quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Diário de bordo, 20-12-2017. Hotel Othon, Macaé

HOMEM AO MAR

Hoje é o dia de embarcar. Estamos no hotel, como de praxe. No dia anterior ao embarque, temos uma reunião no escritório. É a reunião de pré-embarque. É feita na sede da empresa, no Rio. Quando termina, pegamos sempre um carro para Macaé, dormimos no Othon, e no dia seguinte; normalmente pela parte da manhã, embarcamos.

Dessa vez foi diferente.

Na tarde anterior ao pré-embarque, recebi (recebemos todos, em vários grupos diferentes no whatsapp) fotos e áudios sobre um rapaz que estava desaparecido de uma embarcação. Todo mundo viu, mas ninguém teceu discussões ou comentários sobre. Eu não comentei em casa. A família sempre tem muito medo de mar. Puxam para eles o medo que a gente não pode ter. Conosco ficam o respeito, a atenção. E as histórias.  

Na manhã de ontem, a reunião. Vem o RH: fala, vê quem tá sem algum tipo de documento, vai embora. Pessoal de compras: mostra inovações no sistema de pedidos, alinha procedimentos, vai embora. Nessa empresa, até mesmo a diretoria vem, fala sobre o momento da companhia, as cobranças do cliente que devemos atender, e tal; vai embora. Enfim, todos os setores envolvidos na operação vêm e dão seu recado; trazem e levam informações necessárias para que a roda continue a girar.

Eis que vem o QSMS - o pessoal da segurança do trabalho. Eles vêm sempre com o discurso de usar os equipamentos de segurança, ter cuidado pra trabalhar, aquilo. E trazem os avisos de segurança circulados pelo cliente. Os últimos acidentes (pois é, todo mês tem uma penca de acidente), as causas, o que deveria ter sido feito para que não acontecessem.

Nosso cliente estava com uma campanha de final de ano. Em dezembro não deveria haver nenhum acidente. Não deu muito certo. Em dezembro jã são três mortes. Um motorista de caminhão que não explicaram muito - já que não trabalhamos com caminhão; um cara em uma plataforma que estava no lugar errado no meio de uma operação. Um cara estava operando uma máquina de perfuração, daquelas máquinas enormes, pesadas. Na ponta dessa máquina tem tipo uma pá, uma garra apontando pra cima. Quando ele botou essa máquina para girar, ela imprensou o outro cara contra uma parede. Cortou ele no meio. Botaram lá uma foto de como teria sido o momento. E falaram nesse rapaz, o que caiu no mar.

O cara estava lixando a asa do passadiço (corredor aberto que fica em volta do passadiço. É a área externa dessa parte do navio, fica sempre no último andar) para, em seguida, poder pintar. Estava em cima de uma escada. Dessas de alumínio que a gente tem em casa. Nas mensagens que havíamos recebido no dia anterior, as pessoas diziam que ventava bastante desde cedo, e que o mar estava mexido também. 

Por volta das cinco da tarde, o cliente foi notificado que um tripulante havia desaparecido. Notificaram às cinco. Claro que antes de notificar, procuraram o cara pelo barco. Não encontraram. Pela foto, a lixadeira ficou pendurada pelo fio, na balaustrada . A conclusão que a gente tira das fotos e dos áudios, é que o cara estava sem o equipamento de proteção correto para o serviço, que bateu um vento, o mar balançou, a escada mexeu, o rapaz desequilibrou e caiu la de cima.

Quer dizer, enquanto ouvíamos isso na nossa reunião; já haviam se passado mais de doze horas. E nada de acharem ele. 

Almoçamos no Rio, entramos no carro e viemos para Macaé. Já no caminho, um amigo recebeu uma mensagem dizendo que nosso embarque atrasaria um dia, já que foi necessário apoiar de alguma maneira nas buscas pelo tripulante desaparecido. Nesse caso, deixamos as coisas no hotel e fomos ao comércio da cidade. Alguém sempre precisa comprar alguma coisa. Eu precisaria de uma bermuda e uma camisa para usar no dia extra. Compramos o que precisávamos, e uma vez que tínhamos um diz extra de folga, sentamos para tomarmos uma cerveja. Na terceira garrafa veio uma mensagm no nosso grupo: "a família do rapaz que morreu acabou de chegar no nosso hotel. Cuidado com os comentários."

Aí a coisa mudou de figura. O acidente, a tragédia, o pesar. Estavam agora todos muito perto de nós. Já era hora da janta, e tínhamos que voltar logo para o hotel, ou ficaríamos com fome. No caminho, encontramos outro tripulante. 

- Como vocês sabem que é a família do cara?
-Ah, tava todo mundo jantando. De repente, entraram uns caras de macacão e entregaram uma bagagem a uma senhora. Ela começou a chorar.
-Caralho, que merda.

Voltamos ao hotel. Alguns sairam de novo, tinha um tal karaokê rolando num bar. Eu fiquei. Já estava cansado, com sono. mas só fui dormir lá pela meia noite. A cabeça tava nessa situação.

Acordei cedo, sete horas. Fiz força pra dormir de novo mas não consegui. Fui na varanda e fumei um cigarro antes de descer pra tomar café. O pessoal do hotel já sabe que eu fumo. Sempre acham filtros de cigarro usados no parapeito da varanda. Agora quando eu chego tem um cinzeiro e fósforos promocionais com o emblema do Othon ao lado da minha cama. Meu companheiro de quarto ainda roncava, então escovei os dentes e desci rápido para que ele não acordasse antes de sua hora.

Peguei o elevador sozinho, e quando cheguei ao saguão e a porta se abriu, algo me empurrou de volta para trás. Uma senhora entrava no elevador. Uma mulher mais jovem, que não parecia ser familiar dela, a segurava pelo antebraço. Falou baixinho "deixa só o rapaz sair". A senhora tinha olhos de horizonte. Sem dúvida são esses os olhos que procuram alguém em alto mar. E não havia mais como não saber que uma mãe que perdeu um filho acabava de cruzar o meu caminho.

