a bordo, enquanto a reserva de peixe deles tende ao infinito.

Rousseau disse que o homem é gente boa.
Hobbes, que o homem é um grande de um filha da puta.
Eu digo a vocês que é na solidão que a gente sabe como é o homem. Ele pode escolher a solidariedade e, trocar a carestia pela diversidade, pela abundância; ou escolher o silêncio, a ignorância ao próximo, o ostracismo em si e, tentar voltar voando pra casa. E acabar descobrindo ao contrário, o mesmo que o peixe voador.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Diário de bordo 25-02-16 Bacia de Santos, altura de Santa Catarina

Ao invés de 28, esse embarque está durando 30 dias. Faremos 2 extras para que a troca de turma ocorra sempre às sextas. Ainda bem que foi na minha turma. Uns reais a mais.


Viagem mais tranquila que já fiz. Na passada, tiramos o navio do estaleiro e levamos para a baía de Guanabara, onde sofremos quase uma dezena de inspeções. Em uma frase, é organizar o caos para a aprovação de alguém que vem com a regra do jogo debaixo do braço. Marinha, Anvisa, Petrobrás, Bureau Veritas, uma cambada. Só quem já fez pra saber o trabalho que dá...


Nessa viagem tiramos o barco da baía e levamos pra operar. Hoje já posso dizer que fiz parte da tripulação de um navio desde o dia zero. Feliz.


Navio novo é uma beleza. É só manter o padrão do início. Só deixar as coisas como estão. Navio velho... Não interessa o quanto se trabalhe, sempre tem aspecto de mal feito. Um porque ele tá velho mesmo, o aspecto das coisas está ruim. Só melhora se mudar a tal coisa. É como receber uma visita em sua sala com a tinta da parede descascada. Não interessa o quanto se limpe, o ambiente com aparência promíscua só se resolve em se pintando novamente a parede. Segundo porque a tripulação já é antiga no navio velho. Aí já estão fartos da mancha na parede, da cadeira que pende pro lado com o balanço do navio, do controle remoto colado com fita. A insatisfação travestida de costume com o velho é tão aparente quanto a parede descascada limpa com intenção de melhor aspecto. Um acordo nunca verbalizado obriga as partes a fingirem que não há um desconforto antigo, fluorescente, impossível de não se ver. Tudo em nome da boa convivência. Um mês é tempo demais pra já se começar insatisfeito. Ainda mais quando esse mês é o do carnaval, e as esposas estão "em casa".


Navio novo é uma beleza. Ou não. Se você é leitor dos diários já sabe que estivemos sem ar condicionado. Agora, com o navio longe da costa, descobrimos o que mais foi mal instalado, quantas gambiarras ganhamos de presente do estaleiro, e mai alguns erros de projeto e planejamento. Eu costumo ter sorte. Então, minha descarga já foi trocada e já parou de funcionar de novo. O chefe de máquinas percebeu que a peça reserva que o estaleiro mandou lacrada no pacote já era usada e bem usada. Em dois dias, tirei do vaso oito baldes de água de merda. Estavam no vaso havia cinco dias. Muito bom ar pra dormir. Quando tirei o último balde de merda, a descarga funcionou. O barulho do vácuo e o vaso de boca aberta pareciam rir de mim. Pra que ele não volte a rir, cada dia cago em um camarote diferente.


Mas no mar e na minha cabeça nada disso é problema. Acho até necessário que aconteça. Problemas matam monotonia e rotina. Quando eles vão embora deixam uma sensação de bem estar imversamente proporcional ao desconforto que causaram. Faz bem e passa o tempo.


Entre outros motivos, vim trabalhar embarcado , mais até que pelo dinheiro, pela longevidade da atividade petrolífera que o pré-sal prometia. Papo de eu me aposentar e ainda arrumar vaga pro filho que ainda nem tenho. Sou taifeiro. O que significa cozinheiro de segunda classe/faxineiro/arrumador. Trabalho pelos três. Mas também ganho pelos mesmos três.


É um trabalho quase sempre ingrato (levanta a mão quem sonhou em ver seu filho areando panela, lavando chão e com sacos de resto de comida pra lá e pra cá) mas que propicia uma vida tranquila, sem medo do final do mês. Na minha concepção, só pode dizer com autoridade que todo trabalho é digno; ou o velho "pedir é fácil... vai catar uma latinha, vai lavar uma roupa" aquele que tem sincera disposição para fazê-lo caso a necessidade ordene, ou caso o objetivo passe por caminhos azedos. Minha mente era lúcida quanto a isso desde a adolescência. Obrigado, mãe.


