sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Síndrome por escolha?

Tenho escrito já há algum tempo sobre um modelo colaborativo de sociedade. Provavelmente, muitos dos que lerão esse texto já conhecem alguma coisa a respeito. Caso não conheça, avise que mostrarei o que escrevi. Em um futuro não muito distante, tudo será condensado de maneira que o entendimento das partes não seja prejudicado. Segue mais uma parte que integrará esse futuro todo.


Quando o leitor entende e percebe como totalmente possíveis  as bases do modelo colaborativo, sente que sem sombra de dúvida as dificuldades da vida serão diminuídas na mesma medida em que o prazer de viver será multiplicado.  Em uma sociedade onde as pessoas trabalharão com o que melhor sabem fazer, o trabalho sempre será prazeroso. Daí que todo trabalho será um presente. Tanto para o trabalhador quanto para o consumidor. Isso eleva o trabalho à categoria da arte.
O leitor que concordou até aqui , ou o que sentiu entusiasmo com essa proposta, sente-se assim porque entende em maior ou menor grau que, o progresso no modelo todos-por-todos é inevitável. As células do seu corpo trabalham nesse modelo. As da árvore também. As marés, a posição da lua, o sistema solar, o universo. Nada existe por si só. Tudo está em relação a alguma coisa.
Somos todos grãos de sal no oceano que é o planeta Terra, e a única coisa em que concordamos é que cada um de nós é o centro do mundo. Reflita. Em última análise, é o mercado quem nos faz concordar aqui. É o motivo financeiro o responsável por criar e resolver os seus problemas. Ele faz um grão de sal se entender oceano.  E no entanto, estamos todos ilhados. Olhando para nós mesmos, nem tomamos conhecimento que além do outro, está ao nosso lado todo o resto de tudo o mais.

                                                               Orgulho

Achamos que temos o poder de ser produto final. Não entendemos que somos célula de organismo maior. Acreditamos progredir, mas estamos estagnados. Estudamos a sociedade, mas devemos nos abster dela para que nos entendam cientistas.

                                                                Cegueira

A sociedade não melhorará quando cada um melhorar ou estiver bem de vida por si só. Na realidade, o capitalismo não propõe isso. Ande dez quilômetros a seu redor e comprovará. A ideia capitalismo não comporta a ideia igualdade. Só haverá melhora na qualidade de vida do planeta quando todos melhorarem junto. Uma mudança em bloco. Tal objetivo só se alcança partindo de uma mudança de consciência.

                                                               Organismo

A consciência passa então a ser orientada para o outro. Cada um é o outro para todos os outros. Aqui começa a igualdade. Claro, no capitalismo cada um é outro para todos os outros, e por isso mesmo todos são inimigos em potencial. A diferença é que, enquanto no capitalismo estamos em oposição ao outro, no modelo colaborativo estamos em relação ao outro. A oposição também é uma relação. Mas é uma relação negativa. A relação do modelo colaborativo é positiva, pautada na resolução das carências do outro. É estar em função do outro. Todos temos carências que não podemos resolver, enquanto sabemos e podemos resolver carências que não temos. Qualquer sociedade se encaixa nessa proposta. Porque toda sociedade é um conjunto de homens. E a todos os homens falta alguma coisa.

                                                                 Questões

Em hora nenhuma parece vergonhosa (pequena, bitolada, incompleta) a vida que se leva hoje? Devemos mesmo morrer cheios de boas intenções? Será mesmo a vida, acordar todos os dias pensando no fim do mês? Será mesmo alegria , beber muito e ouvir música (“”) alta para que não escutemos o barulho de nossa consciência?

                                                                   Confissão

Me sinto amarrado aqui onde estou. Me sinto fazendo pouco demais, sendo pouco demais. Sinto isso em mim e em todos os outros. E sinto em dobro pelos que não sentem isso. A prática da alteridade é a chave do cofre no qual trancamos nossas vidas. O mercado exige que vivamos em função dele, para que em um dia que não chegará, compremos a chave dele  (o sucesso), abramos o cofre e tomemos nossa vida para nós. E vivemos sem a vida, com base nessa ilusão. Porque o sucesso é cópia mal feita da chave da vida, não abre o cofre. A chave sempre andou com cada um de nós. A questão é que a chave que abre seu cofre está com qualquer um dos outros. E você tem a chave para outros cofres, muitos. O mercado é quem nos faz tentar construir sozinhos uma chave, que é simulacro. Nos afasta do outro para que não obtenhamos nossa chave verdadeira. E o ciclo parece inquebrável.

                                                                   Síndrome

É a sua resistência em mudar de ideia. É o tempo que você não pode perder. Fim do mês está chegando. O mercado está ruim. A taxa de juros subiu. As pessoas só te atrapalham. Poxa, desculpa: hoje não vai dar. Está difícil para todo mundo. Só acontece comigo. As perguntas e afirmações feitas aqui não são minhas nem suas. São de nosso tempo. De todos nós.

Não, você não está sozinho. Você só não está (ainda) em função dos outros.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O dia em que fui ouvido

Hoje posso afirmar que a imprensa internacional está de fato cobrindo os protestos. Nunca fui ouvido pelo IBOPE, DATAFOLHA ou qualquer outra pesquisa desenvolvida no Brasil, ou jornalista sobre assunto nenhum.

Mas ontem, na esquina do Edifício Central, enquanto dizia a Sergio Victor que queria escrever um novo texto sobre (...), fui entrevistado pela imprensa inglesa. O jornalista me entrevistou por cerca de dez minutos fazendo gravação do áudio. Me perguntou o motivo da manifestação dos professores. Me perguntou porque mesmo depois de aprovado o plano de cargos e salários, os profissionais continuavam insatisfeitos.

Vários amigos estavam em volta de mim e ouviram o depoimento, muitas vezes fazendo que "sim" com a cabeça.

Procurei ao máximo desconstruir o discurso oficial. Procurei mostrar que menos de 10% dos profissionais estavam cobertos pelo plano, dizendo que essa manobra era para "inglês ver". Disse que ou o discurso oficial é covardemente mentiroso, ou muito mais de 50 mil pessoas estavam nas ruas porque eram malucas.

Perguntado sobre os grandes eventos que virão, disse que :

1- o isolamento de um bairro inteiro compromete muito mais o direito de ir e vir do que um protesto popular espontâneo. Nesse caso, o poder público usa um argumento falacioso.

2 - a privatização do Maracanã, Meca do futebol, está levando o preço dos ingressos às alturas. Se antes dava pra encher o maracanã com camelôs, professores e outros profissionais mal remunerados; em médio-longo prazo o que se verá é uma elitização do futebol no Brasil. Dentro de algum tempo, veremos que o ambiente do futebol deixará de fazer parte da cultura popular e passará a integrar uma cultura de elite no país.

Tentei mostrar a ele que o governo municipal é papagaio de pirata do governo do Estado. Que o governo do estado tem uma aliança degenerada com o governo Federal (cuja presidente estaria no meio de nós se ainda fosse jovem, e agora tristemente consente que voltemos machucados para casa. Tudo pela governabilidade). E que esses três poderes têm a seu favor, um quarto. A mídia.

Falei para ele que a falta de um maior apoio político a este tipo de causa acontece porque pelo menos 98% da população nacional é educada apenas pela tv, que tem como expoente maior a rede globo.

Para finalizar, disse a ele que muitas pessoas do continente que ele saiu acreditam que o Rio é a capital do Brasil. Disse que eles acreditam nisso porque somos nós os formadores de opinião em nosso país. Mas que em comparação com o resto do Brasil, nossas escolas são privilegiadas, porque na maioria delas os alunos têm um lugar para que se sentem. Ao menos uma refeição garantida. Um quadro onde o professor possa escrever, desde que tenha comprado seu giz. "Essa é uma escola privilegiada no Brasil", eu disse. Em seguida agradeci e o parabenizei por, de fato, estar conhecendo o Brasil.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Proposta para que haja um próximo milênio



  Acredito que o ser humano seja a máquina mais genial que temos em nosso planeta. Acredito com muita sinceridade. Para nisso acreditar, aceitei que cada um de nós tem um sem número de possibilidades, e que podemos usá-las de formas excelentes ou deploráveis. Podemos, cada um de nós, sermos sublimes ou asquerosos. A prova dessas potencialidades reside no fato de termos sido Gandhi e Hitler ao mesmo tempo. Fomos todos madre Teresa e Stalin.