Já sentei para tomar café sem resposta para aquele dia. A nossa segurança (segurança no sentido de atitude, determinação) é a resposta que damos para o dia, para a vida. Eu já não tinha o que responder. Já vi mãe perdendo filho. Já vi mãe perdendo mais de um filho. A verdade que essa dor sem resposta traz, sempre será desorientadora. Sempre faz calar.E é algo que não há como se acostumar. Não se naturaliza isso, porra.

quinze minutos depois, descem todos eles novamente. Iam tomar café. O refeitório estava vazio. Eu, um amigo do barco na mesma mesa para dois. Chegaram a senhora, a mulher mais nova, e um senhor. A mulher beirava os quarenta anos. O casal passava dos cinquenta. O marinheiro desaparecido poderia ter exatamente a minha idade.

O rosto da senhora estava vermelho. Ela tinha subido pra chorar. E agora estava minimamente recomposta, e tinha que comer. Silêncio na minha mesa. Levantei para pegar frutas. A mulher que a acompanhava dava sugestões a ela. Eu não consegui ficar quieto, alheio.

-Esse queijinho aqui é bom pra botar no pão, senhora.

Ela respondeu um "é?" com as pálpebras pesadas, semicerradas, mais uma vez formando um horizonte no olhar. Deixei minha fruta na mesa que estava mais perto, e segurei na mão dela.

-Eu quero que a senhora saiba que tem muita gente com esperança pela senhora. Não pense que a senhora esteja sozinha, não. Na nossa profissão, a gente tem uma coisa que mesmo não conhecendo uma pessoa que trabalha em outro barco, todo mundo sabe o que todo mundo passa. E todo mundo pode passar os mesmo perigos. A gente sempre pede pra que não aconteça com a gente. Mas às vezes, acontece. Mas a gente tá com a senhora. Eu tenho mãe também, eu não esqueço dela nunca. E eu sei que ela não esquece de mim também. Ela voltou a chorar. Notei que a outra mulher ficou um pouco impaciente, como se estivesse pensando "porra, agora que ela conseguiu ficar calma, vem você".

-Eu posso dar um abraço na senhora  

E abracei aquela mãe. E dei uma abraço de filho naquela mãe. Dei nela um abraço de milagre. Maior que a alegria do nascimento de um filho é a alegria da notícia de se encontrar vivo, um filho dado como morto. Quando a gente acostuma com a morte, o milagre da vida é infinitamente maior. Foi ese o abraço que dei nela. Desejei puxar dela o tanto de tristeza que eu conseguisse, para que ela pudesse fazer sua refeição. Enquanto estava no meu abraço, ela disse chorando: "o meu filho era tão amado...". A morte de um filho traz para o rosto, as rugas e, para o corpo, a estafa que se formam na alma.

-Eu não tenho dúvida disso.

Dei um beijo na testa dela e voltei pra minha mesa pesando toneladas a mais.

Subi pro meu quarto para escrever sobre o dia de hoje. Meu computador não quer ligar, essa semana eu vi que tinha um monte de formiga morando dentro dele, mas ele ainda ligava. Então desci para escrever no computador do hotel. A mãe do rapaz estã sentada num sofá, bem atrás de mim. Ela não está chorando.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Diário de bordo 06/09/2017 - Bacia de Campos, altura de Macaé

Sobre Saudade

O homem é um animal social. Sabemos o que somos a partir de uma relação de oposição àquilo que vemos nos outros e não encontramos em nós. É assim que nos conhecemos, em princípio. As pessoas se repelem ou se afinam quando seu discernimento traduz às suas consciências o que há de semelhante e de diferente entre as personalidades. Curioso; o que há de semelhante pode, por vezes, ser motivo de repulsa. É que o orgulho maneja uma lente de aumento quando o defeito que há em nós é visto também no outro. Se olhamos para dentro, o orgulho vira a lente do avesso e o defeito quase que desaparece. É a consciência quem vai decidir se é impossível, maçante, tolerável, obrigatório, necessário, recompensador ou prazeroso estar perto dessa ou daquela pessoa.

Saudade é quando a distância é muito maior que o prazer de estar perto.

É ruim mesmo, a saudade. Até quando é saudade boa, tem aquela alfinetada que o tempo dá na gente. Anda só pra frente.

Saudade é o passado dizendo que não pode vir até nós. Mas que adora ouvir a gente chamando.

Eu conheci outro tipo de saudade no mar. Tem a saudade de casa, da família, dos bichos, todas as saudades óbvias que quem fica confinado por um mês pode ter. Mas não é isso. A gente aqui tem uma saudade que todo embarcado vai saber o que é. Quando a gente muda de tripulação, de barco, de empresa; o nosso convívio muda completamente.

No mesmo barco, as duas tripulações podem ter climas e comportamentos completamente diferentes. Uma muito unida e animada; outra onde se fala o mínimo, por exemplo. Quanto maior o barco, maior o número de pessoas, maior a quantidade de facções dentro de uma mesma tripulação. Eu sou observador, gosto de ver como as pessoas se comportam. Mas é foda, rapaz. Eu sou um dos caras também, entendeu?

Tem nego que passa cinco, dez anos no mesmo barco, e vê várias pessoas indo e vindo. Mas continua lá. Eu , em pouco mais de três anos, já estive em dez barcos. Eu já vi foi gente pra diabo nessa vida de vapozeiro. Algumas vezes eles estavam há muito tempo juntos, e era eu quem estava passando por lá. Outras vezes eles vinham e iam e lá estava eu observando.

A navegação é um negócio que já nasceu internacional. Diga na Grécia antiga que no seu tempo inventaram a globalização e vão rir da sua cara. Então essa coisa de marinha possibilita encontros próximos do impossível em outra situação. Filipino, canadense, Tio Sam, indiano, paquistanês, búlgaro, português, alemão, francês, colombiano, mexicano, sul-africano, escocês, inglês, belga, russo, holandês, norueguês - e aí ainda não estão todos com os quais eu já trabalhei.