Só quem está dentro do meu coração sabe o quanto estou feliz e saciado com esta profissão, e o quanto fiquei lisonjeado em ter dado um tiro tão certo na vida.


Só que o José Serra apareceu na tv com seu sorriso de Homer Simpson (e chegamos ao motivo deste diário). E pela notícia, seu sorriso parecia gritar o bordão do Chapolin saindo de trás do esconderijo. E é bem isso. Os tucanos brasileiros têm, na verdade, a característica que define a raposa. E é bem isso. Não contávamos com sua astúcia. Na verdade, claro que contávamos. Mas éramos poucos.


Assim como a Vale na era FHC, hoje é a Petrobrás. Ela esteve lá, muito bem durante décadas. Até que descobriram uma quantidade indecente de petróleo. Aí , o que era o passaporte para o desenvolvimento do país, foi transformado (por uma formidável união de interesses entre bancos, governos internacionais, agências financeiras, bolsas de valores, redes de mídia e suas agências de propaganda e claro, empresas de petróleo) no mal do século, no expoente da corrupção, numa barragem de lama da vergonha que explode e caga tudo por onde passa.


-O povo brasileiro, cansado de todos os dias levantar da cama e pisar em um novo prego enferrujado com os mesmos pés já inflamados pelo pregos de todos os dias anteriores de vida de povo;


- A classe média, agora obrigada a sofrer por todas as vias que definiam seu epíteto de classe média: andar de avião com o porteiro, ao mesmo tempo que paga direitos trabalhistas à antes canina doméstica, e ter que ver a filha da mesma doméstica nadar em sua piscina, entrar na Universidade Federal. A classe média olha no espelho e não sabe dizer o que vê.


-O rico quer o que sempre quer. Máximo lucro pelo mínimo preço. Aí seus baluartes do saber, pós-doutores em astrologia e ciências ocultas acusam o país de ter "muito governo e pouca liberdade econômica".


-E o pobre fudido,que começou ter algum poder de compra, vê na tv que a inflação tá alta, a passagem aumenta, e...


TODOS compram a crise irrestritamente. Incrível a facilidade de dar tudo certo nas coisas erradas.


Um flashback: há uns anos, trabalhei no escritório central da Chevron no Brasil. Fica sobre o viaduto da avenida Chile, aquele prédio que na frente tem uma banca e um ponto de ônibus. Do outro lado é a sede do BNDES. Pensar na proximidade desses prédios na data de é até engraçado.


Pois então, nessa época, o presidente da Chevron Brasil era o George Buck. Um excelente nome. Xará do presidente de então em seu país, sobrenome que é simonimo de grana em sua língua. Um cara bem simpático, como todo economic hitman. Se esforçava pra falar português. Sempre sorrindo. Também pudera. Recebia salário tanto nos EUA quanto no Brasil. Aqui seu salário era mais baixo. Quanto menos imposto tributado fora da "América", melhor. Então em reais, seu contracheque dizia 400 mil mensais. Fora, claro: cobertura de frente pro mar, sedan de luxo com motorista, escola bilíngue ou trilíngue pros filhos, elevador privativo no escritório, funcionário até pra pentear os cabelos que a roupa não deixa ver.


Um dia, subindo de elevador comigo, resolveu treinar português com alguém que não precisaria conversar nunca mais.

-"Bom dia, qual é o seu nome?"

-"Arthur. "

-"Arthur, sabe qual é o melhor negócio do mundo?"

-"Ah, tenho pra mim que é banco. Os caras vendem dinheiro..."

-"Bom palpite. Mas não. O melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada. E qual o segundo melhor negócio?"

-"Aí deve ser o banco..."

-" Errou de novo. Uma empresa de petróleo mal administrada."

Sorriu e saiu do elevador. Nunca achei que um diálogo tão rápido faria tanta diferença pra mim. Talvez os 400 mil fossem bem pagos. Ou talvez não. Meses depois a Chevron foi responsável por um vazamento de petróleo na bacia de Campos. Ele perdeu emprego e a carreira. A empresa qual hoje eu estou é a que está lá limpando. Até hoje. Fim do flashback


Ontem o José Serra e o Renan Calheiros fizeram passar em caráter de urgência o projeto que retiraria da Petrobrás o monopólio das explorações no pré-sal. O que quer dizer abrir nossas reservas de petróleo para a exploração gringa, com lucros gringos.