                                                                            COMO?

  Idéias. Pensamentos. Ação. Nos brota uma idéia. A desenvolvemos com pensamentos. Os concretizamos com ação. Com uma idéia Gandhi percebeu o próximo. Com pensamentos entendeu que a manutenção da vida dependia do próximo. Com ações tornou a Índia independente, enchendo o Reino Unido de vergonha diante do mundo. Com uma idéia Hitler sentiu que era superior. Com pensamentos difundiu a superioridade ariana e a necessidade de destruir os inimigos inferiores. Com ações matou seis milhões de judeus na Europa, entre outras muitas minorias. Encheu o mundo de vergonha e retroalimentou o ódio que produziu. Ele está aí até o momento em que escrevo.

                                                A HISTÓRIA É A HISTÓRIA DA DOMINAÇÃO

  Talvez, todos os grandes personagens da História estejam enredados em uma situação de dominação. Indivíduo X Indivíduo , Nação X Indivíduo, Nação X Nação, Grupo X Grupo. Entendamos aqui que todos esses embates possíveis podem estar contidos na fórmula Idéia 1 X Idéia 2.

  A Revolução Francesa, marco inicial de nossa atual sociedade, pode ser entendida (grosseiramente) como Servidão X Contrato Social . Foi a idéia de liberdade do século XVIII versus a idéia de servidão do que chamamos de Idade Média. Para que cada um fosse sua própria propriedade, deveria ser extinta a figura do Rei, dono de tudo o que vê. Pois mataram o Rei, e ao contrário do que foi imaginado, o homem passou a ser propriedade de outro homem. Era o sistema capitalista surgindo com sua liberdade prometida porém inalcançável.  Os homens donos de muitos outros perceberam que podiam ampliar seus domínios. Veio o imperialismo. A concentração de poder aumentou exponencialmente.

  Marx entendeu isso e viu que era errado. Entendeu que o modelo de dominação da sociedade capitalista tinha suas bases fundamentadas no sistema de produção. Alguém compra uma máquina, põe outro pra trabalhar com ela, produzindo um bem. A transformação de matéria-prima em produto origina a mais-valia. Quanto mais se produzir na mesma quantidade de tempo, maior o lucro, pagando-se o mesmo salário. E aí, toda a ciência passa a ser empregada em reduzir o tempo de produção produzindo mais e melhor, ao mesmo tempo. E os salários ficam parados. Esta é a estrutura de dominação capitalista. Marx enxergou isso divinamente.

  Acabar com a servidão foi bom? Sem dúvida. A ciência deu saltos gigantescos? Sem dúvida. Mas a que custo? Assim, a idéia Marx lutou contra a idéia capitalismo e criou as bases da idéia Comunismo.

  O grande problema da idéia Comunismo foi a sua prática, a sua ação. Se o capitalismo veio com uma liberdade prometida, porém inalcançável, o mesmo fez o comunismo. Na Rússia, milhões foram assassinados ou morreram de fome. Cuba vive nos anos 1950, ainda em 2013. Conseguir uma coisa de qualquer maneira, à custa de muitas outras não pode ser nada senão fundamentalismo. E isso será muito perigoso em qualquer época. Parece que capitalistas e comunistas atingiram seus objetivos lendo O Príncipe, de Maquiavel. Uma causa à custa de todas as outras.

                                                                ONDE ESTAMOS AGORA?

  Vivemos hoje na sociedade da globalização. Da mundialização. Hoje, o fluxo de capital não encontra barreiras em nosso planeta. Apertando ENTER, você pode transferir dinheiro pro outro lado do mundo, e quem questão de dias, uma mercadoria estará em sua caixa física de correio. O sistema bancário está em qualquer parte do mundo, e com ele, seus serviços. O sistema de logística transporta qualquer produto para qualquer lugar. Basta pagar. Basta PODER pagar.

  São os bancos que fazem o mundo girar nos dias de hoje. Isso porquê a globalização implica que o mundo inteiro se torne uma loja. Compramos diversão, compramos locomoção, compramos alimentação, compramos saúde, compramos segurança, compramos .... o que NÃO compramos? Até mesmo Cuba vende (caro e em dólar) seu comunismo aos turistas que a visitam. Nesse caso, hoje cada um é o que cada um PODE comprar. Está aí o limite de sua liberdade.

  Em países como o Brasil, por exemplo; para que você comece a viver e não faça parte de uma sub-sociedade , deve antes comprar: alimentação, moradia, escola, saúde, segurança, transporte. A maioria esmagadora da população para em alimentação e moradia. E isso, quando consegue pagar por esses dois.

  Mais uma vez, a liberdade está em xeque. Nunca foi tão difícil colocarmos em prática as boas possibilidades do ser humano. Paradoxalmente, nunca tivemos uma sociedade tão diversificada, com tantas potencialidades. As potencialidades estão todas aí. Mas o poder de compra VEDA que as possamos utilizar. Essa é a globalização depois de nua.

 Usar um painel fotovoltaico no telhado ou doar ao criança esperança não faz nem você nem o mundo melhores, ou melhor; não resolve o problema do mundo. Isso porque NÃO SE COMPRA DIGNIDADE. Quem dôa ao criança esperança o faz para melhorar a vida de alguém ou para limpar a própria consciência, dizendo a si mesmo que "pelo menos está colaborando para melhorar a vida de alguém"?

  Você , que ouviu a gravação até o final para garantir sua doação: quantas vezes saiu na rua com roupas para distribuir a pessoas que não conhece? Quantas vezes doou sangue voluntariamente, sem que um conhecido tenha precisado? Quantas vezes colocou sobre um morador de rua um cobertor em uma noite de frio? Quantas vezes chamou um mendigo para se sentar na mesma mesa e almoçar? Pois é. Devemos ajudar, desde que estejamos a quilômetros de distância do infeliz. Ou não nos sentiremos bem. E aí não vale o investimento.

   Na França do século XVIII, surgia o capitalismo e o sistema político com base na representação como conhecemos hoje. Alguém tem dúvida de que os dois sistemas estão ruindo juntos? A concentração de capital e de poder político já não bastam para o mundo de hoje. O mundo inteiro já vê que o Rei está nu.

   Hoje, muitas pessoas concordam em ir às ruas. Concordam em apanhar ou morrer por uma mudança. Embora muitos concordem nisso, sabemos que poucos tem uma idéia do que realmente querem. Não é que o homem esteja insatisfeito com seu governo. O homem está insatisfeito com a HUMANIDADE. Uma humanidade pautada no capital e na política representativa. Estas duas idéias evoluíram de tal maneira que tornaram possíveis práticas ANTI-HUMANAS em escala inimaginável em outras épocas da História. E por isso mesmo tornaram-se impraticáveis para daqui a pouco tempo. Ou mudamos o modelo ou sucumbimos, todos. Não quero ver um filho meu morrendo em uma guerra por água para beber. E isso é tão irracional quanto possível nos dias de hoje.

                                                                      DIAGNÓSTICO

  Olhando para a História por detrás do véu da longa duração, pode-se afirmar que o capitalismo possibilitou o avanço da ciência de uma maneira que o antigo regime era incapaz (essa não era, inclusive, sua diretriz). O uso que o capitalismo deu à ciência é a questão a se lamentar. Mas o desenvolvimento está aí, para dele lançarmos mão.

  O comunismo veio dizer que o homem não deveria mais ser explorado por outro homem. Porém, os governos comunistas cortaram os braços da liberdade individual de cada um. De qualquer maneira, entendemos bem sua mensagem.

  A política de representação, siamesa do sistema capitalista, implodiu. Hoje vemos nas ruas os sintomas. Termina em nosso tempo a vida útil da Revolução Francesa. O que fazer?

                                              PORQUE DEVE-SE MATAR O MERCADO                                                
  Com a tecnologia atual; é possível plantar, extrair, produzir, beneficiar, criar, modificar, entregar... enfim. O sistema global de circulação de bens e pessoas já funciona em pleno vapor. O problema do capitalismo é que para cada um conseguir girar esse sistema, deve ter poder de compra. Deve se submeter ao MERCADO. Isso vale para qualquer área da economia. O Deus da economia capitalista é o MERCADO. O maior dogma é o PODER DE COMPRA. Se ninguém entra na igreja sem fé, ninguém entra no mercado sem poder de compra. Só por isso trabalhamos tanto e temos tão pouco tempo com as pessoas que amamos. Por isso vemos o outro como inimigo em potencial.