E aí é que está a saudade que a gente aprende a ter. Algumas dessas pessoas que estiveram comigo já foram tarde. Muitas delas não fazem diferença nenhuma, mas valeu a experiência. Mas tem gente que é ruim de saber que o contrato  vai acabar, que recebeu proposta de salário melhor, que precisa sair de licença (e aí dificilmente volta para a mesma tripulação, às vezes nem pro mesmo barco). Esses encontros que nunca aconteceriam em terra, dificilmente o mar deixa acontecer duas vezes. Então tem gente que quando vai, você tem que aprender a dizer a você mesmo "porra, nunca mais?". E isso acontece com frequência quando você é sociável. Encontrar esses amigos por acaso é sempre bom demais.

A parte boa da saudade é a certeza de gostar com sinceridade das coisas, das épocas, das pessoas. Se pela saudade a gente fica bravo com o tempo, também por ela fica satisfeito com a gente mesmo quando sabe que a nossa capacidade de gostar ainda é mais forte que os pesares que o tempo traz.

Dedico esse diário de bordo a dois amigos do mar. O seu Ricardo de La Torre - um senhor colombiano que com toda a paciência e experiência me ensinou os atalhos do trabalho cansativo e ingrato do taifeiro , e ao Joca, que me dói demais estar longe, irmão. A dor do teu ombro operado ainda dói nas ausências das nossas conversas.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Diário de Bordo 31//5/2/17 , Bacia de Campos, Altura de Macaé

As odes ao mar são uma constante no pensamento humano desde sabe-se lá quando. Certamente não em todas as famílias mas; sem sorte de erro, em todas as gerações houve (e podemos também colocar o verbo no futuro sem que seja isso um vaticínio oriundo de dom. Se bem que em colocando-se-lhe no presente podemos abarcar todos os tempos em um - que é em verdade como é o tempo em seu próprio entendimento) pessoas que sofreram (ão, em) de um profundo e passivo sentimento (e não sensação, que essa mora apenas numa partícula de agora) de admiração por esse mar de tudo que se possa existir que é o mar.

 As grandes mentes imortalizaram suas reflexões quando as jogaram por sobre a água salgada. Tenho pra mim que sabiam todos que dá-se um presente a Deus quando  se deita uma homenagem vinda do coração no espelho que ele próprio fez pro céu. Decerto sabia também Deus que haveria entre nós aqueles que, concluindo-se impotentes de entregar no céu suas singelezas. lançariam todas ao mar. E quando Se contemplasse em seu espelho, diante de Si estariam os pensamentos-obras do homem. Assim é a genialidade das obras na natureza. Tudo diz sem nada falar. Tudo o que existe desde uma fase pré-verbal é maravilhoso. Até mesmo nós, certo?

Dizia quando jogava milho aos pombos, King Benny - um velho mafioso de Hell´s Kitchen, quando alguém perguntou por que um velho assassino iria gostar de pombos,  "eu gosto de tudo o que não fala". Ele estava coberto de razão.

Platão, lá no século V antes de Jota Cê já dizia que "existem três tipos de homens: os vivos, os mortos, e os que vão para o mar.". O próprio Jota Cê "que morreu por milhões, mas andou com apenas 12" foi buscar eles todos dentro d´água. Veja você.

Victor Hugo, quando exilado na ilha de Guernsey, escreveu sobre os "trabalhadores no mar". A propósito, seres humanos, leiam Victor Hugo para que vocês não morram em vão. Se ele fosse convidado pra escrever bula de remédio, aspirina curaria depressão.

Hoje o mar amanheceu como o clássico mar de almirante. Uma coisa linda. A impressão que dava é que era feito de gelatina, e se a gente tocasse nele, tremeria todo até o continente, sem que nossa mão afundasse. Às vezes faz a gente pensar que nem criança, o mar. Saudosismo que faz verter lágrimas, nossa amostra grátis de oceano. Lágrima no paladar é a o mar dizendo Namastê.

Nosso caráter é a média de nossa conduta. Nossa conduta é a fração que tornamos ações da nossa personalidade. Nossa personalidade é nossa postura diante da vida. Nossa postura é o quanto pendula o eixo que tem de um lado os pensamentos aproveitáveis e do outro os mesquinhos na balança  da nossa solidão.

Os pensamentos me vêm na maioria das vezes na mesma voz, que é a minha mesmo. Mas algumas reflexões vêm por outras vozes. É como se cada tipo de pensamento tivesse um jeito, um estilo próprio, e vem do seu jeito característico. É como Fernando Pessoa, saca? Era um, mas era vários. Acho que assim é o pensamento de todo mundo. Quando o cara fala, "ah, mas o meu jeito de pensar":  é difícil essa coisa de jeito de pensar. Você pensa, simplesmente. Só que você pensa muitas coisas. Você pensa inclusive, enquanto muitas coisas: enquanto filho, enquanto pai, enquanto estudante, enquanto macumbeiro, enquanto ser político, enquanto o diabo. "O meu jeito de pensar", calma aí, cara pálida. O caso é que eu olhei o mar e comecei a pensar. É isso o que eu queria falar, caso não tenha feito sentido nenhum. Já que tem alguém lendo e dialogando comigo, este é o meu jeito de pensar...

- Mas tá uma lagoa! Por um momento eu não consegui nem identificar o horizonte.
- Tá. E desde o dia dez tava tão ruim...
- Já sabe, né? Vem mal tempo aí.
- É sempre assim.
- Quando fica espelhado assim, né? Sempre vira depois.
- Não. A tua mania de adiantar logo que a coisa vai piorar, sem nem aproveitar quando está boa.

Pensamentos à parte, o fato é que o dia hoje foi tão bom que o próprio mar descansou e fez pose para a foto.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Diário de Bordo 31/03/2017 Bacia de Campos, altura de Macaé

INTRODUÇÃO

Os dias como o de hoje fazem entender que nem todas as lágrimas que formam os oceanos são feitas de saudade. As que escapam dos cantos dos olhos por motivo de alegria valem aqui em ouro o peso dos nossos problemas.