Como?


A votação é sempre rápida, sempre urgente, sempre pouco noticiada. O que interessa aqui é o processo. Como um negócio trilhonário pode passar batido assim, e pior, parecer tao legítimo, tão correto mesmo?

Voltem na Vale. Dava mais lucro que chuchu na serra. De repente, notícias de prejuízo, de crise, disso e daquilo. Aí o FHC contratou o Bradesco pra avaliar o valor de mercado da Vale. O valor real (patrimonial) era de mais ou menos 300 bilhões. Mas a marca do neoliberal é a privatização. Então é mais fácil e rápido vender algo que vale muito por um preço baixo. Assim, a avaliação final da Vale pelo Bradesco, e assinado pelo FHC foi de 3 bilhões, apenas. Cem vezes menos do que seu patrimônio valia. Eis o efeito da propaganda de crise. Aí o presidente disse em praça pública: "Vou vender a Vale! Quem quer comprar?" e é óbvio que o Bradesco levantou a mão. Estava comprando uma nota de cem reais com uma moeda de um real.


É o mesmo mecanismo do desmonte da Petrobrás.


-A empresa bate com folga um recorde de produção todo ano. William Bonner anuncia prejuízo de 500 milhões.


-Nunca tantos pequenos empreendimentos foram abertos . Bonner diz: inflação e desemprego


- Os pretos e pardos estão lotando as faculdades. Corrupção


- Estamos exportando estudantes. Corrupção


-Não existe mais o bloco sobre fome e miséria no Jornal Nacional. Corrupção


-O abismo entre pobres e não pobres diminui vertiginosamente.Corrupção


-O índice de desenvolvimento humano do Brasil começa a não ser tão ridículo. Corrupção


Sabe-se pouco ou nada sobre o real estado de coisas. É a mesma relação entre número de crimes e sensação de insegurança. Se há muitos crimes e eles não são noticiados, paira certa tranquilidade, a exemplo da ditadura militar. Mas se muito se fala de crime, ainda que com taxas seguras, há uma histeria coletiva, um medo do outro que é sempre um inimigo em potencial.


Os dados estão tranquilos, estão favoráveis (hahaha). Mas as notícias vendem mais que o petróleo do George Buck. O que nos leva à seguinte pergunta: a que preço será vendida a Petrobrás que "dá prejuízo de 500 milhões" em um país em crise econômica, rebaixada na tabela dos bons pagadores, com processo de impeachment? É o mesmo mecanismo da venda da Vale. Só que somou-se uma enorme crise política. Assim a compra sai com desconto extra.


O duro é ver o povo, ou melhor; o marítimo achar bom. "Tira da mão dessa vagabunda dessa Dilma". É. O Serra nem precisou ser presidente pra sair vitorioso.


Não sabe ele que com o inevitável fim da lei de partilha (que as coisas já são muito ruins com ela... sem ela então é foda) é questão de tempo para o próprio marítimo perder o emprego pra um filipino da vida. Bora lá comprar gasolina (que já é uma sacanagem sendo nacional) pelo preço de importada.


Por hoje, acho que já deu. Seis dias pro desembarque. Talvez tenha mais assunto até la.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Diário de Bordo 30-12-15



Dois mil e quinze. Um ano montanha-russa. De Janeiro a agosto desempregado. Outubro, desempregado. Outubro, empregado. Embarcando em um navio que por pouco não afundou com suas 650 toneladas de óleo na baía de Guanabara. Sobrevivemos, eu e o navio. Depois de 28 dias, ainda fiz mais 17 em outro barco. O companheiro de trabalho de então se acidentou e eu assumi o setor. Graças a Deus deu tudo certo. Desembarquei e, nove dias depois me mandaram pra Santos, para buscar o navio novo da empresa, que estava em processo de finalização e entrega.