  As nações , com base no sistema político representativo , entram em guerra porque cada uma precisa do recurso natural de alhures. E o fazem pois quem manda é o Deus Mercado.

  Há de haver uma nova idéia. Uma idéia simples, para que valha em qualquer lugar de nosso planeta. Acredito com toda sinceridade que o que está por ser lido é uma idéia extremamente simples. Porém, dificílima de ser posta em prática, pelas circunstâncias e estruturas às quais estamos todos submetidos.

  Em primeiro lugar. Deve-se matar o Deus da sociedade capitalista. O MERCADO. É difícil, mas não é impossível. Se conseguimos matar a servidão, o mercado não é imortal.

                                               A proposta: um modelo COLABORATIVO

  Homens e nações entram em guerra por conta de recursos. Eles estão espalhados por todo o planeta. Mas a obtenção de recursos só pode ser feita em nosso tempo através de práticas anti-humanas (guerra, exploração econômica, etc). Homem e planeta sofrem em última instância. É sempre um processo auto-destrutivo. A tecnologia de nosso tempo pode e deve estar a favor de uma nova ordem mundial. A DISTRIBUIÇÃO SOCIAL DE RECURSOS.

  Desde que haja recurso natural, é possível extraí-lo. Desde que haja matéria-prima, é possível produzir. Desde que haja produto, é possível consumir. Desde que haja consumo, é possível sobreviver. Note como o dinheiro é desnecessário nessa tautologia.

  Para uma mudança de diretrizes na humanidade, é fundamental que haja uma mudança na economia. Não foi isso que fez a Revolução Francesa? Em uma economia baseada na distribuição social dos recursos, nenhum homem terá a necessidade de desenvolver um trabalho do qual não tem orgulho, unicamente porque paga melhor. Isso porque não será necessário (melhor, tolerado) que a qualidade de vida seja comprada.

  Ao redor do mundo, há homens com enorme talento para extrair recursos. Trabalharão nisso porque são os melhores. Homens com talento para transformar matéria em produto. Teremos os melhores produtos. Homens com talento para pesquisa, invenção, construção, regeneração, literatura, música, transportes... enfim. Cada homem ocupará na sociedade, a atividade que melhor desempenha. A atividade para qual foi chamado nesse mundo. Daí extraímos que todos os homens serão felizes em seu trabalho. Em curto prazo, a sensação de inimizade para com o outro simplesmente deixará de existir. Talvez tenha sido isso que Rousseau e Marx procuraram, cada um a sua maneira. Não encontraram, mas fizeram juntos com que nós encontrássemos.

  Uma economia como essa , baseada na distribuição social de recursos em escala global NÃO transforma o mudo em loja. NÃO elimina culturas locais. NÃO cria sub-sociedades, muito menos elites. Essa sociedade VEDA a possibilidade de desperdício. ACABA com a escassez (pedra fundamental do capitalismo). E não há Deus que proíba a cooperação ou a caridade. O valor maior dessa sociedade não é o sucesso, mas a cooperação. Porque a cooperação resulta no sucesso de todos, enquanto o sucesso de poucos proíbe a cooperação promovendo a competição.

  O pedreiro poderia ter um carro novo se ajudasse a construir a fábrica. Nenhum dinheiro estaria em jogo. O professor poderia visitar a Grécia , se lá desse aulas de História do Brasil. O engenheiro poderia aprender a dançar se projetasse a acústica do salão. As possibilidades são realmente INFINITAS. É a troca do que se precisa pelo que melhor se sabe fazer. Imagine a felicidade do Chef de cozinha alimentando o porteiro. A felicidade do médico transfundindo células tronco em quantos pacientes precisarem. A felicidade do escultor, do atleta, do músico que não precisarão de patrocínio, mas somente de platéia.

  Não vejo de maneira nenhuma a impossibilidade da implantação dessa sociedade. Mas preciso de você, e não de mim. É por você que escrevi até aqui, e tornarei a escrever muitas vezes. Você é a chave de um novo mundo, não eu. Você é a chave de uma nova humanidade. Eu só farei parte disso se estiver com, para e por você. Obrigado por fazer parte da minha felicidade.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Oração

Como professor, jovem e brasileiro, digo que deve haver uma manifestação gigantesca no dia 15 de outubro. É o dia do professor. É o melhor dia para a sociedade civil apoiar o operário da máquina mais bonita. A cabeça de cada um.

Em 2013 a Globo se desculpou por 1964

Caralho. A reportagem da GLOBO, nesse exato momento, no JORNAL NACIONAL, sobre a greve dos professores e os acontecimentos de hoje teve direito a gravação telefônica com o prefeito dizendo mais ou menos assim:

"A maioria dos professores do SEPE são filiados ao PSOL (que perdeu a eleição pra mim ano passado, né)?"
Em seguida foi dito que 15 pessoas se feriram, e 9 eram POLICIAIS. Em outras palavras, "quem mais apanhou foi a polícia". Pode crer. As tias da escola quebraram 9 policiais de porrada. Logo os do Rio de Janeiro , pacifistas que são...

Quando a reportagem ia continuar... a porra saiu do ar! Saiu a imagem, ficou o background do jornal nacional.

Corta pra Patricia Poeta falando SEM ÁUDIO. Quando deu pra ouvi-la falando ela disse: "Finalizando a reportagem... blá blá blá

Após o comercial, para minha perplexidade, a reportagem foi repetida e passou até o final.

O Jornal Nacional fez parecer que o plano de cargos e salários aprovado hoje é excelente. Que o professor agora vai virar playboy.
O comentário final da reportagem, já no estúdio foi mais ou menos:

"O líder do PSOL diz que o partido não se responsabiliza sobre as ações dos grevistas, e nem comanda as ações deles."

O QUE É LÓGICO. Eu não sou de partido nenhum. Acho na verdade que política não devia ser feita com esse modelo de representação. A política na qual acredito não tem nada a ver com partido político. Mas eu estava lá, e esse senhor realmente não me comandou hora nenhuma.

"Já os professores do SEPE disseram que têm direito de se afiliar a qualquer partido político." (sobrancelhas levantadas e os lábios se juntando em um canto da boca = cara de pouco caso)

O que é lógico da mesma maneira. Mas essa frase acompanhada dessa expressão fez a mensagem ser: "É claro que a culpa do caos no Rio de Janeiro é do PSOL que usa os professores como exército." Parece que o PSOL é o gordinho dono da bola mais forte da história do Rio de Janeiro.

Conclusões:

1-A porrada comendo a torto e a direito na rua fica reduzida a uma "birra partidária" de mau perdedor do PSOL.

2-Se eu não morasse no Rio ou no Brasil, CERTAMENTE eu estaria acreditando piamente que no Rio, o povo quebra a polícia na porrada.

3- Acho que o Jornal Nacional, expressão maior da Rede Globo, tem uma tecnologia boa demais para ter sido um acidente o fato de uma reportagem sobre revolta popular sair do ar menos de um minuto depois da reportagem dizer através da voz do prefeito que o custo social da revolta tá na conta do PSOL.

4- O áudio do JORNAL NACIONAL foi cortado por mais ou menos cinco segundos.
5-Deu merda no Jornal Nacional de hoje.
6-O Jornal Nacional de hoje vai dar merda.
7-É uma merda esse Jornal Nacional
8-Pedi demissão hoje. O preço foi bem vegetariano. Pimenta nos olhos e Vinagre nas mãos.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O GOLPE DO ENGRAXATE

Segue meu último samba, de breque. Escrito em algum dia do mês de julho de 2013


Caixinha, graxa e escova; transeunte não se mova, me deixe trabalhar
 (o seu pisante vai brilhar)
Tenho aqui tanto produto, que imitação de couro bruto reluz em cromo alemão
(por R$3,20 é um negoção!)
Não saia de fininho, tenho ali três "amiguinho" pra garantir o serviço
(vamos deixar de reboliço)
Pra quê reclamar, se o assoalho vai brilhar onde o senhor passar
(vai parecer um popstar...)