Você é brasileiro. Você sabe que a terra patropi é a terra da pegadinha, da piada de português, da vídeo cacetada. Bota papelão na carne, nego faz uma tonelada de piada. Vai se aposentar com 170 anos, vai fazer piada até se aposentar. E vai no cemitério sacanear os amigos que não conseguiram. Esse é o brasileiro. Bicho muito filha da puta, cara. O cara faz piada dele próprio...

Que dirá dos outros!

PRIMEIRO ATO

Todo marítimo tem uma regra com a família. Aconteceu algum problema aí em terra? "Eu posso resolver daqui de onde eu estou?" Dois caminhos:
1- Se a resposta for sim, geralmente é dinheiro, ou tem que falar com uma pessoa X para resolver alguma coisa, e só você tem o contato ou é você que tem que falar pro fulano fazer a tal coisa.
2-Se a resposta for não, NUNCA me conte enquanto eu estiver embarcado. Só se for morte de parente de primeiro grau. Aí por lei o cara tem que desembarcar. Não resolve, mas tá lá, né? Qualquer outra coisa, é uma grande sacanagem levar isso pro cara que tá preso aqui. Já existe uma ansiedade natural. Leva bastante tempo pra acostumar com ela. Não que ela suma algum dia, mas você passa a administrar muito bem. Imagina alguém torturando uma pessoa que você gosta muito enquanto você está vendo tudo atrás de um vidro. Pinte esse quadro com suas próprias emoções, e é isso. Aí imagina que chegou o dia de ir embora, e de repente vem a notícia: vai ficar todo mundo aí por mais uma semana. Ou pior! O cara que te rende quebrou a perna. Dobra mais um mês. Quem franziu o cenho quando leu, entendeu. Mas mesmo entendendo, não faz idéia do que é isso.

Pois então:

(NOTA DO AUTOR

Antes de começar, é importante dizer que isso aqui é uma obra de ficção, e que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, e que os personagens não representam pessoas reais, falou? Agora que eu já estou calçado, vamos nessa.)

SEGUNDO ATO (volte à última frase do primeiro ato e prossiga pulando a nota do autor)

Tem um cara que embarcou dessa vez. É a primeira vez que o cara embarca na vida. Isso divide a sua vida em antes e depois, pode acreditar. É um cara novo, pouco mais de 20 anos. Educado, gente boa. Você vê que é um cara que não tem maldade.Nunca tinha trabalhado na vida. Que dizer, de quase um quarto de século que o cara tem de idade, trabalhou mais ou menos 15 dias. Coitado do moleque, claro que ele é cabaço, ahahahhaha.
E tudo pergunta. Não que seja problema pra mim. Gosto muito de ensinar, o que quer que seja. Mas tem umas perguntas que você fica meio assim, surpreso, embasbacado mesmo do cara perguntar naquela altura do campeonato. E antes que eu respondesse educada e verbalmente, meu pensamento já dava logo um tiro.

"Como arruma o quarto?" (ô porra, tu nunca arrumou um quarto na vida, caraio?) "Ah, vamos comigo que eu te mostro como faz, pô.
"Quando acabar o suco que tem a bordo, acontece o quê?" (ih você não sabe? Uma baleia sai voando de dentro da água até lá em cima nas nuvens. Aí quando ela chega bem lá em cimão, ela explode e vira um montão de fruta que cai no convés. Aí a gente pega tudo e faz suco. Até acabar de novo e vir outra baleia) "Ué. Quando acabar, acabou."

E por aí vai

TERCEIRO ATO

Pois esse cara gente boa porém cabaço, esses dias estava no celular falando baixinho, o refeitório tava quase vazio. Tava com aquela cara assim sem expressão nenhuma. Sem expressão nenhuma mesmo. Como se alguém te ligasse e dissesse "se liga: não esquece! A água não tem sabor." É aquela cara de "ou eu não entendi porra nenhuma, ou não é possível que essa pessoa tenha dito isso.". Maxilar pouca coisa separada da arcada superior, lábios entreabertos, olhos pouco acima do horizonte. Não chega a ser cara de bunda. Mas sem dúvida já é cara de babaca. Falei com ele alguma coisa que não lembro, ele respondeu com um sorriso amarelo. Pensei "tudo bem, todo mundo tem seus dias".

NO DIA SEGUINTE...

Estava eu no convés tirando cinco minutos pra sentir a brisa salgada depois do café da manhã...aí veio o cara, né.
E aí, beleza, cumé que tá; aquela coisa que a gente faz com quem encontra na rua pra logo sair correndo depois e demorar mais 5 meses pra ver de novo.
O cara coçou a nuca e "porra, tô com problema em casa". Falei "que merda, cara" e ensinei pra ele a lei do marítimo lá. Que não pode todo mundo jogar problema aqui no meio da água, que não dá pra fazer nada, que tem que se acostumar com isso, que leva tempo e por isso o pessoal de casa tem que ajudar, que ninguém sabe como é, e coisa e tal. "Porque pô, Arthur, você se sente impotente." "É claro, pô; e você tá de fato. Agora ocupa tua cabeça, arruma um monte de coisa pra fazer. Se achar que não ficou perfeito, faz tudo de novo. Terceira semana , irmão. Até quando tá tudo bem é foda. Se você não pode resolver... o que não tem remédio remediado está."

Ele não me falou o que era e eu também não perguntei.

Quando o cara é novo a bordo, todo mundo quer dar alguma sacaneadinha. Brasileiro, né. Ainda mais quando o cara é purão, sem malícia. A galera tava no refeitório, ele não. "Rapazeada, seguinte: pega leve aí com o cara. Ele tá com problema em casa, eu não sei o que é. Mas a gente não sabe como é cada um, né. Dá uma esfriada aí."

DEPOIS DO JANTAR...