Tudo correu bem por lá. Recebemos as chaves em 23 de dezembro e zarpamos para a mesma baía de Guanabara do quase acidente. Chegamos em uma véspera de natal linda, que dá vontade de emoldurar as fotos. E todos os dias têm sido lindos, celestes, divinos. Mas em algum lugar há um portal aberto, por onde o fogo que sai lá do inferno, do centro da terra, do Tártaro mitológico, sei lá de onde; queima invisível o ar tão celeste e lindo nas fotos, o nosso corpo, a nossa mente, os nossos mais recôntidos pensamentos secretos, a nossa paciência, o nosso sono merecido, a água do chuveiro, o gelo que não dura.... O caralho a quatro.

Tá quente pra diabo.

Entrou água salgada no sistema do ar condicionado.

Estamos sem ar condicionado.

Tá quente pa caralho.

Eu trabalho na cozinha, e como não podemos ter fogo por lá, o fogão é de chapa elétrica de cerâmica. Ela demora um pouco a ganhar calor. Também, depois que ganha, negão... dá pra fazer café com a chapa desligada. Estamos sem ar condicionado. E tá quente pa caralho. Fogão, forno, chapa, fritadeira. A cozinha chega a 50 graus fácil, e em minutos. No jornal, a repórter diz que no termômetro, 36. Mas na sensação, 55. Perguntei pra tv qual a sensação de onde o termômetro diz 50. A repórter fez que não ouviu e começou a falar de futebol. Filha da puta. Quente pa caralho...

Toco de roupa 3, 4 vezes ao dia. Alguns não tripulantes que vêm a bordo com alguma finalidade, seja documentos, pintura, materiais ou qualquer outra coisa, olham pra mim na cozinha com pena nos olhos quando me vêem com a roupa grudada no corpo. Faço cara de brabo...ahahahaha

Dormi no convés. Papelão no chão, coberto com o edredom, travesseiro, samba-canção, eu. Azar que vai sujar o edredom novo... Nas adversidades mudam-se as prioridades.

Trinta de dezembro. Amanhece tudo igual. O mesmo divino-diabólico entre paisagem e temperatura que poucos lugares no mundo oferecem. Já faz 7 dias. A mente e a impaciência já esfriaram, tamanha a adaptação do ser humano. O mantra é "fazer o quê?".

Trouxeram aparelhos de ar condicionado portátil, daqueles que esfriam pouco o ambiente, mais esquentam pra ceceta o duto de saída. Dentro do camarote a noite é um pouco menos insuportável. Mas, como não tem onde enfiar o duto de saída de ar quente....tá tudo pro corredor. Ou seja, os corredores estão quase na mesma temperatura da cozinha. Os corrimãos são de metal. Melhor não encostar.

Hoje, depois de várias inspeções e auditorias que fizeram todos trabalhar até bem mais tarde e sem descanso, consegui tirar uma hora e meia depois do almoço pra dormir. Precisava. A desidratação constante na cozinha e as noites mal dormidas trouxeram um cansaço exponencial. Fazia o mesmo sol. Quando acordei, senti o navio adernado (tombado) a boreste. Deixei pra lá. "Vou fumar um cigarro e voltar a trabalhar".

Desci as escadas, entrei no corredor de acessovao convés. Dois marinheiros passaram por mim. Água pingando pelos queixos e macacões. Olhos arregalados. Nenhuma palavra. Foi quando olhei pro final do corredor; o convés. Um vento miserável, chuva muito grossa, daquelas de cair barranco. "Caralho, eu dormi por quantos dias?" Só depois percebi. A primeira chuva de verão. Vento: 64.7 nós. Quase 130km/h. A baía é rasa e o fundo é cheio de lama. Ruim de fundear. Estávamos sendo levados pelo vento e pela maré, de encontro a outro navio.

O comandante entrou em contato com o do outro navio, pelo rádio. Os dois ligaram os motores. O nosso contra o vento, o deles a favor. Ainda assim, o outro navio crescia diante de nós. "Que porrada que vai dar...se segura!"

Passamos a uns 8 metros do outro navio. É uma sensação pior do que quando um carro passa do lado de você pedestre, e vc sente o vento e ouve o que o motorista conversava com o carona. Quase arrancamos a âncora deles. Foi por muito pouco mesmo.

Em dez minutos a chuva parou. O vento também.

A baía de Guanabara é perigosa.

Faltam 7 dias pro ar condicionado voltar a funcionar.

Feliz ano novo.

Diário de Bordo 23-11-15



Embarcado desde 14 de outubro. Navio atracou hoje em Niterói, a 10 minutos da minha casa, mas ainda não é o dia de desembarcar. Desenhem essa sensação com seus pensamentos.