Dobro sua calça, passo a graxa, bato a caixa - pedindo o outro pé
(já sabeis bem como é que é...)
Meu pano nervoso, vai deixar tudo lustroso - e estamos quase conversados
(só falta agora meus trocados)
Pra cada pé são três de vinte, no total dá cento e vinte, pois trabalho bom é raro
(e o combinado não sai caro)
Deus do céu, não reparei. O senhor é homem da lei. Dessa vez, acho que entrei!

Meu caro cana, não se zangue, não suje suas mãos de sangue por um mal entendido
(já inclusive resolvido)
Acontece, meu nobre.. que a astúcia é a coragem do pobre - como já disse Ariano
(ainda aos vinte e poucos anos)
Leve de graça essa graxa, pra ninguém dizer que acha que tenho má intenção
(trabalhador não é ladrão)
Eu tenho é credibilidade em todo o centro da cidade, e o cliente tem razão!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Retroalimentação

Favela da Quitanda, ontem. A polícia corria atrás de alguém que corria na frente para se esconder ( quem corre para se esconder não atira pra trás). Uma bala de fuzil, uma só mesmo, varou a mãe pelas costas. Ainda correu atrás da filha , varou a cabeça.

O tiro de fuzil quando passa através da pessoa, faz uma nuvem de sangue vaporizado, como quando a gente sopra através de um canudo e a saliva sai do outro lado, em gotículas. A mãe estava de folga. A filha tinha cinco filhos e vinte e quatro anos.

Os moradores filmaram tudo o que aconteceu assim que a bala sumiu do raio de visão. Elas ainda respiravam no início do vídeo. Os PM permaneciam no local discutindo com os moradores enquanto passavam pelos quase cadáveres como a vaca passa perto da pedra. Indiferente. Por lá ficaram entre meia e uma hora. Como vacas ao lado de pedras.

Sobraram pai e filho, gêmeo da menina morta. E cinco crianças. Crianças que têm agora uma chance enormemente monstruosa de encontrar com uma bala exatamente igual à de ontem, daqui a alguns anos; quando usarem boné de aba reta, bermuda larga, e andarem gingando.

De onde veio a bala? Pergunta ao Amarildo.
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A violência povoa normalmente o inconsciente até do ser mais calmo e dócil. A existência da violência é tão humana quanto a existência da pele ou dos dentes. Mas a violência na sociedade é um mecanismo retroalimentado. Pratica-se aqui, sofre-se em outra hora. Quem sofre que praticar. Quem pratica não quer sofrer e, quando sofre, desconta no mundo inteiro praticando uma maior ainda.

Nossa sociedade procura o equilíbrio, tentando manter a violência sofrida em apenas uma camada da população, que está em áreas circunscritas da cidade. Não dá certo porque quando essas pessoas estão no estágio de "praticar uma maior ainda", praticam contra qualquer segmento da população, bastando que esteja fora de sua circunscrição.

Os "não circunscritos", descontentes ao sofrer a injúria, devolvem a violência aos mais humildes quando apoiam toda a violência que estes sempre sofreram, e pedem para que seja mais forte. E a polícia que atira ganha legitimidade. Andam pelas ruas como leões e pelas favelas como deuses. Não falam , em nenhum dos dois casos, a língua dos homens.Assim a nossa sociedade é doente. Convulsiona. Em caso como esses; em casos como a conjuntura do Rio de Janeiro, não se revoltar é ser cúmplice. Em nenhum lugar do mundo esse governo amanheceria governo. Olhemos para o Egito.

"Ou há segurança para todos, ou ninguém estará seguro" Luiz Eduardo Soares.

terça-feira, 30 de julho de 2013

No Brasil, a classe social determina que tipo de corrupção está ao alcance de cada um.

DIREITO DE RESPOSTA

Caros todos: ontem fiz duas publicações. Uma foi um texto ; minhas considerações sobre a JMJ. A outra, a foto de Willy Wonka criticando a marcha das vadias. Pois uma conhecida a quem respeito verdadeiramente ficou chocada porque concordei com o melhor fazedor de chocolate de todos os tempos. Disse que me responderia com esse texto que tinha achado brilhante. Eis o tal:

"Sei que grande parte dos brasileiros e dos meus amigos são católicos, portanto não levem minhas críticas para o lado pessoal. Elas são institucionais mesmo. Podem discordar de mim, mas minha posição sobre a quebra de imagens católicas em manifestações é muito simples: os católicos exterminaram e combateram milhares de culturas e crenças diferentes ao longo de sua história e dizimaram povos e civilizações em nome da sua fé. Não podem reclamar quando uma de suas estátuas de gesso são quebradas. E parem com comparações esdrúxulas: uma coisa é a Igreja Universal chutar uma santa numa disputa intolerante pelo lucrativo mercado da fé. Outra coisa é o grito dos oprimidos contra os opressores. Parem de mimimi. A Igreja Católica continua matando pessoas ao instruir-lhes contra o uso de preservativos, matando psicologicamente as pessoas ao reprimir seus instintos naturais, matando milhares de mulheres na luta contra o direito ao aborto, lutando contra direito de LGBTs, contra as liberdades individuais. E não quer que seus símbolos sejam vandalizados? Ora, ora... Vandalizar a vida dos outros pode? Vandalizar objetos inanimados não pode? Católicos, sejam cristãos. Depois voltem exigindo algum respeito." - Alexandre Valadão

Vamos dissecar o texto do Valadão e trazer um entendimento mais humanista para seus partilhadores.

1 - Sim, a Igreja Católica Apostólica Romana exterminou culturas, pessoas e credos. Não há quem discorde. Sim, as estátuas são de gesso (assim como os maracás dos nossos índios eram de cabaça e sementes) e rigorosamente nada mora dentro delas. Porém:

1a - Quebrar as imagens não defende as culturas destruídas pela igreja. Logo, o pressuposto verdadeiro do Valadão está relacionado a uma intenção falsa. Em retórica, o nome disso é falácia.

1b - A própria ciência diz que quem quer obter resultado diferente executando o mesmo evento só pode estar doido.

1c - Se você age errado comigo, o mínimo que devo fazer para discordar e permanecer certo, é agir pelo avesso da sua maneira. É assim que vou te deixar encabulado. Mostrando o acerto do erro que você cometeu contra mim.

2 - Sim , a Igreja mata de diversas maneiras quando "proíbe" camisinha .

2a- Eu penduro meu furingo no poste se as feministas não usam camisinha só porque a igreja não gosta.

2b - Não existe direito ao aborto. Existe responsabilidade da gravidez.

2c - Então você quer que a igreja te "dê" o direito de usar camisinha pra você não usar e abortar? Esquisito.

2d - Mais uma falácia: Valadão diz acha ruim que a igreja tenha matado e continue matando, mas luta pelo direito do impedimento à vida.

3 - Sim, a igreja sempre demonizou a homossexualidade. Sim, toneladas de peregrinos que aqui estiveram/estão , são bichas. Mas;

3a - Há o tal dossiê-bomba. Há a ala gay do VATICANO. O papa mesmo acabou de dizer que se o homossexual procurar Deus, quem é ele pra meter o bedelho (fique claro, o papa não tem nada a ver com a cura gay).

3b - Os LGBT do Brasil emitiram nota de simpatia ao papa. Esse argumento o Valadão não tem mais.

3c - Ok, um embrião não é uma pessoa. Mas não venha me dizer que dentro do seu útero se desenvolva uma forma sem vida.

3d - O embrião não tem individualidade dotada de estatuto jurídico, como a mãe. Mas o direito individual da mãe nesse caso é o sexo (com ou sem camisinha, com ou sem pessoa de sexo oposto). O direito da vida (enquanto entidade coletiva, total), maior que o da mãe.

4 - Por último, e não menos importante: "Vandalizar a vida dos outros pode?"

4a - Faço das suas, minhas palavras

4b - Valadão / Vadias : Sendo ou não cristãos, sejam humanos. A vida lhe deu seus direitos individuais (ainda que todos nós lutemos politicamente por muitos) sem nada lhes pedir. Seria lindo dar de volta à vida, o direito à vida. E a vocês, o respeito. Que é bom e todo mundo gosta. Até quem ainda não existe.