Tô eu sozinho na cozinha, arrumando tudo pra ir embora, com meu headphone ouvindo minha música, trabalhando feliz da vida, quando alguém toca nas minhas costas.
"JÁ SEI! JÁ SEI! JÁ SEI! Já sei qual o problema que ele tá em casa." Dobrou o dedo médio e o anelar pra dentro da palma da mão, botou o polegar por cima dos dois, deixou o indicador e o mindinho esticados pra cima. Empurrou a mão na minha direção duas vezes, rápido. Faz aí que vocês vão entender.
Eu botei a mão no rosto balançando a cabeça "puta merda, cara. No primeiro embarque, coitado do moleque. Como é que tu sabe disso?"
"Ah, a parede é fina, o cara é que não sabe... tava lá falando alto pra cacete com a mulher no telefone. Todo mundo ouvindo...que eu ia te pedir em casamento, e tal. Assim que eu embarquei você trocou o status pra solteira."

Tomar chifre é muito triste.

Mas a verdade é que nós rimos muito, hahahahaha.

Olha só, eu entendo perfeitamente que o chifre dói igual tanto na mulher quanto no homem. Mas como o ser humano é um ser social, numa sociedade machista que é a nossa, o chifre faz muito mais estrago no homem. A mulher procura as amigas pra dizer que homem é tudo igual e não vale nada mesmo. Se produzem, saem pra dançar, usam langerie. O homem? Os amigos sacaneiam até a morte. Chamam a mulher dele de tudo o que é nome na frente dele. Esse é o jeito que lidamos com isso. O cara supera com muito mais eficácia dessa maneira. Ninguém alimenta a negação dele. Muito pelo contrário. Reafirmam, carregam em todas as tintas vermelhas pra doer de uma vez só. Quando você está sem recursos, é com ferro em brase que se estanca hemorragia.

CLÍMAX

Almoço de hoje. Refeitório cheio. Todo mundo já sabia. Como tradicionalmente, só o corno não sabia que todo mundo já tava sabendo. Eu dentro da cozinha, começam os caras lá fora. "Porque fulano foi corno, eu fui corno, você foi corno" - e ninguém olhava pro cara. Aí um puxou. "Cada um que foi corno, conta aí a sua história!"

Um tinha a esposa, morava com ela, tinha filho. Embarcava e o cara lá matando a fome. A mulher ainda quis botar ele pra fora, ficar com a casa e o Ricardão morando nela, usando o carro dele, e tal. O próprio corno em questão disse "porra, mas o cara só entrou com a pica!" aí alguém na roda falou "aí ela disse: e que pica, hein!!"

Outro tava com a mulher havia 12 anos. Morando junto havia 3. Ela grávida. Nasceu, criou. Quando o moleque tinha 12 anos, o DNA falou "vaaai, chifrudo"

Outro tinha uma namorada, um relacionamento moderno. Transavam a três. A mulher se apaixonou pela outra mulher e deu um pé na bunda dele.

Arthur, tu já foi corno também! "Eu fui mesmo! Prima minha, rapaz... namorando, juntando dinheiro juntos numa conta que ela abriu, viajamos pro Espírito Santo. Quando chegou lá ela simplesmente fechou a cara pra mim. Disse que não tinha mais nada pra falar comigo e no dia seguinte tava lá desfilando de mão dada com outro cara. Fui tipo um corno delivery, me levou lá pra ver. Ou um corno DDD. Fui saber em outro Estado..."

Outro embarcava em Vitória. A namorada era de lá. Do hotel, ficava de binóculo caçando a mulher pela praia com o Ricardo. Corno Pedro Álvares Cabral... "chifre à vista!"

E o motivo da conversa lá, fingindo que tava achando a maior graça. A pálpebra do cara tremia. Aquele sorriso que os dentes não se separam por nada. Pressão de uma tonelada naquela mordida ali... Aí todo mundo tinha já contado suas derrotas. Faltou quem? Exato. "Opa, falta você. Como que foi o chifre que você tomou?"
"Ah, eu nunca tomei não, rs.."
Aí eu me intrometi.
-Ahhh, moleque. Você não sabe arrumar teu quarto. Botar uma roupa pra lavar. Tu quer que todo mundo aqui acredite que tu é bom de vara? Conta outra, rapá. Se você nunca tomou, você tá tomando agooooooora (e bati a ponta do indicador na mesa), enquanto a gente conversa!

E outro vem e completa "mas rapaz, quando o corno vai saber, é porque não tem mais ninguém que não saiba, rapaz. E vixe, ja faz é tempo que o cara tá tumano gaia, visse? E tem vários tipos de corno, né? Tem o corno Xuxa, que não se separa da mulé por causa dos baixinhos, tem o corno cuzcuz, que sabe mas abafa..."

Agora à noite, botaram essa música no grupo de whatsapp da turma do barco. (Eu não consigo carregar vídeos por aqui. Por favor, vocês merecem escutar essa música. Procurem aí)

Eu Levei Foi Gaia
Silvanno Salles

Eu levei foi gaia
Eu levei foi gaia
Daquelas que a gente se atrapalha
Daquelas que a gente se atrapalha
Eu levei foi gaia

Eu dei casa comida
Uma vida de princesa
Todo dia ela acordava o café
Já estava sobre a mesa
Com frutas variadas torradas, patê
Mais quem dá quer receber

Eu dei dinheiro pra ela pagar o cartão
Dei uma televisão 46 polegadas lg
Dei um fogão 4 bocas electrolux
E você pergunta meu irmão
O que você ganhou?

Eu levei foi gaia
Eu levei foi gaia
Daquelas que a gente se atrapalha
Daquelas que a gente se atrapalha

Doeu, doeu, doeu, doeu
Mas eu, mas eu, mas eu
Eu vou sair por ai eu quero é ser feliz
Mais quando eu lembro depois
De tudo que fiz

Eu levei foi gaia
Eu levei foi gaia
Daquelas que a gente se atrapalha
Daquelas que a gente se atrapalha

____________________
Imaginem como está a cabeça desse camarada (sem trocadilho).

Boa noite.