Dia de porto é trabalho dobrado. Consegui parar pra fumar. Assim que sento, toca o telefone. É São Paulo. Paulista ligando ou é pra vender ou é pra cobrar. Mas como estou há 40 dias sem falar no telefone, me senti até importante. Pensei em dar uma chance pro paulista e atendi.

"Alô."
-"Só um minuto."
-"Ahahahahahaha, negão , esse é o meu primeiro minuto do dia. Não te dava nem se vc fosse muito gostosa...ahahahaha..."

Desliguei, terminei de fumar e voltei ao trabalho. Até a próxima, pessoal!

Diário de Bordo 08-09-15



Hoje eu deveria desembarcar. Não aconteceu. Não fomos ao porto. Nesse caso, eu deveria ser transferido para um navio plataforma via cesta.

O guindasteiro de lá desce uma cesta feita de corda e em forma de árvore de natal no nosso convés , eu seguro nas cordas e ele me leva até a outra embarcação. Eu fico a uns 10, 15 metros do chão. Ou melhor, da água. Entre os costados dos dois navios a contrabordo. Mas não aconteceu. Ventava demais. O limite para essa manobra é 21 nós de vento. Estamos com 35.

Sacanagem. Peguei as cascas de fruta que cortei às quatro e meia da manhã para o café, e mais uns frios e embutidos velhos para jogar no mar. Fiz isso mais pra testar o vento. Realmente tava ventando pra cacete, tudo o que eu joguei voltou pro convés. Se eu estivesse na cesta, poderia ter porrado nos navios. Ficaria balançando, pendulando, voando de um lado para outro no suspense de bater em uma embarcação ou na outra. Tempão que não ando em brinquedos de parques de diversão. Deixa eu ir lá limpar aquela cagada.

Mar engrossando. As lixeiras, atadas na parede por um extensor, andam de um lado pro outro, o dia inteiro. E assim fazem todas as caixas do paiol seco, atrás da taifa. E assim faz tudo o que tem dentro delas. Assim também as cebolas, batatas, melões, as melancias que caíram com o balanço e racharam, o refogado que se mistura sozinho no vaivém. .. assim fazemos todos nós.

Estamos balançando muito, mesmo sem navegar. Vindo da câmara fria para a cozinha, olhei para a frente. No final da cozinha, acima das lixeiras que andam para lá e para cá, há uma vigia. Senti uma pressão nos joelhos, as pernas dobrando, dificuldade de andar para frente. A cozinha virou uma ladeira com im ângulo de uns 30 graus. A antepara da vigia está para a proa. Pelo vidro da vigia, vi apenas o céu cinza. Contei 1,2,3,4,5,6,7. Sete segundos, foi o tempo do mar levantar a proa, dela apontar para cima, do refogado vir para trás, e de, finalmente, o mar voltar a aparecer pelo vidro. Sete longos segundos. Enquanto a proa descia, meu corpo ficou mais leve, e eu desci quase que correndo até a metade da cozinha.

Esse movimento do navio quando a proa sobe e desce; quando é natural é o jogo. Quando é forte, é chamado de caturro. E hoje estamos caturrando. E não tem tempestade lá fora. Não tem problema. No final do caturro, quando a proa bate na água, o barulho que faz no navio é o mesmo de estar dentro de uma nuvem de tempestade. O som é amedrontador. Por um segundo dá a sensação que o casco está partindo ao meio. Aí você espera mais uns dez segundos pra ter certeza de que não precisa vestir colete, dia que segue.

Entrei no camarote para o descanso da tarde. Parece que fui assaltado. Tudo foi revirado. Logo mais pode ter inspeção, vou arrumar antes de dormir. Quando consegui deitar, o navio ainda caturrava. Deitado a vibração aumenta. Quando batemos na água novamente, deu pra sentir a vibração das cavernas do navio, se mexendo para anular a força do impacto. Ontem à noite, na sala de estar, um caturro forte fez as cavernas mexerem tanto que deu pra ver a sala inteira ficando em forma de ferradura , e voltando ao normal depois. Consegui perceber porque olhei para o fundo da sala, e vi que a antepara estava voltando para trás.

As condições do tempo devem melhoras em cinco ou sete dias, e talvez eu vá pra casa.