Lasciate ogni speranza, voi, ch’entrate*




Pois então, vamos falar do Papa (que aliás, no meio de tanta sacanagem, viadagem e papa-anjice na igreja, escolherem um argentino papa-chico foi pelo menos muito engraçado)? Partiu.

Depois de uma renúncia do Bento-Hatzinger e de um conclave diferente de qualquer outro, depois da criação do título de papa emérito, depois de tudo isso e mais um pouco vem uma notícia de que rola um dossiê-bomba no Vaticano. O então papável brasileiro, Odilo Scherer, em entrevista ao canal livre, confirma a existência desse dossiê, mas não entra em detalhes.

Beleza: existe de fato um dossiê-merda-no-ventilador; e nem mesmo um cara que teve disciplina de seminarista/ jovem hitlerista/SS/padre/bispo/arcebispo/cardeal/papa conseguiu ver uma maneira de lidar com isso. Pois é. Não precisa ser teólogo pra saber que ali tem : sacanagem com dinheiro (Banco do Vaticano) e com crianças. Senhoras e senhores: há uma "ala gay (caralho!)" entre os celibatas (ô porra!) do Vaticano. Pois é.

 Mas quando a situação produz fumaça preta, o melhor a se  fazer é uma fumaça branca. De toda essa nebulosidade da fumaça preta com a fumaça branca saiu o Papa Chico. Logo no início, a fumaça preta contida no novo Papa pesou quando o acusaram de ter colaborado com a ditadura argentina. Não ouvi ou pesquisei mais do que os rumores. Porquê a fumaça branca que tem nesse novo papa é de excelente qualidade. O cara inebria, e não há quem discorde. Tem sorriso de ser humano enquanto o Bento sorria feito vilão da Disney, para carro pra beijar bebê (mesmo já estando eleito), troca de chapeuzinho com qualquer um na rua, manda botar água no feijão... o cara é um fenômeno.

É o Papa da quebra de protocolo. Não usa aqueles chapéus que tem que equilibrar na cabeça, nada de "vamos orar pelos famintos enquanto eu seguro essa cruz de ouro" De tanto quebrar o protocolo, o protocolo é quem deve ser alterado. O cara disse que ateu não vai pro inferno, uma vez que o amor de Deus é incondicional, e a todos (todos é TODOS pro cara). Aliás , o Vaticano emitiu nota corrigindo o Papa. Ateu vai mesmo é pro mármore do inferno , virar churrasco na mão do chifrudo. Bom. Aqui já temos uma pergunta : manter o ultraconservadorismo da instituição vale o preço de quebrar a infalibilidade do Papa? Tapa aqui, descobre ali?

Pois então. Veio a jornada. Hahá, veio mesmo a jornada. Veio muito diferente da Copa das Confederações.  Veio de católicos, ainda que turistas. Mas veio mais de católica que de turista (embora eu não tenha visto caridade deles para com os pobres brasileiros). Gastaram pouco com tudo. Nossos católicos cederam suas casas para hospedagem. As igrejas cederam seus imóveis ociosos. Mas ainda assim, surgiu o novo mercado. Turismo religioso.

Particularmente eu achei maravilhoso quase tudo o que aconteceu durante a JMJ. Os caras chegaram aqui. Parou o metrô. O Papa chegou e ficou engarrafado! Sensacional! Os ônibus onde nós já não cabemos há muito tempo apertaram gente do mundo todo. Ainda que por motivos diferentes, mas assim como nós, os peregrinos cantavam dentro de um ônibus irrespirável. A imprensa americana fez a seguinte manchete: "Então nós perdemos para isso?".  Meus caros, o mundo inteiro viveu como carioca por uma semana. Nossos protestos estão legitimados em escala global.

O "terreno" onde seria realizada a missa campal é de propriedade de Jacob Barata, dono das latas de sardinha nossas de cada dia , sogro do prefeito, pai da advogada do Metrô Rio e das Barcas / Ponte CCR. Era um mangue. Um dos poucos que o Estado tem. Pois ele foi aterrado com lixo hospitalar, aquelas velhas obras de maquiagem foram feitas no entorno, e... a fundação cacique cobra-coral deve ter sacaneado o prefeito, já que não conseguiu segurar uma chuva em JULHO. Nem os fuzileiros conseguiram realizar um treinamento naquele chiqueiro. Mas um crime ambiental feito entre amigos, e com consentimento nunca será crime. Aquele bom, velho e enorme dinheirinho que nós jogamos no lixo, e eles, no bolso.

Uma pessoa do trabalho havia me perguntado ser haveria manifestações durante a jornada. Eu respondi que não sou organizador de nenhuma manifestação, mas tinha certeza que elas aconteceriam, já que durante a JMJ seria a única vez na qual certamente ninguém levaria porrada. Bingo.

E mais do que nunca, o papa é pop. Disse que um cristão que não é revolucionário (logo, questionador) não é um bom cristão nos dias de hoje. Falou sobre corrupção nos governos, e estava no Rio de Janeiro. As manifestações foram de encontro ao Papa. Conseguiriam encontrá-lo caso não tivessem feito um cordão sanitário na areia da praia. Quem é do Rio e não é voluntário, do lado de lá. Mas , infelizmente, tem gente que pede a liberdade para usar da pior maneira possível.

Estou falando das mulheres que reforçaram a alcunha de vadia sobre a mulher brasileira. Logo elas, tão feministas. Tão "vamos ser igualitários". Tão " não me impeça de exercer meus direitos". Se nas manifestações com Black Block o tema era "Papa, veja como somos tratados" , a das vadias poderia ter sido "Papa, veja como tratamos vocês".  Quebrar imagens de santos na frente das pessoas? Caralho! A legitimação que os protestos haviam ganho pelos perrengues que os gringos passaram foi esquartejada naquelas imagens. De quebra, deram força ao Vaticano que pôs vocês no inferno.

Quem está falando aqui não é nenhum coroinha, muito menos beato ou ortodoxo. Já fui frequentador de macumba muito boa, hoje estudo o Kardecismo, conheço alguma coisa do hinduísmo (que é bonito demais, diga-se de passagem) e durante minha catequese, aos oito anos (talvez), tomei porrada da professora na frente da turma enquanto a velhota dizia que "este menino é um exemplo do diabo na igreja". Não tenho nenhuma vocação sacerdotal e como vimos, já fui chamado de anticristo por um membro da igreja. O lado bom é que isso me fez duvidar do que me ensinaram lá, e eu cresci procurando alguma coisa.

Até Willy Wonka já está dizendo pelo facebook: "Então você quebrou santo na marcha das vadias? Conte-me mais sobre usar desrespeito para protestar sobre desrespeito." . O sensato excêntrico dos chocolates poderia ir além :  "Então você está lutando pelo direito ao aborto? Conte-me mais sobre achar que pobre tem filho demais e deveria receber pílulas grátis, ou sobre como a população de rua deveria ser castrada!" O diabo são os outros, dizia Sartre.Queria que o povo do mundo entendesse que o que tivemos foi a marcha das vaZias.  Mas se uma pessoa ler e concordar com isso aqui, é mais uma doença que eu deixo de ter.

O direito ao aborto está muito distante de ser o direito sobre o seu corpo, vazia (aliás, se fosse para exercer o direito sobre seu corpo, bastava um remedinho). Mas não vamos bater boca. Agarrar dessa maneira o aborto é algo que está atrelado a uma enorme ignorância sua, que você não percebe justamente porque estudou em excelentes escolas e faculdades. Já começaram a postar pesquisas onde o perfil de quem faz aborto é mulher católica e casada. Nenhuma delas foi lá protestar. Quem protestou foram as vad(z)ias. Ontem protestamos porque não nos submetemos às leis. Hoje, para criarmos a lei do aborto (?) .