Diário de Bordo 22/03/2017 Bacia de Campos , altura de Macaé

Já tem um tempo que não escrevo, acho que desde o ano passado. Bastante coisa aconteceu, e preferi esperar as coisas estabilizarem pra escrever. Fiz bem. A impulsividade tem muitos filhos, e todos se chamam arrependimento.

O ano passado foi muito bom pra mim. Casei, comprei meu carro, tirei férias pela segunda vez trabalhando desde os 18 anos, minha esposa está tendo um sucesso maior que o outro; mas não serei eu que vou falar isso aqui. Aquela sabe guardar a felicidade dela pra ninguém meter o nariz. Coberta de razão. Enfim, foi um ano no qual eu pela primeira vez respirei aliviado sem ter pensado nenhuma vez "puta merda, tá faltando isso, aquilo, aquilo outro, não tem tempo, não tem clima, vai vencer a luz, como faz mês que vem?". Enfim, aquelas coisas que a partir de determinado momento a gente acaba acreditando que são partes integrantes de todos os dias. Não são. Pode acreditar. Tudo é fase.

Inclusive a maré boa.

Dois de Janeiro. Ligação em torno das dez e vinte da manhã. Era da empresa. "Você não embarca mais no Jim O'Brien. Quiseram te mandar embora, disseram que você deu problema lá. Mas como eu e outros conhecemos teu trabalho, não deixamos. Estamos te trocando de barco. Você vai pro Fernando de Noronha. Aproveite a chance."

Como são as coisas. Um cara (um cara porra nenhuma, O cara) que se dizia meu amigo. Cara que eu tinha como aliado mesmo. Pediu minha cabeça. Vai vendo.

Uns meses antes, uma pessoa que eu tenho total admiração, respeito e gratidão, estava numa pindaíba daquelas assim "caralho!". Esse cara é um senhor de quase 60 anos (margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos), e foi ele quem me ensinou a trabalhar em navio. E eu sempre me senti obrigado a fazer alguma coisa por ele, pois ele me tinha ensinado a trabalhar num ramo onde dificilmente alguém ensina alguma coisa de graça. Não era justo eu estar vivendo uma excelente fase na vida enquanto uma das três pessoas que me proporcionaram a possibilidade disso acontecer estava naquela situação.

Ele precisava de um qualquer pra poder renovar sua documentação de marítimo. Na verdade, ele comentou que estava pra vencer. Não pediu nada não. Mas aí eu, que sou bom aproveitador, registrei a informação para retribuir de alguma forma o favor irretribuível que ele me havia feito anos atrás. Você vê que ensinar alguém a fazer alguma coisa é mesmo o que há de mais bonito a se fazer nessa vida, quando tenta retribuir isso de alguma maneira e tem a nítida impressão de que não adianta, não vale nem um décimo daquilo. Eu fiz o que precisava ser feito para que a documentação dele ficasse ok.

Pois bem. Durante o embarque, aquele fulano amigo da onça que estava trabalhando comigo chegou e me pediu dinheiro emprestado, que tava precisando, e tal.

Agora uma digressão divagativa entre parenteses: tem um ditado que diz "nunca empreste dinheiro a um amigo: você vai perder as duas coisas." . Putz, nada mais verdadeiro. Quando um amigo me pede dinheiro eu sinto uma agulha da grossura de um grão de arroz entrar pelos meus olhos. Eu já sei que vai dar merda. Sempre deu merda. Ouça quem tem os ouvidos de ouvir.

Então eu disse "porra cara, logo agora? Acabei de emprestar uma grana ai pra uma pessoa q tava precisando pra cacete. Desculpa, mas não vai dar." Aí é que eu digo que vai dar merda de qualquer jeito. O cara ficou desconcertado. Fechou a cara e disse que nunca mais ia me pedir nada não. Aí você que tava quieto no seu canto lá, pá... tem que se justificar. Olha só, hein.

"Ah, mas que eu também to precisando, que parará pão duro caixa de fósforo...". - Irmão, desculpa, não vai dar. Emprestei uma parte do meu salário, tenho que viver com a outra. To resolvendo uns negócios aí de cartório que daqui a pouco vai vir uma porrada doída. Se tivesse pedido mês passado, tava na mão. Agora não sei quando vai dar. "Ah, mas eu tenho cinco filhos, porra."

Sabe quando o personagem olha pra câmera e faz aquela cara virada de lado, dando de ombros?

Aí eu percebi que a coisa tava indo por um caminho bem malicioso. Eu estava sendo vilão. O hobin hood às avessas, que toma dos pobres e dá aos ricos. Só que quando eu percebo essas coisas que só se percebe em se sentindo um cheiro podre que gente triste e coitadista exala... aí, sai de perto. Que a sinceridade pode ser delicada. Mas quando necessário, pode ser só verdade. E verdade não se qualifica. Não tem essa de verdade triste, verdade boa, verdade sei lá que porra. Tem verdade. A verdade se basta de tal maneira que ela não está nem aí pra adjetivo.

"Mermão, como você disse, VOCÊ tem cinco filhos. Eu não comi a mãe de nenhum deles. Eu sou doido pra ter filho. Não tenho nenhum porque eu só vou ter na hora que eu puder criar todos os que eu quiser ter sem precisar pedir nada pra ninguém, ainda mais no tom que você tá me pedindo. Você veio me falar que seu filho engravidou a menina lá, mas tava no telefone rindo com ele "ah, fazer o que, né?". Qual é? Eu não tenho filho pra ajudar a criar teu neto? Qual a graça? Você mesmo diz ai que entra no puteiro na sexta feira e só sai na segunda. Vem me pedir dinheiro? O cara que eu emprestei a grana, ESSE precisa. E precisa de muito mais do que eu emprestei. Mas tá lá dando o jeito dele. Não dou."

Mas é claro que ia dar merda o babaca aqui falar um troço desse, né ahahahaha?