A jornada terminou. O Papa foi-se embora. O legado religioso foi uma tomada  de fôlego do catolicismo em um momento no qual os problemas velhos e conhecidos tornam-se públicos e oficiais. O balanço político da jornada é o enfraquecimento das figuras públicas do prefeito e governador do Rio (com mira laser na cabeça, na capa da Carta Capital). Os de São Paulo em menor escala. Da presidência na escala macro. Mas ficou escrito na porta do Brasil :

Lasciate ogni speranza, voi, ch’entrate


“Abandoneis todas as esperanças, vós, que entrais” - Inscrição feita na porta do Inferno em A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

sábado, 22 de junho de 2013

HUMANISMO XXI


                                                                                      


Precisamos de uma humanidade preocupada em dar a cada homem, a possibilidade das melhores possibilidades.  Quando o cardume de peixes pequenos se junta , o peixe maior entende que é um bicho maior que ele e vai embora. Os porcos espinhos entendem que é melhor se juntarem, mesmo  espetando uns aos outros, do que morrerem todos de frio, cada um em seu canto. A cooperação é a ideia mais forte da vida. E logo, de sua manutenção.
                Hoje, o ser humano convulsiona pelo mundo inteiro. Convulsionamos porque nós mesmos estamos sofrendo as convulsões a que forçamos o planeta. Mau intencionados com o outro que somos, somos nossos escravos desde sempre. Mesmo que com modelos diferentes através do tempo e do espaço.
                Muitos povos estão protestando pelo mundo. Conhecemos suas causas em maior ou menor escala. Não é que o homem esteja insatisfeito com seu governo. O homem está insatisfeito com a humanidade. É esse o cardume que agora se forma. Os inquietos, os insatisfeitos. Aqueles que querem que tudo, tudo mesmo seja diferente. Muitos não sabem o que fazer para construir um mundo que não sabem exatamente como deveria ser. Mas todos concordam que não é esse o mundo.
                Esta ideia cabe em qualquer lugar do mundo. Não importa em que língua ou em que lugar ela tenha sido escrita. Importa sua existência, pois essa é a importância das ideias. O problema que ainda temos é que transformamos em prática, somente as ideias que acreditamos ser obrigados para a manutenção da nossa vida em particular. Essa é a causa da convulsão, que não é particular. E até nosso tempo, estamos cuidando apenas dos sintomas, nunca da causa.
                Continuamos a acreditar que cada lugar é um lugar. Que existe lado de fora. Que somos o contrário do que não gostaríamos de ser. Praticamos as mesmas ideias até nosso tempo. E estamos convulsionando todos juntos , justamente porque não praticamos as ideias que são fundamentais para a manutenção da vida do outro. É o porco-espinho mais próximo que me fornece mais calor para que eu fique vivo.
                Todos tínhamos certeza de que nunca veríamos milhões de pessoas juntas nas ruas do mundo para alguma coisa séria. No entanto, estamos no mundo neste momento. A causa primária , bem como a última para a inquietude que há no mundo é a falta. Só vamos atrás daquilo que nos falta. Mas estamos indo atrás do que nos falta em particular. Nunca fomos atrás daquilo que falta ao outro.
                Então o mundo está errado por minha causa também. Sendo assim, quando o outro estiver bem, quando o outro estiver feliz, quando o outro não precisar se preocupar com a manutenção de sua vida em particular, ele nunca irá me atrapalhar . A minha felicidade / vida / sucesso / está em função do outro.
                Por isso, a economia baseada em dinheiro veda a possibilidade de saúde no mundo. Necessariamente ou outro deve ter menos. Necessariamente deve haver falta ao outro. Praticar as ideias que acredito ser obrigado significa ganhar dinheiro para atender minha vida em particular. Em sistemas não capitalistas significa todo mundo ter igual ou muito parecido. Em nenhum sistema significa o outro ter todas as possibilidades.
                Cada lugar do mundo possui recursos que são escassos em lugar diferente. Para que todos tenham todas as possibilidades, os recursos naturais do planeta devem ser distribuídos globalmente.  Não em um modelo de compras, mas em um modelo colaborativo. As pessoas nas ruas por todo o mundo geram uma força capaz de trazer esta ideia para o mundo da prática. Porém os governantes do mundo tentam desajeitadamente atender a demandas que no final das contas ainda são relativas a particularidades. Como por exemplo, revogar o aumento do custo do transporte no Brasil, ou deixar de destruir uma praça na Turquia.
                A tecnologia de nosso tempo permite a distribuição descomplicada de qualquer coisa pelo mundo.  O que impede a distribuição de chegar a todos é o sistema de compras. O dinheiro. O dinheiro permite que o continente dos diamantes seja o mesmo da peste.
                A distribuição de recursos em um modelo colaborativo imperativamente destruiria a possibilidade de existência dos serviços e elementos da economia baseada em dinheiro. Bancos. Seguros. Juros. Crises. Patrão. Dono dos meios de produção. Falta. Qualquer pessoa poderia ocupar na sociedade, o papel que melhor e com mais prazer desempenha. Todo homem teria a alma livre e feliz do artista.

Esta ideia não respeita cargos. Não respeita sexo. Não respeita distância. Não respeita diferenças. Neste caso ela é muito perigosa hoje. Mas ela é maior que o tempo de hoje. Imagine essa ideia em um microfone na frente de milhões. Imagine a que velocidade cresceria o cardume. Se você gostou dessa ideia, passe adiante. Dê ela de presente a alguém. Traduza para outro idioma. Leve ao outro. Porque o outro é a sua finalidade.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O fruto, a praga, e o curinga do baralho

Quando eu era um só, meu sonho era impedir o aumento da passagem de ônibus/metrô/trem/barca. Hoje eu sou centenas de milhares. Em questão de horas , serei milhões.  Semana passada eu era qualquer bundão. Hoje vocês são meia dúzia de bundões.

Raul Seixas dizia que é no tronco que mora o curinga do baralho. O tronco do preço da passagem, da qualidade do hospital, da subpopulação que o sistema gratuito de ensino produz já de sacanagem, dos sistemas penal e prisional arquitetados pra prender e matar pobre e preto, do perfil do policial brasileiro (seja ele de que polícia for), de uma constituição que pesa quilos demais pra poder se mexer por conta própria... esse tronco não pode dar fruto bom.

Quando eu era um só eu comia desse fruto que tem gosto de vinagre todo dia, sozinho. Essa semana , os centenas de milhares que sou eu, estou levando toneladas  fruto desse tronco pra comer na rua. Os senhores não sabiam disso, mas toneladas desse troço dá náusea. E eu com essa quantidade de eus, estou vomitando sem parar. Todos os dias, em qualquer lugar que sou mais de meia dúzia .

Em qualquer lugar do mundo o Brasil é um país legal pra dedéu, e tal, democrático... o país das maravilhas.  É porque o fruto tipo exportação que sai desse mesmo tronco é o melhor do mundo, segundo o mundo inteiro.

A questão é que a arvore está com praga. Os direitos humanos são comandados por um pastor de merda que essa coca aí, é fanta. O presidente do senado (e quero lembrar que esse ano esse cara chegou a assumir a PRESIDÊNCIA DO BRASIL, pois a presidente e o vice estavam fora) é um condenado pela justiça. Um “genuíno” ladrão , também condenado por um esquema de propina , além de não ser preso ainda assumiu cargo público eletivo. A presidente conseguiu na mesma vida ser guerrilheira pela liberdade e perseguidora de movimentos sociais.

O Maracanã, no Rio, foi construído (ou quase isso) a um bilhão e lá vai fumaça. Vendido. A Marina da Glória, no Rio. Vendida. A reserva, no Rio. Vendida. Estão prendendo, matando e escondendo os pobres, mas quem manda em Zé Pequeno é Carlinhos Cachoeira, meu Capitão. A favela é ponto turístico e agora tem até festa que só entra rico.

As ruas em que hoje vomito, já foram fechadas algumas vezes por gente do Estado inteiro, a mando do Governador. PARA o Governador, que nunca vi royalties no transporte público nem em nenhum pedaço do fruto de que como. E ninguém ligou se meu direito de ir e vir foi lesado. Mas eu ainda era um bundão qualquer.

Hoje resolvi enfiar toneladas desse fruto goela abaixo de vocês, que são meia dúzia de bundões. Me falem sobre o gosto... não pode fazer cara feia não, hein. Essa é a igualdade como castigo. Até semana passada, cada um na rua era um inimigo em potencial. Hoje todo mundo sou eu, e sabemos quem são vocês. A Prefeitura de São Paulo está sendo invadida nesse exato momento. O prefeito fugiu de helicóptero.  Vocês podem correr, mas não podem se esconder.

Sempre haverá os mais exaltados. Sempre alguém vai pela porrada. Mas já disseram que “não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade doente”. Quem depreda é simplesmente um produto do sistema. É meu tique nervoso. A Acrópole está na Grécia, o Coliseu , em Roma. Os dois quebrados.  Milhares de livros escritos sobre o dia em que foram quebrados. Não é isso a História ?

Não é hora de tapar o sol com a peneira. Coisas vão ser quebradas. Todos os dias. Efeito colateral. Leiam a bula. Milhões de bulas.  Eu vou conseguir dar jeito no tronco. A melhoria do transporte público em todos os sentidos vai ser só uma das consequências da árvore sadia. O fruto vai ser delicioso, e a preço de banana. E vocês que comam comida azeda na cadeia.
Prazer: povo Brasileiro. Novo portador do curinga do baralho.

sábado, 15 de junho de 2013

O poder da interrogação

O que acontece quando fazemos perguntas? Pare debaixo de um viaduto e pergunte "onde tem fulanos milhões aqui? ". Entre no ônibus/metrô/barca e pergunte "será o caralho que tem três reais vezes um milhão de milhões de pessoas indo e voltando todos os dias aqui dentro dessa lata de sardinha ?". 

Faça-me o favor, cara pálida. O negócio aqui é escrachado mesmo. Aqui eu e meus iguais , parecidos e diferentes tentam chegar sem feder e ainda com seu celular no trabalho todos os dias, e pagando uma sacanagem por isso!

O jornal falou que os manifestantes quebraram um ponto de ônibus. Eu te pergunto quantos pontos de ônibus você já viu inteiros fora da zona sul/barra antes dos protestos. Responda aí nos comentários, tô pedindo numa boa. Você não respondeu porque isso é o vandalismo, e você sabe disso.

Um auto de resistência forjado é classificado como "um caso isolado", "o soldado foi transferido para funções administrativas". Um ponto de ônibus quebrado foram "os manifestantes". Todos eles juntos.

Ali tem muita gente diferente. Tem muito grupo diferente, mas todos no mesmo local. A tensão e o conflito foram apenas no final. Foram várias horas de protesto pacífico. Uma hora e pouco de conflito. Será que todos os manifestantes juntos são perigosos , ou um pequeno grupo do grande grupo que esteve lá, ficou até o final porque foi lá pra cair na porrada com a polícia?

Quem foi ali e sabia o que estava fazendo foi embora quando o pau quebrou, que malandro que é malandro sabe que duas pedras e uma voadora não põe a polícia do Rio pra correr. Mas tem muito rebelde sem causa, mas com peito de aço nessa cidade. Deixa rolar...

Hoje , o problema em São Paulo é a copa. Niterói marchou das Barcas em rush pela Amaral Peixoto até a Câmara. O jornal achou ruim que a avenida foi interditada. Aposto meu salário (que ainda paga umas passagens quando o Riocard acaba) que o jornalista mora no Rio. Nasci em Niterói e sei que a Amaral Peixoto é morta durante a noite. Os ônibus cortam a avenida em diagonal por todas as pistas, em velocidade de montanha russa. Só fez diferença porque o trânsito já está desviado pelas obras do mergulhão, que sinceramente, sei lá se é bom negócio.

Serginho. Dudu. Vocês têm um grande problema. Dilma, você também. O mundo todo está vendo. Repito aqui a frase que já é bordão do carioca há alguns anos. "Imagina na copa?" Ou alguém aí ainda acha que isso tudo não está acontecendo de propósito, neste exato momento? Aconteceu a menos de 7 dias da Copa das Confederações. Um grande aumento da tarifa estava previsto desde as últimas eleições municipais , ainda em 2012.

Doutores: vai ter protesto em dia de jogo. Os rebeldes sem causa vão ficar até o final e vão tomar porrada de novo. Só que isso vai estar na tela de cada tv do mundo, porque vai ser transmitido junto com o maior esporte do mundo. Olha em que merda vocês foram se meter.

O povo que vê ponto de ônibus com vidro limpo todo dia de manhã vai acreditar que é vandalismo. Só que o resto do mundo não vai não. E "os manifestantes" terão a seu favor, os últimos anos de governo dos senhores. Soco na cara, Maracanã de um bilhão e ainda assim feito nas coxas (inaugurado sem que estivesse pronto. Chegaram a interditar, mas os senhores "desinterditaram" na porrada), tiro na cara de gringo em "comunidade pacificada", caça aos mortos-vivos na Av. Brasil, enfim: escolham suas desgraças...

Tomara que nenhum de vocês leia isso, porque se do prefeito eu posso tomar um soco na cara, imagina do Governador, da presidentA que não aprendeu gramática quando era estudantA (???).

O que o resto do mundo vai pensar quando uma presidente que foi guerrilheira, presa e torturada pela ditadura prender estudantes por terrorismo (por pixar ônibus e quebrar vidraça)? É o poste mijando no cachorro, ou seja, um ato político com a cara e o cinismo do Brasil.

Cabral "vendeu" o maracanã pro dono da cidade (Eike absurdo!) por trinta e cinco anos. Pois eu aceito pagar a passagem no valor que está se ele decretar que vai ficar nesse preço por trinta e cinco anos. Pegadinha dos malandros. E olha que a polícia Federal foi proibida por "gente muito poderosa" de continuar investigando os senhores.

Eu não fui lá segurar bandeira. Mas já andei muito no metrô com a cara colada no vidro e com um só pé no chão, porque não tinha onde pôr o outro mesmo. Gosto quando o ônibus tem cobrador porque, além do motorista ser motorista e não fazedor de conta, dá pra ir em pé no ferro que tem do lado da cadeira dele. Do alto se respira melhor. Eu não tomei chicotada no trem da Central. Mas é só porque eu moro no centro mesmo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Revolta do Vinagre


Ainda por esses dias enquanto conversava com minha mulher, perguntei qual a diferença entre miopia e astigmatismo. Ela me disse que miopia é quando a pessoa tem problemas para enxergar o que está longe, e astigmatismo , quando não enxerga o que está perto.


Pois a política e o jornalismo brasileiros sofrem da vista. A política sofre de miopia. Não vê em outros países o que poderia aproveitar para o seu. Para assuntos internos, quando diz que não sabe ou não viu nada, é que virou a cabeça ou olhava para o próprio umbigo. O jornalismo sofre de astigmatismo. Enxerga muito bem o que acontece além das fronteiras. Faz inclusive comentários políticos sofisticados. Mas se o problema é no quintal, ou não enxerga nada ou, quando olha, vê tudo fora de foco.

Por mais de um ano, eu trabalhei no aeroporto do Galeão. Tenho a sorte de morar na Lapa, centro do Rio. Isso me economiza em tempo e dinheiro. Só que não. Para chegar ao aeroporto internacional preciso pegar o azulão, que parte do outro aeroporto da cidade; o Santos Dumont. Para chegar a este, preciso pegar um ônibus comum. Não fico nem dez minutos neste primeiro ônibus e já se foram R$2,95. Salto desse primeiro transporte na Academia Brasileira de Letras e ando mais de quinze minutos até o Santos Dumont. Pago caro para ficar no meio do caminho.

Aí vem a facada de R$ 13 do azulão. Confortável, com seus bancos reclináveis, tv e ar condicionado glacial, tem diferentes itinerários. O que eu costumava utilizar é o chamado expresso, que vai pela linha vermelha e faz todo o trajeto em 15 minutos. Minha ida e volta pro trabalho fica então em R$31,90! Claro, fica nesse valor caso eu não precise de ônibus para mais nada durante o dia. Não conto aqui com meu trajeto para a faculdade. O caso é que com quatro dias de trabalho, gasto um valor que me permite ir a Cabo Frio ( onde a passagem de ônibus custava até pouquíssimo tempo, 50 centavos) de avião.

Em 22 dias de trabalho no mês, gasto um salário mínimo e mais uns quebrados. Para chegar no trabalho. Gasto mais indo trabalhar do que com almoço na rua e compra de mês em casa. Nos finais de semana , visito minha mãe, que mora em Niterói. Uso as barcas, que pertencem à mesma empresa que controla o pedágio na ponte Rio-Niterói (CCR). A tarifa das Barcas custa R$4,50, trajeto de 12 minutos. O minuto da barca é mais caro que o minuto do cruzeiro do Roberto Carlos. Eu não estou brincando. Fico imaginando como seria uma greve da CCR, aí sim, liquidando o direito de ir e vir.