No embarque seguinte eu fiz com ele uma brincadeira verbalmente agressiva, como ele fez comigo 43668879564 vezes e os dois sempre levaram na boa, era o nosso jeito de trabalhar, muita gente vai entender o que estou falando. Mas sem querer eu fiz na frente de uma outra pessoa. Aí ele ficou puto e foi lá pedir minha cabeça. Pronto. Mas tem nada não. Deus vigia todo mundo, mas gosta mesmo é de quem sabe que o certo é o certo, e azar da sua posição no jogo do bicho.

Estou completando meu segundo embarque no Fernando de Noronha. A turma é excelente. E está sempre com vontade de comer doce. Antes de eu chegar aqui "era bem diferente". Deus é tão sinistro, que pega coisas ruins e transforma em coisas excelentes, brilhantes, inimagináveis. Eu estou muito melhor do que estava, obrigado. Soube que tá meio esquisito lá no outro barco...

Paulista, vou te contar uma história ou Diário de Bordo 02-10-16, Santa Catarina, chove moderadamente.

Que dia, este dia.

Dia 02 de outubro. Se estivéssemos em 1992, a PM paulista teria executado 111 presos no Carandiru, dos quais mais de 80% não haviam sequer sido condenados. O secretário de segurança seria trocado por um tal de Michel Temer, que diria que " os policiais merecem repouso e meditação ". Agora, em 2016, os PM's foram inocentados no processo. E o secretário da meditação. .. Bem, vocês sabem onde ele está. Mas ok. O delegado responsável pelo massscre (Ubiratan Guimarães) sabe que "aqui se faz, aqui se paga". Procure saber.

Falando em bandidos... Na Colômbia houve a votação de um plebiscito pela paz. O presidente e as FARC entraram em acordo. Os guerrilheiros entregariam as armas e se converteriam em partido político, terminando uma guerra que começou nos anos 1960. O povo votou "não" por uma maioria que não faz um ponto percentual. Pois é. A população diz que eles são crimimosos e devem ser presos. Então o tratado de paz não entrará em vigor, já que a opinião popular é soberana. Olha que merda. O líder das FARC já soltou que o acordo que ele aceita é esse que o povo não quis. Que se não virar partido não entrega arma, e que se tentarem prendê-los, a bala volta a cantar.

No nosso 02 de outubro de 2016, é dia de eleição municipal. E deu segundo turno. De um lado, o Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus , Marcelo Crivela (pra quem eu mesmo trabalhei na produção de conteúdo da campanha de 2008 e deu calote na maior parte da equipe - portanto, quando dou minha opinião sobre ele sei muito bem do que estou falando).

Do outro, um professor, Marcelo Freixo. Um cara que no meio de uma gigantesca crise da representatividade política no país e mesmo sem relativamente um puto para a campanha, conseguiu chegar nesse segundo turno.

Em São Paulo, o tal Dória levou no primeiro turno. O paulista deu a cidade pra um cara que limpa o rabo com nota de dólar. Pra tirar PT, o demônio dos dez mil braços, pai da mentira. Só que o Haddad era um bom prefeito, em se comparando com o conjunto da obra paulista. Ou seja, entregaram de volta a maior cidade do país para a oligarquia.

Vocês conhecem Jucurutu?

Eu "conheci" agora pela tarde. Um tripulante veio todo feliz me contar que "tá saindo de lá uma oligarquia que domina a cidade desde que" a mãe dele era criança. O prefeito da vez era um filho, neto, bisneto e tatatatatataraneto de vinte e poucos anos, um moleque, um playboy.

Jucurutu fica a 3 horas de Natal. Normalmente nas eleições tem o candidato da oligarquia e mais um financiado muitas vezes por eles mesmos, só pra ter aquela figuração bonita.

Eis que lá tem uma professora-vereadora que é conhecida como maluca, já que cagoeta a roubalheira em praça pública pra quem quiser ouvir.

Jucurutu é uma daquelas cidadezinhas. Menor que Atibaia ou Maricá. Uma ante-sala de cu do mundo onde todo mumdo se conhece. Essa professora incentivou o motorista da ambulância (dA ambulância; Jucurutu só tem uma) a se candidatar, já que todo mundo conhece o único motorista da única ambulância. O vice da chapa é um dos alguns g-a-r-i-s da cidade. O cara dirigia a ambulância pela manhã. Depois do expediente ia nas casas das pessoas conversar, chamar pra rua, ganhar voto, mostrar a cara mesmo.

O motorista da ambulância e o gari vão dormir eleitos prefeito e vice-prefeito. Essa é a história sobre eleições que vocês precisam saber hoje.

Paulista, você é burro, cara.

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Atualizando: Jucurutu tem 14 mil eleitores. O motorista da ambulância ganhou por 200 votos, ou seja; menos de um ponto percentual. Esse pentelhésimo percentual fez toda a diferença. De um jeito na Colômbia, de outro completamente diferente em Jucurutu. Às vezes você pode mesmo fazer diferença...





Diário de bordo 11/08/2016 - Sul do Brasil - talvez Santa Catarina

Afogamento


Não. Não houve nenhum afogamento a bordo. Mas entre julho e outubro, quem é do mar conhece seu eleitorado. Na última viagem comentou-se, um dia, ondas entre 5 e 9 metros. Dessa vez não ouvi nada sobre o tamanho do mar.

Ontem o Brasil jogou contra a Dinamarca. Eu estava na cama, e aqui no camarote não tem tv. Só no refeitório e nos camarotes de quem manda, mesmo. Sem sono nenhum e com bastante tédio, tinha certeza de que ver esse Brasil aí jogando, só tinha duas possibilidades de futuro: risadas ou sono. O tédio era uma bebida amarga; as risadas eram whisky, o sono era um vinho de sabor prolongado. Fui atrás.

Alguns caras sentados vendo o jogo. Pareciam indiferentes ao que havia de errado naquele lugar. O navio balançava bastante. Afora nossos órgãos chacoalhando dentro de nós, de um lado para o outro, você percebe que o balanço está forte quando o cara em pé perto de você parece o Michael Jackson quando cantava "Annie, are you ok? Are you ok, Annie?". Sabe aquela hora que ele inclina o corpo pra frente e, se ele fosse qualquer outro ser humano, teria caído de cara? "Smooth criminal", o nome dessa música. Em dia de mar agitado, qualquer um tem seu dia de Michael Jackson aqui na marinha mercante, negão.