O trajeto ao Galeão não é o padrão do carioca, tudo bem. Mas algo está realmente muito errado. Para o mesmo Galeão, um ônibus que parte de Niterói (!) custa por volta de 6 reais. Qual é o critério? Há critério?

Vamos ao protesto em si. Há alguns meses, jovens foram às ruas no sul do país. Conseguiram impedir o aumento das tarifas. Não houve violência. Nos últimos dias os protestos foram no Rio e em São Paulo. Aqui no sudeste a coisa foi um pouco diferente.

Quero já agora deixar um ponto muito claro. Nos dois Estados foi possível ver bandeiras do PSTU. Ignorem. Primeiro que não é apenas o PSTU que anda de ônibus no Rio. Segundo , porque o afiliado ao PSTU “luta pelo direito do trabalhador” , mas vá lá perguntar quais deles trabalharam ou trabalham na vida. Alguns são formados em piano clássico, outros levam seu violãocelo por onde andam. A cara do trabalhador carioca, certo? Digo isso pois conheço muitos dos que lá estavam. O partido está recheado de comunistas que tomam chopp e cerveja Heineken no Garota do Flamengo (que eu já vi) . Minhas desculpas e pêsames aos pobres de dentro e de fora do partido. A questão é que o partidário do PSTU vive de “vamos fazer um ato”. Isso não é política, mas seu esvaziamento.

O problema deste partido é que não respeita quem, por exemplo, estava no protesto e não é PSTU. Se eu estivesse no protesto e fosse capturado por uma imagem aérea, qualquer um diria que integro o partido, enquanto discordo enormemente de sua ideologia. Fica claro que o partido, para eles, é maior que o povo (pelo qual eles dizem lutar). É o que nos restou dos heróis da cúpula vermelha. Projetos de herói made in Europe.

Esclarecida a questão da bandeira vermelha, vamos ao que não foi dito. Pois o não dito interessa muito. Tiro de borracha. Teaser. Gás lacrimogênio . Spray de pimenta. Armas não letais, para vendermos uma imagem de respeito aos direitos humanos. Mas já que a arma não mata, a polícia vai usar a bala de borracha para dar tiro nos olhos, na boca das pessoas. Vão juntar 6 policiais para bater em uma pessoa já controlada. Vão usar o teaser na cabeça, no coração. Vão usar spray de pimenta em crianças com menos de 10 anos (foto que correu a internet, em outro episódio) Já que não mata, vamos causar sequela.

“A distância segura para um tiro de borracha é de 50 metros. Atirar a distância menor é assumir grande risco”. Palavras de um soldado da Aeronáutica que já tomou tiro de borracha a 50 metros e foi neutralizado. Pois a polícia atirou a curtíssima distância. Estourou o globo ocular de uma menina perigosíssima em São Paulo. E há outras pessoas com marcas de bala no rosto. É a mesma polícia que aumenta o índice de autos de resistência, deixando corpos com tiros no rosto, cabeça, mãos e antebraços (o que evidencia tentativa desesperada e inútil de defesa por parte da vítima). Mas o Arnaldo Jabour tem a cara de pau de dizer que a menina tomou tiro no olho porque não queria desembolsar vinte centavos. Quando o Jabour fala , é o momento no qual minha tv chega mais perto de ter cheiro.

O policial militar é em sua esmagadora maioria, um sádico. Entra na corporação com cabeça de bandido. “Vou matar vagabundo. Vou fazer salário extra. Vou almoçar de graça. Vou dar tapa na cara. Vou oferecer proteção privada ao comércio que não quiser ser assaltado”. Pra você que nunca ouviu dizer nada disso, ou que acredita que estou aumentando as coisas, me pergunto como meu texto chegou na sua mão, aí dentro da sua redoma de vidro blindado. O que eu estou dizendo; já disseram Luiz Eduardo Soares na sociologia, Paulo Lins na literatura, Mano Brown no rap, e por aí vai.

A questão é que o soldado tem uma roupa que o investe de poder , autoridade e fé pública. “Ah, os coitados ganham muito pouco”. Concordo plenamente. Mas a polícia Federal ganha muito bem, e muitos dos policiais federais que eu conheço também são corruptos. Rio e São Paulo são uma guerra de equipes de bandidos. Com camisa e sem camisa, como eu brincava na infância.

Se os policiais e grande parte dos leitores do meu desabafo dizem que quem virou bandido e cracudo virou porque quis, eu pergunto a vocês, “doutores”, quem vos obriga a vestir seus trajes oficiais. O altruísmo ou o interesse? Coloque aqui sua risada.

Um adendo. O governador é o comandante geral da polícia. Então, quando uma bala de borracha é deflagrada, quem atira é o Geraldo Alckmin , é o Sérgio Cabral Filho (dela mesma).

Alguns já chamam os episódios de “ a revolta do vinagre”. O vinagre reage amenizando os efeitos do spray de pimenta. Mas você vai acreditar quando o Bonner disser que vinagre dá pra fazer bomba caseira.

Infelizmente, as coisas só costumam ser resolvidas no Brasil quando o problema faz barulho fora do país. Pois a imprensa internacional está cobrindo a revolta do vinagre. Há uma reportagem do El País correndo a internet. E lá eles disseram algo parecido com “a classe média brasileira, sem costume de protestos, aplaude as autoridades”. O El País está falando dos fãs do Capitão Nascimento. E são muitos. Em contrapartida, nossa imprensa diz que os protestos são um movimento de classe média. Devem ter dito isso por causa das bandeiras do PSTU.

Leitor, a classe média tem carro. E ainda que existam elementos de classe média nas revoltas, andar de ônibus é coisa de pobre. Então o cunho da revolta é sim popular. Até porque, os poucos pobres que têm carro , usam para passear no fim de semana. E só. Não conseguem manter o carro andando por 30 dias sem que isso seja acompanhado de prejuízo.

Copa das Confederações, Copa do Mundo. Os megaeventos sempre em Junho / Julho. Claro. Se fossem no verão , só os esportes aquáticos seriam possíveis, com as inundações que param os Estados do Rio e São Paulo todos os anos . Mas a estiagem não cala a inteligência. Os protestos pelos vinte centavos, seu Arnaldo Jabour; não são pelos vinte centavos. São a maneira pela qual o povo começa a ser ouvido, de fora para dentro. E ainda há muito a se falar.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

05 de março de 2013 , 20:52



Na noite de blecaute, as casas parecem arregalar as janelas com medo do clarão onipresente do raio que ecoa em luz. A explosão luminosa são pratos de orquestra. O rugido da noite, os únicos surdos de bateria mais altos que os do carnaval do Rio.

Uma névoa desce pelo tapete inclinado de árvores que é o Rio, como a lava desce lenta , densa pelo relevo acidentado do vulcão, fazendo o verde vivo do bairro ir ganhando um filtro cinza. É como se uma parte do morro se desprendesse para longe.



... O que desejam vir buscar na terra as mãos em forma de raiz que se esticam pelo céu? A tempestade nos proíbe de ver o resto do universo. Mas é a luz que cintila nas estrelas, a mesma que corta a noite num brilho concentrado e estroboscópico.



As pessoas estão assistindo à novela. As pessoas estão acendendo velas. As pessoas estão ligando para a Light. As pessoas estão paradas no trânsito. As pessoas moram longe. As pessoas estão longe de onde moram. As pessoas têm pessoas na rua. Com elas, preocupação. As pessoas têm pessoas na rua. Por elas, indiferença.



Preciso tomar um banho. Tenho que chegar em casa. Preciso alimentar meu filho. Tenho que chegar em casa. Preciso começar o que tenho que entregar amanhã. Preciso estar aqui amanhã de manhã. Tenh... .



No celular com alto-falante de trio elétrico do cara de pé, num ônibus tão parado quanto cheio: “Aaaaaaaahhhhhhhhh lelek, lek, lek, lek, lek” . No fone de ouvido, Tchaikovsky – Abertura 1812.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Característica do escritor que toca o universal humano

O gênio é aquele capaz de escrever o óbvio, que passa despercebido e se torna categoria orientadora do raciocínio. E isso é extremamente difícil.