Estava três a zero. O subchefe de máquinas pendulava nesse refrão pop. Era o único em pé. Estava de macacão todo sujo de graxa. Era o único que não podia sentar. Mas outras coisas estavam erradas além da vitória da seleção. E assim que eu entrei, meus olhos saltaram, e exclamei:
-Caralho, que porra é essa? Tá foda mermo, hein?

Os nordestinos estranham o jeito do carioca de xingar pra tudo, até pra pontuar frase. É porque porra; a gente é assim mesmo. Mas eles ja se acostumaram comigo. Sabem que quando a gente chama de viado ou de filha da pulllta não tá xingando. A parte de vocativos na nossa gramática é diferente. Da mesma maneira que a deles difere da nossa. É , entretanto, mais amigável e divertida.

A água da estufa que mantém os alimentos quentes estava espalhada por metade do refeitório. O azeite temperado com pimenta calabresa que eu tinha feito, virou dentro do armário e agora temperava o chão. Os restos de pastel pelas mesas, a bandeja com um pastel murcho e o vidro de molho de pimenta chinezinho aberto, vazando e deixando a bancada vermelho radioativo, denunciavam que o cozinheiro tinha feito lanche pra galera assistir o jogo antes de eu descer atrás de risadas ou sono. A lixeira de vidro do refeitório estava do outro lado. Mas estava três a zero. E mesmo sem o som de sua vez, Michael Jackson cantava. Me fudi. Arrumei foi trabalho. Onze e porrada da noite. Acordo às quatro e meia.

Pelo menos eu secaria o chão e diminuiria o risco de um desavisado pouco observador cair. Para isso, precisava entrar na cozinha e pegar o rodo com pano. Abri a porta e exclamei:
-Puta que o pariu!

Todas as lixeiras da cozinha estavam no chão, sem exceção.E todas são presas na antepara (parede) por um alumínio que abraça todas de uma vez e é aparafusado quando chega do outro lado. Latas abertas rolando por sobre plásticos, a lixeira de restos de comida, a maior, parecia moribunda, pendendo de leve pro lado com o movimento do barco. Água por todo o chão, janelas de aço abrindo e batendo de volta. Uma carne descongelando fazia sangue na bancada da pia e escorria para dentro dela.
"Que se foda. Eu vou é fumar um cigarro. Amanhã vai estar tudo aí de novo..."

Na volta eu deixei as lixeiras no chão mesmo, mas sequei o refeitório pra ninguém dizer que eu não tinha feito nada. Burro fui eu de inventar de descer lá com o navio sacudindo daquele jeito. só podia era sobrar pra mim mesmo. Whisky custa caro, e só sabe o que é arrependimento, quem já tomou porre de vinho. Chá de boldo é ruim, mas faz bem.

A reflexão de hoje é sobre o cigarro, lá fora. Ir à parte externa do navio nesses momentos de mar alto, não dá pra ficar indiferente. Você acostuma, claro. Mas aquilo dialoga com você. Água pelo convés todo, onda batendo nos bordos e jogando mais água, ondas que passam por cima das laterais do barco e vão quase no meio do convés. Eu acho bonito pra cacete. Vocês aí que estão lendo, costumam ter medo. Eu acho formidável.

Mas é claro, é lógico, e é natural que o pensamento de afogamento passe mais pela cabeça de nós, que aqui estamos. Aqui é água. E dificilmente, alguma outra coisa. Quando aparece outra coisa, eu inclusive escrevo sobre. No mais, é água. Água e, depois de terminada a segunda semana, o tédio. A sensação do déjà vu diário. Quando escrevo é aproveitando o tédio, transformando ele em scholé, o ócio produtivo. E parei pra pensar no afogamento e em algumas de suas contradições.

Em biologia, aprendi que afogamento significa a inundação dos pulmões. Essa é a verdade científica. Mas analisando a psiqué do afogamento, essa definição simplesmente não presta. Você está envolto no ar, um elemento que te mantém vivo. Mas se fica completamente envolto em outro elemento, o responsável pelo próprio surgimento da vida, morre.

Toda a evolução da vida aponta para você, o ser humano. Ser humano que em contato direto e completo com o elemento que propiciou seu surgimento, é aniquilado por ele mesmo. Não tem ar.

Tem ar pra todo mundo. Não existe nem um espaço entre onde termina a água e onde começa o ar, aqui no mar. Mas não tem ar. Você prende todo o ar que conseguiu respirar, sem ter certeza de que era a última vez. Os pulmões fazem a hematose, o volume de gás aumenta nos pulmões, já que o carbono foi adicionado. O que antes era o bastante nos pulmões, agora é demais.

Momento filosófico na morte por afogamento: você quer aproveitar ao máximo o último ar que respirou. Só que lá dentro de você, ele já não é mais ar. À molécula de oxigênio fora adicionado um carbono. Fundamental para a vida no nosso planeta, mas tóxico, se dentro do peito. Não tem ar. Você tem plena consciência que a lei da respiração exige que, caso você solte o que tem no peito, precisa buscar novamente lá fora. Mas não tem ar. E nada que não for ar, vai servir. Toda força que você faz para não afundar só faz encher seu pulmão de carbono. Ninguém mais pensa, nessa hora. E é justamente aí que uma força maior que a razão, maior que qualquer ser humano age em você. Contra a sua vontade, contra seu próprio instinto de preservação, você expulsa toda a pressão do seu peito de uma vez só, então tendo a certeza de que, já que não tem ar, só te resta ter a humildade de aceitar a morte pela inundação de seus pulmões.

Pulei as lixeiras da cozinha e passei direto pelo refeitório. Quatro a zero.
-Boa noite, senhores. Deixa essa porra aí, que amanhã eu resolvo.

Enquanto houver ar, eu escreverei.